Entenda o que acontece com Cuba depois da saída de Raúl Castro do Partido Comunista

Redação Notícias
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  • Aos 89 anos de idade, Raúl Castro, líder do Partido Comunista de Cuba, se aposentou oficialmente nesta segunda-feira (19)

  • Agora, quem assume a liderança do partido como cargo de primeiro-secretário é o atual presidente do país, Miguel Díaz-Canel

  • Sem Fidel ou Raúl no comando, novas dúvidas pairam nas ruas de Havana e algo que o continente ainda há de descobrir

Aos 89 anos de idade, Raúl Castro, líder do Partido Comunista de Cuba (PCC), se aposentou oficialmente nesta segunda-feira (19). A mudança no comando comunista do país acontece após mais de seis décadas com os irmãos Castro no poder — Fidel, seu irmão mais velho, deixou o cargo em 2011 e faleceu em 2016, com 90 anos.

Agora, quem assume a liderança do partido como cargo de primeiro-secretário é o atual presidente do país, Miguel Díaz-Canel, de 60 anos. O irmão mais novo de Fidel teve papel fundamental na revolução de esquerda cubana, em 1959, preservando o socialismo na ilha.

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Raúl transformou o exército em uma força de combate exemplar que eliminou os inimigos do país, inclusive de uma invasão armada apoiada pelos Estados Unidos da Baía de Porcos, em 1961, dois anos após a Revolução Cubana que derrubou o ditador militar Fulgencio Batista.

Na prática, o cargo máximo do Executivo em Cuba já não era ocupado por Raúl desde abril de 2018, quando a presidência do Conselho de Ministros foi passada a Díaz-Canel.

Em 2019, com a nova Constituição, Díaz-Canel tornou-se oficialmente Presidente da República, com a recriação deste título, extinto por Fidel na década 1970.

Embora seja uma transição simbólica, em um país onde a maioria só conheceu Fidel e Raúl Castro à frente do poder, não significa necessariamente uma mudança na linha política cubana.

Segundo Díaz-Canel, Raúl continuará sendo consultado. “O general do Exército [Raúl Castro] continuará presente porque é uma referência para qualquer comunista e revolucionário cubano”, afirmou no encerramento do 8º Congresso do Partido Comunista, na última sexta (16).

O artesão Miguel Gainza, de 58 anos, disse, em entrevista à agência Reuters, que apoia o partido e o sistema político cubano, pois "ninguém passa fome".

"Desde que nasci, conheci apenas um partido e até agora vivemos com ele, e ninguém passa fome", afirmou ele, que trabalha na Havana Velha. "É uma pena que Fidel tenha morrido. porque ele resolvia tudo", lamentou.

Raul Castro, right, raises the hand of Cuban President Miguel Diaz-Canel after Diaz-Canel was elected First Secretary of the Communist Party at the closing session of Cuban Communist Party's  8th Congress at the Convention Palace in Havana, Cuba, Monday, April 19, 2021. As Cuban President and the Communist Party leader, he replaces his mentor Raul Castro, sealing a political dynasty that had held power since the 1959 revolution. (Ariel Ley Royero/ACN via AP)
Agora, quem assume a liderança do partido como cargo de primeiro-secretário é o atual presidente do país, Miguel Díaz-Canel, de 60 anos. O irmão mais novo de Fidel teve papel fundamental na revolução de esquerda cubana, em 1959, preservando o socialismo na ilha (Foto: Ariel Ley Royero/ACN via AP)

O que muda em Cuba com a saída de Raúl Castro

De acordo com o governo cubano, Raúl Castro oferecerá sua “orientação e seu alerta diante de qualquer erro ou deficiência, pronto para enfrentar o imperialismo como o primeiro com seu rifle”.

Além disso, a saída de Raúl foi acompanhada pela aposentadoria de outros militantes que alcançaram o triunfo da revolução em 1959, incluindo o segundo secretário, José Ramón Machado Ventura, de 90 anos, e Ramiro Valdés, de 88.

Isso é um claro sinal de que o partido está envelhecendo. De seus integrantes, 42,6% têm mais de 55 anos, o que frustra as aspirações dos jovens, segundo os jornais locais. 

Para John Kavulich, presidente do Conselho Econômico e Comercial Cuba-Estados Unidos, é necessária uma mudança geracional. "Atualmente, a idade combinada dos três líderes atuais do Partido Comunista está se aproximando dos 300 anos", disse.

Kavulich disse acreditar que há no partido uma "falta de vontade de aceitar que já não é preciso lutar por uma revolução, mas sim gerir um país não de meados do século XX, mas da segunda década do século XX".

Crise econômica devido à Covid-19

Embora tenha lidado bem com a pandemia do coronavírus em 2020 — Cuba tem mais de 11 milhões de habitantes e pouco mais de 500 mortes pela covid — a ilha passa por uma crise econômica devido à crise sanitária mundial no ano de 2021.

Se em 2020 foram apenas 12 mil casos e 146 mortes por covid-19 registrados oficialmente no país, nesses primeiros dias do novo ano a ilha já teve quase 80 mil contágios e 354 mortes confirmadas.

Cuba ainda não iniciou uma campanha nacional de vacinação, embora esteja em busca de autonomia na produção de imunizantes: duas de suas vacinas próprias, a Soberana 2 e a Abdala, já estão na última fase de ensaios clínicos, e nesse processo já chegaram a mais de 125 mil pessoas.

O governo aposta nas vacinas cubanas não só para garantir a segurança sanitária do próprio país, mas como ferramenta diplomática e para contornar a crise: a ilha de 11 milhões de habitantes quer produzir 100 milhões de doses até o fim do ano, prevendo a exportação.

Restrições dos Estados Unidos

Além disso, há um fortalecimento do embargo que os EUA mantêm há 60 anos — intensificado com o governo de Donald Trump, que endureceu as restrições para importações de produtos cubanos, por exemplo —, que somado à pandemia impactam o turismo, principal fonte de renda dos cubanos.

Em 2019, essa indústria levou a Cuba 5 milhões de turistas e US$ 3 bilhões (R$ 16,6 bi), de acordo com os dados oficiais. No ano passado, durante a pandemia, cidades turísticas se esvaziaram.

Soviet-era Ladas flying Cuban flags are driven past the U.S. embassy during a rally calling for the end of the U.S. blockade against the island nation in Havana, Cuba, Sunday, March 28, 2021. Lada’s are the island’s most visible Soviet-era legacy. (AP Photo/Ramon Espinosa)
Em 2019, essa indústria levou a Cuba 5 milhões de turistas e US$ 3 bilhões (R$ 16,6 bi), de acordo com os dados oficiais. No ano passado, durante a pandemia, cidades turísticas se esvaziaram (Foto: AP Photo/Ramon Espinosa)

Para o novo líder, estão em pauta a resposta da ilha à pandemia que se agravou em 2021, as reformas econômicas que vêm sendo implementadas diante de uma crise piorada pelas sanções de Trump e pela covid-19 e o posicionamento do partido único diante de uma oposição que vem crescendo internamente e volta a ganhar espaço no noticiário internacional.

"A existência de um único partido em Cuba foi e sempre estará no foco das campanhas do inimigo", disse Raúl em seu discurso. "Esta unidade deve ser protegida com zelo e nunca aceitar a divisão entre revolucionários sob falsos pretextos de maior democracia", acrescentou.

Comitê Central do Partido Comunista

Neste domingo (18), o Comitê Central, órgão executivo do PCC, foi eleito em votação secreta por 300 delegados de toda a ilha, que representavam 700 mil militantes. Foram 114 membros eleitos, uma redução dos 142 anteriores.

A cúpula é formada por 3 mulheres e 11 homens. O órgão que representa o coração político de Cuba e é superior ao comitê também foi reduzido, de 17 para 14 membros.

Na nova equipe, o cargo de segundo-secretário foi eliminado, decisão pertinente segundo os estatutos, quando não for necessário. O posto foi ocupado por Raúl Castro de 1965 até 2011, enquanto Fidel esteve à frente da sigla, e depois por Machado Ventura, de 2011 até este ano.

O encontro das lideranças comunistas ocorre justamente em um momento de crescimento de uma oposição intelectualizada, que cada vez mais se mobiliza através da internet para arrebanhar solidariedade internacional. 

A proporção de cubanos na rede saltou de 14% para 62% entre 2009 e 2019, o que só foi possível após a chegada de Raúl ao comando do país. 

Segundo a newsletter Giro Latino, desde o fim de 2020, o chamado Movimento San Isidro é um dos que mais ocupa as manchetes fora de Cuba, tendo organizado manifestações em frente às sedes do poder público — o governo acusa o grupo de ser financiado pelos EUA e já prendeu algumas de suas lideranças.

Sem Fidel ou Raúl no comando, novas dúvidas pairam nas ruas de Havana e algo que o continente ainda há de descobrir.

Durante o congresso, que começou na sexta (16), o partido adotou uma resolução para enfrentar a “subversão política e ideológica”, enquanto ativistas, jornalistas independentes e artistas denunciaram no Twitter que a polícia os impedia de sair de casa, recurso utilizado para impedir que se encontrassem.

“O que temem os participantes do 8ºCongresso PCC? Que arruínem a festa de simulações”, escreveu Erika Guevara-Rosas, diretora da Anistia Internacional nas Américas, no Twitter. “Enquanto se dão tapinhas nas costas por manterem seu regime autoritário.”