Entenda o que está acontecendo na Rússia: pode terminar em guerra?

João de Mari
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In this photo taken from a video distributed by Russian Defense Ministry Press Service, on Wednesday, Dec. 9, 2020, Russian a rocket launches from missile system as part of the drills, a ground-based intercontinental ballistic missile was launched from the Plesetsk facility in northwestern Russia. The Russian military has conducted sweeping drills of its strategic nuclear forces that featured several practice missile launches. (Russian Defense Ministry Press Service via AP)
Com o reforço militar por parte da Rússia, a tensão com países do Ocidente, como os Estados Unidos, e a vizinha Ucrânia, aumenta (Foto: Russian Defense Ministry Press Service via AP)
  • Um grupo de navios enviados pela Rússia percorre as águas do estreito de Bósforo, que separa a Europa da Ásia, desde o último sábado (17)

  • Com o reforço militar por parte da Rússia, a tensão com países do Ocidente, como os Estados Unidos, e a vizinha Ucrânia, aumenta

  • Especialista ouvido pelo Yahoo! Notícias explica o que está acontecendo e se há possibilidade real de guerra

Um grupo de navios percorre as águas do estreito de Bósforo, que separa a Europa da Ásia, desde o último sábado (17). São dois navios de guerra russos e mais 15 embarcações menores que seguem a caminho do Mar Negro. Com o reforço militar por parte da Rússia, a tensão com países do Ocidente, como os Estados Unidos, e a vizinha Ucrânia, aumenta.

A Ucrânia e países do Ocidente pediram que a Rússia retire suas tropas da região. No entanto, o governo do presidente Vladimir Putin alegou que tem liberdade para movimentar seus militares em seus territórios e disse que essa era uma "questão interna".

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Putin, no entanto, não escondeu que o governo russo também pode usar suas forças para proteger civis diante de ameaças no território controlado por "rebeldes separatistas", como ele mesmo diz. Antes disso, houve movimentação militar por parte da Ucrânia.

Em entrevista ao Yahoo! Notícias, o cientista político e pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia da Universidade de São Paulo (USP), Vicente Ferraro Jr., avalia que a movimentação dos russos pode ser uma tentativa de fazer a Ucrânia "mudar de ideia" sobre uma possível tentativa de retomada de poder das regiões.

"Possivelmente o principal objetivo da Rússia é dissuadir a Ucrânia de eventualmente tentar retomar o controle sobre as regiões separatistas do leste, mantendo o status quo do conflito. Em março, as tensões e troca de tiros foram retomadas na zona limítrofe entre o exército ucraniano e os separatistas", diz.

Ferraro conta que ambos os lados acusam um ao outro pelas agressões. Ele explica que na maioria dos casos, essas regiões se mantêm independentes com o apoio direto ou indireto da Rússia, por isso são denominados "conflitos congelados".

"Em 2008, o governo da Geórgia tentou retomar regiões separatistas e foi repelido pelo exército russo. A Rússia utiliza sua influência em tais conflitos como instrumento de barganha com os respectivos países".

A Ucrânia fazia parte da União Soviética até a dissolução do bloco, em 1991. Desde então, a Rússia busca manter o país em sua área de influência. Nos últimos anos, a Rússia conferiu cidadania a muitos habitantes das regiões separatistas da Ucrânia - mais de 600 mil pessoas nas regiões controladas por rebeldes receberam a cidadania.

A Ucrânia acusa a Rússia de violações do cessar-fogo frequentes nas últimas semanas. Segundo autoridades ucranianas, cerca de 30 dos seus militares foram mortos neste ano no conflito, enquanto 50 morreram durante todo o ano anterior.

Pode terminar em guerra?

Na visão de Ferraro, não há possibilidade de uma guerra de grandes proporções. Isso porque, segundo ele, a Ucrânia dificilmente arriscaria tomar medidas que podem acarretar um conflito.

“Não acredito que haja possibilidade de uma guerra de grandes proporções. A Ucrânia dificilmente arriscaria tomar medidas contundentes sabendo que o exército russo poderia iniciar uma contra-reação para além das regiões separatistas”, conta.

Além disso, o cientista político ressalta que a Rússia vem sofrendo impactos econômicos com países do Ocidente e que, por este motivo, não arriscaria perder prestígio internacional

“Por sua vez, a Rússia vem sofrendo os impactos das sanções econômicas impostas pelo Ocidente e dificilmente arriscaria tomar medidas que viessem aprofundar o seu isolamento. É provável que o status quo do conflito se mantenha”.

Pakistan's Navy commandos conduct a counter terrorism operation during the “Aman” or peace exercise in the Arabian Sea, off Karachi, Pakistan, Monday, Feb. 15, 2021. Warships over 40 countries including the United States, Russia, Britain and China are participating a five-day multinational exercise hosted by Pakistan Navy in the Arabian Sea as part of Islamabad's years-long effort to bring security to the area, Pakistan navy said. (AP Photo/Mohammad Farooq)
A tensão provocada por uma possível guerra, no entanto, rendeu bons resultados para a gestão do presidente Russo (Foto: AP Photo/Mohammad Farooq)

Entretanto, o governo Putin não esconde que caso a Ucrânia tente retomar o controle dessas regiões à força "poderá intervir para proteger os seus cidadãos". A tensão provocada por uma possível guerra, no entanto, rendeu bons resultados para a gestão do presidente Russo. O cientista político destaca os "ganhos" para Putin.

"Também é interessante observar que em diferentes momentos a crise ucraniana trouxe ganhos de popularidade para Putin, sobretudo na questão da Crimeia. Manter um clima de tensão pode ter efeitos instrumentais para a política interna tanto da Rússia quanto da Ucrânia", diz.

Tentativas de fugir da “guerra”

Em fevereiro de 2015, Rússia, Ucrânia e separatistas ucranianos assinaram, a segunda parte do chamado Acordo de Minsk, do qual a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa também é signatária.

França e Alemanha ajudaram a negociar o acordo de paz assinado na capital de Belarus, que estipulava que a Ucrânia deveria conceder autonomia às regiões rebeldes até que novas eleições locais fossem feitas.

Após o pacto, confrontos de maior escala se encerraram, mas a tensão e ameaças continuaram a ocorrer.

Outra tentativa de resolver o conflito é o Formato Normandia, grupo formado por Rússia, Ucrânia, França e Alemanha, que se encontra informalmente durante o aniversário de 70 anos do Dia D, em 2014.

No final de 2019, os líderes desses quatro países reafirmaram o seu comprometimento com o acordo de paz, mas não houve progresso na resolução do conflito e as negociações do grupo de contato estão paradas desde então.

Movimento em resposta às "ameaças da OTAN"

Na semana passada, o Ministério da Defesa russo afirmou que as movimentações militares dos últimos dias fazem parte de exercícios de treinamento em resposta a "ameaças da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte)", que é uma espécie de aliança militar.

O ministro de Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, pediu nesta quinta-feira (15) por mais apoio ocidental, dizendo que "palavras de apoio não são suficientes".

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, teve um encontro com o presidente da França, Emmanuel Macron, em Paris — a chanceler alemã Angela Merkel participou da conversa por videoconferência.

Estados Unidos tentam dissuadir os russos

Para os EUA, há um aviso não tão velado de que a Rússia ainda acredita que o destino de seu vizinho é problema seu e se opõe particularmente ao objetivo da Ucrânia, reiterado esta semana, de ingressar na OTAN.

A Ucrânia não é membro da organização, mas recebe apoio dos países aliados do tratado de defesa mútua, incluindo ajuda para modernização militar, com o envio de armas como lançadores de mísseis antitanques dos Estados Unidos — além de treinamentos.

President Joe Biden meets with members of congress to discuss his jobs plan in the Oval Office of the White House in Washington, Monday, April 19, 2021. (AP Photo/Andrew Harnik)
Segundo o pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia da USP, os EUA buscam dissuadir a Rússia de promover uma eventual invasão à Ucrânia (Foto: AP Photo/Andrew Harnik)

Segundo o pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia da USP, os EUA buscam dissuadir a Rússia de promover uma eventual invasão à Ucrânia.

"A Ucrânia vem almejando ingressar na OTAN para garantir maior proteção, o que é visto com suspeição pela Rússia. Desde o início de seu governo, Putin critica a expansão da OTAN no Leste Europeu e a aproximação das fronteiras russas, tida como ameaça à segurança do país. O envolvimento dos EUA na Ucrânia é visto pela Rússia como mais um afrontamento geopolítico da organização", comenta.

Os Estados Unidos e a OTAN descreveram a situação como a maior concentração de forças armadas russas desde 2014, quando Moscou anexou a Crimeia e passou a apoiar separatistas no leste da Ucrânia.

Segundo jornais locais, as autoridades da Ucrânia estimam que até 40 mil militares foram enviados à cidade russa de Voronezh, perto da fronteira, que foi equipada com um hospital de campanha e um complexo de comunicações de longa distância. Outros 40 mil soldados teriam sido destacados na Crimeia.