Entenda o que a onda de frio nos EUA tem a ver com as mudanças climáticas

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A onda de frio que afeta parte dos Estados Unidos e Canadá já deixou pelo menos 59 mortes, segundo registros oficiais, embora os estragos causados sejam ainda difíceis de mensurar.

O fenômeno que provocou a maior tempestade de neve já registrada na América do Norte é chamado vórtex polar ártico.

Em alguns locais, como em Buffalo, no estado de Nova York, ele resultou ainda em outro fenômeno, chamado ciclone bomba, com acúmulo de neve acima de 1,5 m e temperaturas atingindo a marca de 45°C negativos em alguns locais.

Milhares de voos foram cancelados, medidas de restrição para dirigir foram impostas em cidades da costa leste e pelo menos 55 milhões de americanos continuam em um estado de alerta para o vento frio.

Dezenas de pessoas foram afetadas também por cortes na transmissão de energia elétrica devido às rajadas de vento, que provocaram a queda de fios e transmissores elétricos.

Veja abaixo como esse fenômeno se forma, qual a sua relação com as mudanças climáticas e os possíveis riscos para outros países, como o Brasil.



COMO FUNCIONA O VÓRTEX POLAR ÁRTICO?

Segundo Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP e autor-líder de um capítulo do mais recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o fenômeno que vem atingindo o Canadá e Estados Unidos, mas também o Japão, ocorreu a partir de uma queda drástica da pressão do vórtex polar ártico, um sistema de ar que fica acima do polo Norte, a cerca de 15 a 50 quilômetros acima da atmosfera.

"Esse vórtex polar ártico mantém massas de ar extremamente frias, de até -50°C, restritas ao círculo polar ártico. Com a mudança da pressão que pode ocorrer por aquecimento há uma mudança no sistema que não consegue mais conter o ar frio, e ele acaba 'vazando' para latitudes mais altas com maior densidade populacional, como o Canadá, Estados Unidos e Escandinávia", explica.

POR QUE HOUVE A ALTERAÇÃO NO SISTEMA DE VENTOS DO ÁRTICO?

Artaxo afirma que o aquecimento global é a provável causa para a diminuição da pressão do vórtex polar ártico, gerando a instabilidade do sistema. "Aumento de temperatura provoca um aumento de energia em um sistema, e é uma questão puramente física: uma das maneiras de dissipar energia é com eventos climáticos extremos", diz.

E O CICLONE BOMBA GERADO EM BUFFALO, COMO ELE SE FORMA?

Um ciclone bomba se forma com a queda drástica de pressão em um ciclone extratropical, podendo provocar ventos de alta velocidade e tempestades de neve e chuva.

Segundo Artaxo, a formação do ciclone bomba em Buffalo ocorreu porque houve uma queda de mais de um metro de neve junto a ventos fortes, provocando um centro de pressão muito baixa na massa de ar em cima da cidade, causando assim o ciclone. "Ele se intensificou em Buffalo em cima do fenômeno de vórtex polar ártico, provocando o caos que estamos vendo por lá", afirma.

QUAL A FREQUÊNCIA DE CICLONES BOMBAS?

Apesar de não ser um evento tão comum assim, eles ocorrem, explica o meteorologista do Inmet (Instituto de Meteorologia), Heráclio Alves. "É comum que massas de ar frio venham das regiões polares e provoquem ondas de frio fora de época, como ocorreu no Brasil no último ano. Já os ciclones bombas são provocados sempre por uma baixa pressão, e eles trazem ventos mais fortes e chuvas, em geral com temperaturas muito baixas", diz.

É ESPERADO QUE A ONDA DE FRIO CHEGUE AO BRASIL?

Não. Artaxo explica que a massa de ar do hemisfério Norte é limitada por uma zona chamada de convergência intertropical, próxima à linha do Equador, que separa as massas de ar Norte e Sul do planeta.

"Não há risco de chegar no Brasil, mas sabemos que esses eventos extremos e mais intensos estão ocorrendo aqui também, com secas prolongadas [como a que atingiu o Centro-Oeste no ano passado] e chuvas muito intensas", explica.

Alves, do Inmet, reforça. "Fazemos modelos e previsões de eventos extremos, como os ciclones, mas esse tipo de fenômeno é muito raro no Brasil. O que se tem mais são as ondas de frio fora da estação provocadas por uma massa de ar polar, que pode muitas vezes chegar ao sul do Amazonas, mas elas em geral mantêm uma temperatura baixa por três dias consecutivos e depois vai embora", afirma.

É POSSÍVEL ASSOCIAR A ONDA DE FRIO COM AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS?

De acordo com especialistas, o frio intenso vivido nos últimos dias nos EUA e Canadá, assim como o último verão com temperaturas muito elevadas no hemisfério Norte, são efeitos diretos das mudanças climáticas já verificados nos últimos dois anos e que tendem a se tornar mais frequentes e intensos.

Para o geólogo e professor do programa de pós-graduação em Ciência Ambiental da USP, Pedro Luiz Côrtes, os relatórios do IPCC já alertavam para essa maior intensidade de fenômenos climáticos nas próximas décadas, e agora os efeitos já podem ser sentidos globalmente.

"Com o aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito estufa, colocamos mais energia no sistema, então os processos naturais vão ocorrer com maior intensidade em virtude do aquecimento. No caso específico do frio no hemisfério Norte, ele está acontecendo em razão do aquecimento do Ártico", explica.

Artaxo também alerta para a maior ocorrência desses eventos no futuro, e reitera que eles não são novos para a ciência. "Infelizmente, isso estava programado para acontecer, os cientistas alertaram para isso há anos. Agora, o que precisamos fazer é agir contra esse aumento tanto de intensidade quanto de frequência [de eventos climáticos] diminuindo a emissão de gases de efeito estufa", afirma.

PODEMOS REVERTER ESSE QUADRO EM UM FUTURO PRÓXIMO?

Para Artaxo, o aumento da temperatura média global já está na faixa de 3°C até 2100, e isso seria irreversível. "É importante pensar que localmente o aumento pode ser ainda maior, como algumas regiões do interior do Brasil atingindo 4°C a 4,5°C", diz.

No entanto, frear as emissões agora ajudaria a diminuir a frequência com que esses eventos ocorrem, diz Cortês. "Cenários como esse são fortes indicadores de que o clima está assumindo um novo padrão em diversos locais do mundo. Aonde vai chegar não sabemos dizer, porque não paramos ainda de emitir gases na atmosfera", afirma.