Entenda o que são NFTs, ativos digitais que atraíram a Hybe, casa dos grupos de K-pop BTS, TXT e Enhypen

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RIO — A Coreia do Sul, país do K-pop, também é conhecida por ser uma potência tecnológica e, assim, em meio a criação de grupos virtuais, como o Eternity, nada é mais natural do que uma das maiores empresas de entretenimento sul-coreanas ingressar no mercado de blockchain, responsável pelas criptomoedas, como Bitcoin e Solana, e os tokens não fungíveis (NFT). Foi neste contexto que o conglomerado Hybe, detendor das agências BigHit Music, que gerencia os grupos BTS e TXT, e Belift Lab, responsável pelo Enhypen, anunciou em um briefing transmitido no YouTube na última quinta-feira, dia 4, firmou uma parceria com a empresa de investimentos Dunamu.

Song Chi-Hyung, presidente do conselho de administração da operadora, explicou que o próprio nome da companhia é uma junção de finanças e tecnologia. Ela controla a casa de câmbio digital de criptomoedas chamada Upbit, fundada em 2017.

— O tema quente da indústria de fintech deste ano são definitivamente os NFTs, ou tokens não fungíveis. Acho que a palavra "insubstituível" foi usada em uma das canções do BTS. Insubstituível, significando algo que é único. Você pode pensar em um NFT como um ativo digital insubstituível que pode ser verificado de forma segura e confiável para que todos possam confiar que existe apenas um no mundo — disse Song. — Esses ativos digitais são criados quando um conteúdo digital ou produtos específicos recebem um valor exclusivo por meio da tecnologia blockchain.

Mas, afinal, que são NFTs?

De acordo com as informações apresentadas no vídeo, a parceria entre a casa do BTS, maior grupo musical masculino da atualidade, e a referida empresa de tecnologia será voltada para o desenvolvimento de uma nova joint venture focada em NFTs. O chairman da Hybe, Bang Si-Hyuk, explicou que os fãs terão acesso a ativos digitais com conteúdo de seus artistas.

Segundo Carlos Heitor Campani, professor do Coppead da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o o primeiro passo para compreender o que essa novidade significa é entender o que de fato é um NFT e de que maneira lhe é atribuído um valor. Ele explica que a comparação mais palpável neste caso é observar um NFT como sendo uma obra de arte, só que tecnológica.

— Algumas pessoas dizem que é modinha, perguntam quem é que vai comprar NFT lá na frente. Aí eu comparo com a seguinte questão: por exemplo, qual é o valor de um quadro de Michelangelo? Ele é definido pela socidade, por quanto as pessoas que têm poder aquisitivo para pagar acham que vale. Se veio para ficar, são outros quinhentos. A gente vai ver com o tempo. Na minha opinião, vejo um caminho possível para os NFTs ocuparem um espaço, não necessariamente roubando o espaço das obras arte — acrescentou.

NFT como propriedade única

Para Guilherme Nigri, cofundador da plataforma de NFTs Tropix.io, ainda que uma imagem esteja amplamente disseminada nas redes sociais, ela ainda poderá originar um NFT valioso pelo significado que carrega.

— Existe uma tese que fala que algo é mais valioso por ser conhecido ou disseminado. Se você pensa em arte, por exemplo, provavelmente o nome de alguns artistas vem a sua cabeça e por isso a obra deles é tão valiosa. Isso vale para diversos outros tipos de mercado. Essa poderia ser uma das explicações do que torna um meme valioso — citou.

Ainda sobre esse ponto, Nigri destacou as diferenças entre os conceitos de propriedade, posse e acesso, de forma que, embora as fotos dos idols estejam circulando por toda a internet, isso não significa que elas pertençam a quem esteja salvando-as em seus dispositivos.

— Isso ocorre porque é uma tecnologia que elimina os produtos falsificados que prevaleciam no passado, deixando apenas os autênticos, e oferece benefícios legítimos às únicas pessoas que criaram um valor único e aos clientes que descobriram e deram seu apoio a esse valor — afirmou. — Portanto, é possível, através dessa tecnologia, verificar de forma transparente que ele é único, de onde é proveniente, o histórico, qual carteira detém o NFT, além de inserir regras de negócio.

De photocards impressos a NFTs com movimento e som

No briefing, Bang Si-Hyuk deu como exemplo do que pode virar NFT algo que é muito famoso entre os fãs:

— Para ficar mais fácil de entender, eu trouxe algo que tem um significado especial para nossos fãs: os cartões com fotos que os fãs colecionam — comentou ele, exibindo em suas mãos alguns photocards. — Em vez de uma única foto de quadro, ele (NFT) pode ser transformado em um cartão de foto digital com imagens em movimento e som.

Em seguida, o charmain declarou que o objetivo da parceria com a Dunamu é expandir a experiência dos fãs de forma mais diversificada e segura, considerando que as fotos podem ser autenticadas digitalmente, oferecendo exclusividade, tornando-as ativos permanentes.

NFT como ativo no blockchain

Quanto às vantagens de possuir um NFTs, Campani avalia que elas estejam muito atreladas ao gosto pessoal de cada consumidor. Para explicar, ele adotou como plano de fundo as percepções que um torcedor de futebol poderia ter.

— Se eu sou, por exemplo, flamenguista fanático e aquele gol do Gabigol no último minuto do jogo me marcou profundamente, vou querer ter um NFT daquele gol. E quanto mais exclusivo ele for, se ele for único, mais eu vou pagar se eu tiver potencial econômico por essa exclusividade. A vantagem, eu comparo, é a mesma que uma obra de arte oferece. Qual seria a vantagem de ter um quadro bonito na sala? Ali você pode dizer "é a beleza", é a questão de você se sentir bem, sentir apreço por aquele artista, aquela pintura, o que quer que seja. E aqui (sobre NFTs) é exatamente a mesma coisa.

Campani ressaltou ainda as diferenças entre as criptomoedas e os NFTs, dois conceitos inseridos no avanço tecnológico que ficou conhecido como blockchain. De acordo com o pesquisador, as criptomoedas podem ser acumuladas para serem trocadas facilmente, num processo que impõe liquidez. Já um NFT não, pois ele representa uma reserva de valor de cunho atrelado ao prazer pessoal, como ocorre com a arte.

— Entendo que o mercado vai crescer com grandes empresas gerenciando o lançamento de NFTs. E aquelas que lançarem NFTs do que as pessoas gostam vão se diferenciar naturalmente nesse mercado. Inclusive, já estou vendo no Brasil empresas dando os primeiros passos.

Compra de NFT pode ser vista como um investimento?

Se a compra de um NFT está mais relacionada a um investimento ou a uma compra de arte digital, ele acredita que existe margem para ambos objetivos.

— Como na arte, muitas pessoas compram quadros, afrescos e outros tipos como investimento; compram para depois revender. Então, eu acho que tem os dois públicos, mas ainda é muito cedo para a gente analisar, e agora eu falo como pesquisador, estudioso de investimentos. É muito cedo para entender qual é o perfil de rentabilidade de risco, principalmente, desse ativo.

Referente ao funcionamento prático de um NFT, Nigri mencionou que há várias possibilidades.

— Os NFTs podem ser utilizados de diversas formas: para criar uma maior interação com sua comunidade de fãs, para eternizar momentos e muito mais. O mercado de arte e colecionáveis é utilizado mundialmente por alguns como investimento então poderia ser um pouco de cada e dependeria do público-alvo. O NFT como é um certificado antes de mais nada pode ser utilizado em inúmeras aplicações.

No vídeo de apresentação da parceria com a Dunamu, Bang Si-Hyuk afirmou que enxerga nesse avanço um amadurecimento da própria cultura do fandom "a um nível em que as vitrines da Hybe estão agora em um estágio suficiente para serem transformadas em ativos digitais por meio dessas tecnologias".

Críticas ao impacto ambiental

No entanto, apesar desse movimento da Hybe representar novos rumos de negócios para a indústria do entretenimento, a ação foi alvo de muitas críticas nas redes sociais por boa parte dos armys, como são chamados os fãs do BTS. Isso porque o processo de um NFT causa impactos ambientais negativos. O pesquisador da UFRJ explica que a formação de um token não fungível funciona como uma espécie de "mineração", sendo necessário usar uma quantidade exorbitante de energia.

— Os mineradores, para avançarem, precisam descobrir os próximos elos da cadeia — por isso que se fala blockchain. Esse processo de descoberta de novos tijolinhos na cadeia consome muita energia. A conta é absurda. A energia estimada que se gasta nesses processos de blockchain, que dá origem ao NFT e à criptomoeda, daria para alimentar países.

Nigri também reconheceu a existência da preocupação ambiental atrelada aos NFTs e forneceu uma explicação com linguagem mais técnica de seu funcionamento.

— Para validar a rede, diversos computadores no mundo inteiro ficam ligados e realizando trabalho. Isso tem um custo energético. Por serem redes descentralizadas e com validadores no mundo inteiro é até difícil de saber qual o real impacto ambiental que essas redes possuem pois as matrizes elétricas são variadas. Pode ser mineração de fontes renováveis a poluentes.

Apesar dos impactos prejudiciais ao meio ambiente, ele destacou que já estão sendo discutidas soluções para esse problema.

— De qualquer forma, as plataformas blockchain estão procurando modificar as formas de validação para tecnologias mais verdes, um exemplo seria trocar a Proof of Work (Prova de Trabalho) pelo Proof of Stake que supostamente precisaria de poder computacional para rodar e gastaria menos energia.

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