Entenda a paixão de indianos que moram no Catar pelas seleções argentina e brasileira

Quando, na semana passada, centenas de indianos vestidos com a camisa da seleção brasileira promoveram um carnaval fora de época em Doha, no Catar, internautas e até veículos de imprensa do Brasil e do mundo questionaram a legitimidade da cena. A teoria de que eles seriam pagos pelo governo local para camuflar um suposto fracasso do Mundial foi a mais difundida. Ao tomar conhecimento disso, Sharid VP arregalou os olhos:

— Nós somos reais! Essa paixão vem do coração.

No caso dele, o amor não é pelo Brasil, mas pela Argentina. Três dias depois do desfile de torcedores com a Amarelinha, foi a vez de uma outra multidão, também formada em sua maioria por indianos, ir às ruas da capital catari demonstrar apoio à seleção de Lionel Messi. Sharid e os outros fãs dos hermanos levaram bandeiras, instrumentos musicais e muita disposição.

A grande maioria deles vem do estado de Kerala, que está entre os que mais enviam trabalhadores para a região do Golfo Pérsico. No Catar, o maior contingente de imigrantes vem justamente da Índia. Eles chegam a ser numericamente superiores aos nativos.

Num país como a Índia, em que o críquete lidera como paixão nacional, Kerala é uma exceção. Seus habitantes são apaixonados pelo futebol. A ponto de, durante as Copas, decorarem as casas e ruas, principalmente na área rural, com bandeirinhas, tintas e outdoors temáticos. Em geral, as cidades se dividem entre os torcedores de Brasil e Argentina. Mas Portugal, que já exerceu forte influência durante a época das navegações, também conta com adeptos.

— Nós admiramos a quantidade de jogadores de nível top mundial que esses países produzem. Hoje, Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo são os maiores — afirma Sharid, que mora no Catar há 12 anos e hoje é dono de um café.

Ele e outros imigrantes indianos formam um grupo chamado “Argentina Fans Qatar”, que possui perfil no Instagram (15,7 mil seguidores) e no Facebook (2,2 mil). Já os admiradores da seleção de Tite se autodenominam “Brazil Fans Qatar”. O evento de lançamento da logomarca oficial, em julho, contou com a presença do lateral-esquerdo Marcelo.

Os fãs de Neymar & Cia no Catar já organizaram até um campeonato. A disputa, batizada de “Brazil Super Cup”, contou com seis equipes: Atlético Mineiro, Santos FC, Flamengo, Rio de Janeiro, São Paulo e Jogo Bonito.

Mas é em Kerala que a celebração ganha contornos maiores. Já no clima da Copa, as cidades promoveram festas para a “inauguração” dos outdoors e, principalmente, dos painéis gigantes com o formato e a foto de corpo inteiro de Neymar, Messi e Cristiano Ronaldo. Estes itens são uma verdadeira febre entre os indianos.

Embora torçam para seleções diferentes, não há rivalidade entre os fã-clubes. Além de ninguém ousar danificar a decoração das seleções adversárias, eles participam juntos de desfiles.

No Catar, é essa massa de imigrantes que garantiu ao país a liderança absoluta entre as nações que mais compraram ingressos para a Copa (quase 950 mil bilhetes, segundo a Fifa). Sharid adquiriu para cinco partidas, sendo três delas as da Argentina na fase de grupos (contra Arábia Saudita, México e Polônia).

Os indianos, claro, não estão sozinhos. Os quenianos Thani Athman, Amur Osman e Salim Doctor estão na contagem regressiva para o jogo de estreia, entre Catar e Equador, no domingo. Os três adquiriram entradas para este e para a grande final. E não escondem a preferência por um Brasil x Argentina na decisão. Trabalhadores da indústria de gás e petróleo, eles se mudaram há um ano para Doha.

No Souq Waqif, principal mercado popular da capital, a Copa do Mundo mudou as apostas dos vendedores. As camisas e itens relacionados aos países participantes tornaram-se obrigatórios nas lojas de roupas e souvenirs. Até o kameez, espécie de “vestido” típico usado pelos homens, ganhou versão customizada com as cores das seleções participantes. Segundo os comerciantes, os produtos relacionados a Brasil e Argentina são os preferidos do público.

Nos principais pontos de encontro de Doha, como a Praça das Bandeiras, o próprio Souq Waqif e o Corniche (um grande calçadão a beira-mar), estes imigrantes desfilam com suas camisas, promovem atos de apoio e aparecem em entrevistas para as TVs internacionais. Com os altos custos para viagem e hospedagem no Catar, o público formado por torcedores vindos dos países participantes será menor e é esperado apenas para a véspera das estreias de seus países. A Copa deste ano terá a cara, principalmente, dos imigrantes e dos turistas dos países da região. E o amor deles pelo futebol é muito real.