Entenda por que a bilionária Bárbara Laffranchi briga na Justiça para comandar o hipismo do Brasil

Carol Knoploch
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A ex-técnica da ginástica rítmica da seleção brasileira, Bárbara Laffranchi usa uma frase de Rocky Balboa para explicar seu momento atual: "Não importa quão forte você bate, mas quanto aguenta apanhar e continuar. É assim que se ganha". É que a bilionária, única herdeira do casal que vendeu uma universidade do Paraná por R$ 1,3 bilhão, protocolou nesta segunda-feira ação na Justiça comum do Estado do Rio de Janeiro para assumir a presidência da Confederação Brasileira de Hipismo (CBH).

No entender dela, que elegeu o hipismo seu esporte após despedida da ginástica nos Jogos de Atenas, em 2004, e de seu vice, Fernando Sperb, a chapa rival, com Francisco José Mari e João Loyo de Meira Lins, realizou uma série de manobras políticas ilegais para vencer o pleito no último dia 29. Os dois grupos se consideram vencedores e a modalidade está rachada.

Bárbara, que teve a maioria dos votos de federações e cavaleiros em uma eleição paralela, quer assumir a presidência ou pede que a Justiça refaça o processo eleitoral, escolhendo membros da comissão para garantir isenção. Mas, se a judicialização não lhe garantir o mandado, afirma que montará uma liga independente, como o basquete, e levar seus apoiadores, entre eles as Federações do Rio e de São Paulo.

— Dou uma boiada inteira para não entrar em briga. Tenho perfil conciliador, de compor. Mas brigaram comigo e agora vou sair correndo? — indaga Bárbara, sobre o conturbado processo eleitoral da entidade. — É como o Rocky Balboa. Pode dar a porrada que der, de joelho a gente não cai. Vamos brigar até o final.

O pleito da CBH começou tumultuado já em 30 de novembro, na primeira tentativa, quando as duas chapas foram impugnadas, por falta de documentação.

Na nova data, no último dia 29, houve confusão e Bárbara e seu grupo se retiraram da assembleia oficial e fizeram outro pleito, com a presença de uma tabeliã, em que obteve maioria dos votos de federações e cavaleiros. Os dois grupos se consideram vencedores. Ronaldo Bittencourt, último presidente, deu posse a Mari, seu aliado.

— Levamos uma tabeliã para atestar em ata tudo o que aconteceria. Sabíamos que algo poderia acontecer mas não sabíamos o quê. Hoje temos uma ata notarial, que goza de fé pública, para mostrar todas essas irregularidades — explica Sperb.

Bárbara afirma que a comissão eleitoral usou diversas manobras para impedir a votação de quem a apoiava. O caso mais grave, segundo ela, é o da Federação do Rio de Janeiro. Sua presidente, Alejandra Fernandez tem cidadania espanhola, mora há 40 anos no Brasil e foi impedida de votar. Foi usado o artigo 27 do estatuto da CBH para proibir a votação (o texto diz: "para compor quaisquer dos poderes da CBH e da diretoria, a pessoa física precisa ser brasileira").

— Alejandra não é funcionária da CBH mas a entidade tem em seu quadro uma diretora argentina. A Federação do Rio é nacional. Não há vedação em relação a isso — justifica Sperb.

Kiko Mari contou que essa funcionária da CBH, "da gestão anterior", foi demitida assim que ele assumiu a presidência porque é preciso coerência. Admite que procurou a Federação do Rio de Janeiro pedindo apoio mas que não sabia que a presidente não poderia votar.

— Poderia ter mandado um representante, brasileiro, com procuração. Se os advogados descobriram isso depois, o que eu vou fazer? Não sei se pega mal, pode ser... Estamos dentro da lei. Usamos as regras à mão. Se é imoral, a Justiça que vai dizer — declara Kiko. — Eu sou o presidente. Mas se eles acham que está errado, provem e tirem a gente de lá.

Além do Rio, as federações de Alagoas e Espírito Santo, também da oposição, foram impedidas de votar. E a amazona Yara do Amaral, que mora na Europa e votaria por meio de um link, não estava conseguindo acessá-lo.

Bárbara diz que "tudo isso acabou ficando maior do que a gente". Afirma que foi pressionada por atletas e federações a entrar com a ação na Justiça ou montar uma Liga independente, permitida pela Lei Pelé.

'Vergonha e esculacho'

Doda Miranda, dono de dois bronzes olímpicos em cinco edições de Jogos, disse que o que está acontecendo "é uma vergonha" e que até atletas desafetos se uniram "pelo correto".

— É inadmissível que a chapa que assumiu tenha usado vários artifícios, de forma inacreditável, passando de qualquer limite, para vencer. Imagina a FEI (Federação Equestre Internacional), cavaleiros, criadores e investidores, terem como referência uma confederação eleita desta forma? — fala Doda.

O campeão olímpico e ex-técnico da Irlanda, o brasileiro Rodrigo Pessoa, chegou a pedir ajuda para o belga Ingmar De Vos, presidente da FEI para que a entidade não reconheça nenhum presidente da CBH até uma decisão judicial. Falou em "bagunça" e "esculacho" e lembrou que os atletas precisam de definições às vésperas da Olimpíada.

Questionada pelo GLOBO, a FEI declarou, via nota, que "está ciente sobre o assunto e entendemos que a validade dessa eleição está sendo contestada. A FEI aguardará o resultado desse processo judicial antes de reconhecer oficialmente o novo presidente e vice-presidente da Confederação Brasileira de Hipismo".

O Comitê Olímpico do Brasil (COB), por sua vez, afirmou via nota que recebeu comunicação oficial da Confederação Brasileira de Hipismo informando que o presidente eleito foi Francisco José Mari e o vice João Loyo de Meira Lins. E não quis comentar sobre a judicialização.

— Nunca imaginei presenciar algo tão lamentável. Somente nós cavaleiros, amazonas, proprietários, e criadores que perdemos com isso, pois não temos um representante nacional eleito por nós — desabafa José Roberto Reynoso, o representante dos atletas na eleição, que defendeu o Brasil nos Jogos Olímpicos de Londres-2012, e é o mais premiado ginete em atividade no país com o tetracampeonato brasileiro. — Os atletas estão insatisfeitos principalmente com a forma vergonhosa como foi.

Pedro Veniss, bicampeão pan-americano e que disputou duas Olimpíadas, se diz preocupado com a preparação para os Jogos de Tóquio. Que os atletas estão brigando pela classificação e não por política. Fala que "isso, psicologicamente não ajuda em nada".

— Temos de continuar a fazer a nossa parte, que não é política. Se tivermos uma Olimpíada, quero chegar na melhor forma possível.

Kiko assegura que a preparação da seleção brasieira não será alterada. Vai manter o mesmo técnico do último Pan-americano, Philippe Guerdat, quando o Brasil foi ouro por equipes (saltos).

— Ninguém quer estragar nada e não vamos tirar nada do ponto que já tinha. Os atletas são de ponta, frios e não ficarão psicologicamente abalados. O que ocorre é que eles não estão sabendo perder — resumiu Kiko, empresário do ramo químico e ex-presidente da Federação Paulista e do Clube Hípico de Santo Amaro.

Bilionária transformou a ginástica

Bárbara conta que foi a filha Jordana, conhecida como Kika, de 30 anos, que a levou para o hipismo. A menina começou a saltar aos 7 anos, para perder o medo de cavalo, e em 2019 foi campeã brasileira. A mãe passou a acompanhá-la e se encantou pelo adestramento. Hoje, seus cavalos, oito no total, sendo três de adestramento e cinco de saltos, são sua maior paixão — além das cadelas Alfa (rottweiler) e Carlora (collie).

Foi depois dos Jogos Pan-americanos de Lima, em 2019, que resolveu entrar na política. João Victor Marcari Oliva, filho da ex-jogadora de basquete Hortência, montou um puro sangue lusitano de sua propriedade. Eles foram brionze:

— Fui para quatro Jogos Pan-americanos e duas Olimpíadas com a ginástica e tenho noção do que é uma preparação para competições deste tipo. E vi que para o hipismo era mal feita. Fiquei indignada à época e fui me envolvendo na política — explica ela, que tem doutorado em Ciências do Treinamento pela Universidade do Porto.

Com a ginástica, Bárbara conquistou o bronze no Pan de Mar del Plata, em 1995, e o bicampeonato em Winnipeg, em 1999, e Santo Domingo, em 2003. Levou o país do último lugar ao top 8 na Ollimpíada de Sidney, em 2000 e Atenas, em 2004. Bárbara também ajudou a montar "Brasileirinho", a apresentação história de Daiane dos Santos que valeu ouro no Mundial de 2003.

Bárbara é filha de Elizabeth, árbitra internacional e diversas vezes listada entre os bilionários brasileiros pela revista Forbes. O pai, Marco Antônio Laffranchi vendeu a universidade Unopar, de Londrina (PR), referência no ensino à distância, para o grupo Kroton por R$ 1,3 bilhão.

Bárbara foi membro do Conselho de Administração da Kroton. Em 2019, sua fortuna era de R$3,57 bilhões.

—- Era talentosa como treinadora de ginástica Não tenho o mesmo talento no hipismo, mas trago a experiência. Essa vida me ensinou a ser lutadora e a não desistir das coisas.

Entre um round e outro com Kiko, ela se dedica a sua fazenda de gado de corte (onde a filha casou em cerimônia de R$ 5 milhões) e a uma empreiteira que construirá um bairro inteiro em São José dos Campos (SP). Promete injeção de dinheiro no esporte, com o apoio de um grande banco já comprometido com ela. E assim como Rocky Balboa, de Sylvester Stallone, também promete uma boa luta.