Entenda por que especialistas defendem aumento de testagem e rigor na fiscalização na nova fase da flexibilização no Rio

Letícia Lopes e Pedro Zuazo
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Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo
Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

Ao liberar todas as atividades econômicas da cidade, com o início do chamado “período conservador”, a Prefeitura do Rio modificou a regra de distanciamento que, entre mesas de bares e restaurantes, passou de dois metros para 1,5m. Para lojas e salões de beleza, a capacidade do estabelecimento, que era limitada a 4m² por pessoa, foi reduzida para 3m². Além de destacarem que a mudança de regra foi arbitrária, sem parecer estar baseada numa alteração do quadro da pandemia do novo coronavírus na cidade, os especialistas alertam que, sem fiscalização, a medida é inócua, ou seja, sem efeito.

Para a pneumologista da Fiocruz Margareth Dalcomo, a prefeitura deveria ter apresentado um trabalho técnico para embasar as mudanças da nova fase de flexibilização.

— Essas novas regras de distanciamento parecem ser completamente arbitrárias, porque a prefeitura não apresentou qualquer trabalho científico embasando a decisão — avalia.

Já o infectologista Marcos Junqueira do Lago, do Hospital Universitário Pedro Ernesto, acredita que o Rio poderá ter um aumento do número de casos e até de mortes por Covid-19 se não aumentar a testagem e monitorar os infectados. Ele também chama atenção para a falta de fiscalização:

— Essas medidas de flexibilização são inevitáveis, mas é completamente inócuo delimitar a capacidade de uma loja se não há fiscalização. Além de definir regras, a prefeitura deveria investir em mais testagem para a população de baixa renda, que ainda não tem acesso a esse tipo de exame.

Procurada, a prefeitura afirmou, em nota, que vai “manter as ações de fiscalização na rotina dos órgãos”. A Guarda Municipal afirmou que já registrou cerca de dez mil infrações sanitárias na cidade. O prefeito Marcelo Crivella, no entanto, anunciou que as multas serão anistiadas, alegando que há alta inadimplência.

Na orla, sem máscaras

Apesar de o movimento ter sido tímido nas areias ontem, devido ao dia nublado, no calçadão do Leme e de Copacabana era grande o número de pessoas sem máscaras, tanto entre os que se exercitavam quanto entre os que apenas passeavam pela orla. Com a decisão da prefeitura de liberar a permanência de banhistas na areia e autorizar o aluguel de guarda-sóis e cadeiras, barraqueiros e ambulantes estão esperançosos com a possibilidade de recuperar o prejuízo acumulado desde o início da pandemia. Sobre o distanciamento de 1,5 metro entre as cadeiras, muitos se mostraram descrentes quanto ao cumprimento da regra.

— No dias de calorão, vai ser difícil manter distância — disse o barraqueiro Jonathan Fidélis, de 24 anos.

Na reta final das férias, depois de passar por Fortaleza, no Ceará, e por Cabo Frio, na Região dos Lagos, a paulista Sônia Almeida Carlos, de 59 anos, contou que ficou surpresa com a liberação das atividades no Rio. Ela está na cidade na companhia da mãe, a aposentada Anezita Almeida Dias, de 85 anos.

— Aqui não fui a nenhum lugar com aglomeração, mas passamos por um quiosque no fim de semana e o samba estava correndo solto. Parece que todo mundo se esqueceu da pandemia — conta a turista.