Entenda por que a esquerda nunca chegou ao poder na Colômbia

A vitória de Gustavo Petro no primeiro turno das eleições na Colômbia, no domingo passado, indica que pela primeira vez há uma chance real de a esquerda chegar ao poder no país, onde por décadas esteve associada à guerrilha e ao narcotráfico. A alternância de poder seria histórica e ainda terá que ser confirmada em um disputado segundo turno, no dia 19. Mas por que, diferentemente dos outros países da região, a Colômbia nunca teve um governo de esquerda?

A resposta mais direta tem a ver com o fim do conflito armado de mais de cinco décadas entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), após o acordo de paz que em 2016 levou a guerrilha a depor armas.

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As Farc foram criadas em 1964, depois do conflito civil conhecido como La Violencia que se seguiu ao assassinato em 1948 do candidato presidencial Jorge Eliécer Gaetán, do Partido Liberal, que defendia reformas sociais, em especial a agrária. A guerrilha assumiu então uma ideologia marxista-leninista que por muitos anos esteve associada à esquerda no país, explica a cientista política María Victoria Llorente, diretora-executiva da Fundação Ideias para a Paz.

— Dada à origem das Farc, e sua relação estreita com o Partido Comunista, toda a esquerda do país acabou sendo identificada com essa esquerda violenta, que tomaria o poder pela força — explica. — Durante suas primeiras décadas de existência, houve tentativas reais da guerrilha de cooptar movimentos sindicais e sociais, o que debilitou a imagem dos movimentos e de toda a esquerda legal. E mesmo que as Farc tenham se afastado progressivamente de qualquer discurso ideológico, e nos anos seguintes todo conflito armado tenha sido permeado pelo narcotráfico, a sociedade colombiana acabou associando as duas coisas.

— Com a retirada das Farc do jogo político, as organizações sociais buscaram espaços e novos atores políticos foram se articulando. A própria vice de Petro, Francia Márquez, fez parte da comissão de vítimas que foi até Havana negociar o acordo de paz — afirma. — Agora há um setor do país, aquelas regiões que mais foram afetadas pelo conflito, onde uma confiança plena que a saída pela paz é negociada e não militar.

Aura Hurtado, professora do Departamento de Historia da Universidade del Valle, concorda que os acordos de paz com as Farc "abriram o cenário político", depois de a guerrilha ser "usada como desculpa em outras campanhas".

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Mas há outras explicações: uma sociedade extremamente conservadora, a forte corrupção do sistema eleitoral, e o extermínio de líderes esquerdistas do passado. Na década de 1990, no auge do conflito armado, muitos políticos de esquerda que chegaram perto de serem eleitos foram "praticamente extintos a bala", lembra a jornalista e cientista política colombiana Olga Behar. Algumas das mortes não foram explicadas até os dias de hoje.

O caso mais notório é o da União Patriótica (UP), que teve mais de 5 mil militantes assassinados entre 1984 e 2016, segundo dados oficiais. Entre eles, dois candidatos presidenciais: Jaime Pardo Leal e Bernardo Jaramillo Ossa.

À época, o crescimento da UP, em um contexto de forte tensão social e política, fez com que muitos políticos locais conservadores se aliassem a paramilitares para exterminar os esquerdistas. Mas não só. Várias das mortes foram causadas pelos guerrilheiros das Farc ou do Exército de Libertação Nacional (ELN), que também não queriam o crescimento de um movimento legal de esquerda.

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— As Farc também tinham seus motivos para não permitir que um movimento popular e social emergisse. Eles também foram mortos pela guerrilha — explica Llorente. — Um exemplo foi o partido Esperança, Paz e Liberdade, criado em 1991, que teve muitos de seus líderes mortos pelas Farc.

De acordo com um relatório da Human Rights Watch , "as Farc e suas milícias urbanas foram consideradas responsáveis ​​por 204 assassinatos de membros do Esperança, assim como de ex- guerrilheiros do Exército de Libertação Popular (EPL), anistiados de 1991 a 1995".

Divisão interna

Diante de tantos reveses, a esquerda colombiana teve historicamente grande dificuldade de formar um bloco único. Por mais de 20 anos, o poder se alternou entre dois partidos tradicionais: o Liberal, originalmente ligados a ideias progressistas, e o Conservador.

— O Partido Liberal, embora em sua origem associado a uma social-democracia, acabou se aliando ao Partido Conservador e sempre jogou dentro do sistema. Os dois governaram juntos durante 20 anos — afirma Llorente. — A esquerda por sua vez, convivia com muitas divisões, sem ter um líder único.

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Depois de 2016, muita coisa mudou. As Farc se transformaram em partido político, os Comuns, que têm uma representação mínima na política colombiana — no primeiro turno, seu candidato teve cerca de 30 mil votos. Gustavo Petro, ex-guerrilheiro de outro grupo, o M-19, que se transformou em um partido político em 1990, conseguiu finalmente formar o Pacto Histórico, coalizão que aglutinou diversas forças da esquerda.

— A esquerda colombiana fez um esforço muito grande para se distanciar das guerrilhas desde a segunda metade dos anos 1980. Ou seja, a esquerda legal não está vinculada aos grupos à margem da lei há mais de 30 anos — diz Behar.

Petro foi senador entre 2006 e 2010, e conseguiu grande popularidade por fazer denúncias de corrupção — revelou inclusive vínculos entre políticos e facções criminosas, além de esquemas ilegais envolvendo o então presidente Álvaro Uribe. Depois de tentar ser presidente e perder, em 2010, se candidatou para prefeitura de Bogotá, eleição da qual saiu vitorioso.

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Hurtado explica que Petro conseguiu aglutinar vários setores da esquerda em torno de sua candidatura:

— Há um forte aspecto progressista, com a aliança com sua vice, uma mulher negra e ambientalista. Há setores urbanos, rurais, indígenas, negros, feministas. Há a esquerda da militância, há a esquerda sindicalista. Isso faz com que todo esse espectro se reconheça e se alinhe à candidatura.

Petro é agora ameaçado por seu rival no segundo, o milionário e ex-prefeito Rodolfo Hernández, que suplantou a direita tradicional ao adotar um discurso antissistema. A primeira pesquisa do segundo turno aponta que os dois estão empatados tecnicamente, com ligeira vantagem para Hernández.

— Apesar dos avanços e do breve período de paz, ainda temos um país fragmentado. Hernández vem de Santander, uma região onde o ELN, ainda ativo, tem forte presença e o fim das Farc não teve muito impacto. Além disso, trata-se de uma região fronteiriça com a Venezuela, onde vivem muitos imigrantes e os efeitos do que acontece no país vizinho ainda pesam. Por último, a pandemia agudizou a pobreza na região e a proposta progressista não é muito contundente para os setores mais afetados — explica Hurtado.

Em 2018, em sua segunda tentativa de chegar à Presidência, chegou ao segundo turno, mas não se elegeu. À época, o crescente autoritarismo do chavismo e a fuga de milhares de venezuelanos para a Colômbia influenciaram o debate eleitoral, assim como a divisão em relação aos acordos de paz. Os dois fatores foram chaves para a eleição do de Iván Duque, herdeiro de Uribe. Mas para cientista política e jornalista Olga Behar isso não deve se repetir este ano.

— Quatro anos depois há uma menor influência do que acontece na Venezuela, há uma nova discussão sobre o modelo de Estado, e uma preocupação real entre conservar o status quo ou aprofundar a pobreza — acredita. — Além disso, tivemos exemplos exitosos de governos locais governados pela esquerda, como Bogotá ou Cali.

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