Entenda por que hostilidade de muçulmanos em relação aos homossexuais tem pouca base no Alcorão

O discurso é de inclusão e aceitação. Mas, antes da bola rolar, o ex-jogador da seleção do Catar e embaixador da Copa do Mundo Khalid Salman chamou a homossexualidade de "dano mental" em uma entrevista para uma emissora de TV alemã. Disse ainda que o país "tolerará visitantes homossexuais, mas eles têm que aceitar nossas regras". Na abertura da Copa do Mundo, tanto a Fifa quanto o Emir do Catar, Tamim bin Hamad al-Thani, disseram que receberiam "todos de braços abertos e, que que beleza juntar essas diferenças todas".

Mas, no dia seguinte, a Fifa interferiu na ação de sete países europeus, que entrariam em campo com a braçadeira do arco-íris, em apoio às causas LGBTQIA+, com a inscrição One Love. Ameaçados com cartões amarelo para seus capitães, as federações desistiram da ideia. Harry Kane (Inglaterra) e Virgil van Dijk (Holanda) usaram apenas braçadeiras com a inscrição "no discrimination" ("não à discriminação"), fornecidas pela própria Fifa como uma forma de abafar o protesto.

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No jogo entre Estados Unidos e País de Gales, seguranças do estádio solicitaram que torcedores galeses tirassem chapéus da organização LGBTQA+ The Rainbow Wall (o muro do arco-íris, em inglês), feitos para promover inclusão e igualdade de gênero no esporte. Nesta terça-feira, o jornalista brasileiro Victor Pereira, que está trabalhando no Mundial do Catar e usava uma credencial do evento, contou via redes sociais, que após o jogo entre a Argentina e Arábia Saudita, foi atacado por seguranças por causa da bandeira de Pernambuco, que tem um arco amarelo, vermelho e verde desenhado, confundido com o símbolo LGBTQA+

— Estou tremendo — contou ele, em vídeo, que teve a bandeira jogada no chão e pisoteada. — Fui filmar a abordagem e pegaram o meu telefone. Só me devolveram o aparelho, se eu deletasse o vídeo que fiz.

O jornalista norte-americano Grant Wahl contou que foi impedido de entrar em uma das arenas do Catar, para o jogo entre EUA e País de Gales, porque usava uma camisa com um arco-íris. Ele contou que chegou a tuitar o que acontecia no momento da abordagem mas o segurança arrancou o telefone de suas mãos.

— Disse que eu teria de trocar de camisa e que não era permitido. Ele falou: 'Você pode tornar isso fácil. Tire a camisa'. Fui detido por quase meia hora. Vamos gays! — escreveu o jornalista, que não tirou a camisa e depois chegou a ouvir um pedido de desculpas. — No final, explicou que a preocupação era com a minha segurança.

Homossexualidade é 'mal interpretada' pelo catari

A perseguição à comunidade LGBTQIA+ é um dos temas mais delicados desta edição da Copa. Isso porque a homossexualidade é ilegal no país muçulmano. Não é permitido, por exemplo, demonstrar afeto em público, seja dar as mãos, se beijar ou mesmo desfilar com a bandeira do arco íris. Cenas de carinho, inclusive entre um casal heterossexual, apesar de raras nas ruas de Doha, não são passíveis das mesmas punições.

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Mas, segundo Carlos Eduardo Carreira, mestre em Direito Internacional pela USP e especialista em famílias LGBTQIA+ no Direito Islâmico, não há nenhuma passagem do texto sagrado do islã que proíba as diferentes orientações sexuais e identidades de gênero. Ele se refere ao Alcorão, o livro sagrado do islã, considerado a palavra literal de Deus revelada ao Profeta Muhammad (Maomé), sendo esse o “último profeta enviado por Deus”, segundo a tradição desta religião.

— Existem interpretações derivadas de leituras radicais sobre os feitos e ditos do profeta, os hadiths, que levam governos autoritários, não democráticos, e religiosamente radicais a afirmar e proibir essas formas de ser — explicou o especialista.

Os hadiths, dizeres ou observações, são atribuídos ao profeta Maomé (o mesmo vale para a punição à apostasia, heresia, impiedade ou "insultos" ao islã: nada disso vem do Alcorão; tudo isso é proveniente de certos hadiths), sem nenhuma comprovação de que sejam de fato verdadeiros.

Foram escritos quase dois séculos depois que Maomé viveu e sua autenticidade tem sido repetidamente questionada. Além disso, não há registro de que o profeta tenha de fato punido alguém por ser homossexual.

Carlos Eduardo lembra ainda que Ludovic-Mohamed Zahed, o imã de uma mesquita inclusiva em Paris, considerado um dos sacerdotes mais influentes atualmente, é homossexual assumido. Zahed se considera "um muçulmano progressista". Para um jornal alemão, Ludovic-Mohamed Zahed disse: "Há diferentes formas de interpretação: é mais uma lição sobre violência sexual do que sobre o mal da homossexualidade".

O que há no Alcorão

No coração da visão islâmica a respeito da homossexualidade está a história bíblica de Sodoma e Gomorra, que também é narrada no Alcorão. Segundo o texto, o profeta Ló alertou seu povo sobre a "imoralidade", pois os homens "procuravam os homens com desejo, em vez das mulheres". Em resposta, o povo tentou expulsar o profeta da cidade, e até mesmo abusar sexualmente dos anjos que vieram a Ló na forma de homens. Consequentemente, Deus destruiu o povo de Ló com um desastre natural colossal, salvando apenas o profeta e alguns poucos crentes.

O muçulmano conservador usa essa história como justificativa para estigmatizar os gays, mas há uma questão importante que merece consideração: o povo de Ló recebeu a punição divina por ser homossexual, ou por atacar Ló e seus convidados celestes?

O texto, aliás, não prevê punições. É apenas mais tarde, na jurisprudência islâmica, que esses castigos começam a aparecer por escrito. Eles incluem chibatadas e apedrejamento, dependendo da fonte.

— O islã foi estruturado em cima "da família". Era uma realidade lógica à época, na Alta Idade Média. Quantos mais filhos, mais produtivos seriam. Quanto mais filhos, mais seguros seriam. Naquele momento a prioridade era a reprodutiva. Mas os tempos mudaram. Porém, países do Golfo Pérsico usam interpretações das mais radicais como base para suas monarquias — fala Carlos Eduardo. — E o mais curioso é que o sexo para a religião islã nunca foi tabu. Nunca foi pecado.

No Catar

Segundo o Código Penal, inspirado nessa estrutura histórica de interpretações radicais e machistas da religião, proíbe qualquer atos sexuais fora do casamento, inclusive com consentimento entre héteros ou homossexuais, além do sexo anal, com penas que vão de meses a anos ou, em alguns casos, prisão perpétua ou pena de morte.

Carlos Eduardo conta que, tanto para casais heterossexuais quanto para casais homossexuais, qualquer um que faça gestos, falas, canto ou "atos imorais ou obcenos, em espaço público ou aberto", poderá ser punido com prisão por até seis meses e/ou multa de até 3 mil Riyals do Catar, de acordo com o art. 290 do Código Penal do país.

Esse distanciamento é percebido pelos turistas nas ruas do Catar. Aperto de mão e abraços até são vistos, mas não "são afetuosos". Uma brasileira chegou a comentar que deu um beijo, em uma festa, e foi repreendida por seguranças. Homossexuais "vivem no armário" e casais gays evitam o toque.

— Há compromissos falados antes do início da Copa do Mundo de que as autoridades não levariam essa pena a cabo para os turistas, contudo, não há garantia dessa proteção nem definições claras do que seria considerado imoral ou obsceno — observa o especialista. — Em tribunais religiosos, que funcionam para casos entre muçulmanos e aplicam apenas as normas religiosas na interpretação local, é necessária a presença de testemunhas para comprovação de algum ato ilícito. Contudo, nos tribunais não religiosos, as autoridades tem maior liberdade para provar os atos.

De acordo com a Human Rights Watch, no Catar há um sistema forte de vigilância de grupos LGBTQIA+ com base em suas atividades online, que são monitoradas pelo governo do país e o encarceramento é feito a partir desses dados.

Relatório recente da HRW apontou que seis pessoas foram detidas entre 2019 e 2022 por causa da orientação sexual e identidade de gênero: quatro mulheres transgênero, uma mulher bissexual e um homem gay. Eles relataram que não havia acusação formal, mas foram presos em uma prisão subterrânea em Doha e submetidos a abusos verbais e físicos, incluindo chutes e socos.

"Todos os seis disseram que a polícia os forçou a assinar promessas indicando que iriam 'cessar a atividade imoral'", disse a HRW, acrescentando que as mulheres transgêneros foram forçadas a sessões de terapia de conversão em uma clínica ligada ao governo.

O governo do Catar nega todas as acusações dos detidos e sempre reafirma que todos são bem-vindos ao país.

(*Colaborou Tatiana Furtado, enviada especial a Doha, Catar)