Entenda por que pagamento do bicho resiste no futebol brasileiro em meio a discursos de profissionalismo

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Poderia ser uma cena daquelas crônicas românticas sobre um futebol que já não existe. Mas aconteceu em 2021: em momento registrado na série “Acesso Total: Botafogo”, do Globoplay, o presidente Durcesio Mello entra no vestiário após uma vitória com envelopes nas mãos. É recebido com festa pelos jogadores e distribui o prêmio por um triunfo na campanha do título da Série B.

A relevância do bicho — extra pago após partidas — na dinâmica de um clube como o alvinegro, que defende a profissionalização a ponto de se transformar em sociedade anônima, levanta a questão: por que a prática, tão simbólica de um amadorismo renegado, continua viva no futebol brasileiro?

— Eu relutei a dar o bicho. A gente acertou uma premiação no final, em caso de acesso, mas a partir do quarto ou quinto jogo os jogadores começaram a reclamar que seria importante ter um bicho — conta Durcesio.

A principal explicação é cultural. O bicho existe no Brasil há 100 anos — estima-se que tenha ocorrido pela primeira vez na década de 1920. Eram dias de esporte amador, em que os atletas não podiam receber para entrar em campo. A premiação era uma maneira de driblar a falta de regulamentação e tornar o jogo uma fonte de remuneração para o jogador.

A profissão foi regularizada no Brasil em 1933, mas o bicho seguiu valendo. Até por conta de um profissionalismo capenga, por muito tempo a premiação que saía do bolso de torcedores e dirigentes ricos era maior do que o próprio salário pago pelo clube, especialmente aos jogadores mais jovens.

— Quando comecei no Vasco, em 1996, adorava o bicho. Era maior do que o meu salário. Em 1997, não me importava que meu salário atrasasse. Foi um ano em que ganhamos muitos jogos, e o bicho resolvia — lembra o ex-lateral e meia Felipe Loureiro, hoje técnico do Bangu.

Do fim dos anos 1990 para cá, o futebol passou a movimentar muito mais dinheiro, com promessas, dependendo do potencial, com salários acima de R$ 10 mil. Ainda assim, o bicho segue importante na rotina dos clubes. Muitas vezes, é algo estimulado pelo dirigente, que usa o prêmio para ganhar a confiança dos jogadores, ser aceito no vestiário e exercer controle.

— Se prometer, tem de dar um jeito de pagar — afirma José Luiz Moreira, por anos vice-presidente de futebol do Vasco. — Não tenha dúvida, eu paguei muito bicho.

Existem diferentes maneiras do bicho ser pago. Tem o dinheiro em espécie que sai do bolso do dirigente. Já nos tempos da Unimed no Fluminense, o elenco recebia um cartão pré-pago da patrocinadora com o valor referente ao bicho. A premiação por vitória também pode ser oficial, bancada pelo clube. Neste caso, entra na contabilidade. Há quem pague a cada resultado. Tem também quem prefira fazê-lo mensalmente.

Os valores também variam. No São Paulo, entre 2006 e 2008, chegou a ser de R$ 25 mil para cada jogador. O Flamengo, na disputa do Mundial de Clubes de 2019, estipulou que o bicho pelo título valeria nada menos que 22 milhões de dólares, a serem divididos entre jogadores e comissão técnica.

O bicho reforça a hierarquia do vestiário. Geralmente, são os líderes do elenco os responsáveis por determinar a divisão do dinheiro: mais para jogadores, menos para comissão técnica.

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