Entenda por que tantos lutadores de MMA quebram a perna ao chutar o adversário

Bruno Marinho
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Uma busca rápida na internet é suficiente para ver como o drama de Chris Weidman, derrotado por Uriah Hall no UFC 261, no sábado passado, é comum nas lutas: proliferam-se vídeos chocantes de lutadores, famosos ou anônimos, com os ossos da perna fraturados após a tentativa de chute baixo.

São centímetros que separam o golpe bem executado, um dos mais comuns do MMA e do muay thai, da fratura que afasta o lutador dos combates por, no mínimo, um ano. O acerto se torna parte de estratégia de luta. O erro pode custar a derrota e o longo tempo inativo, o que levanta questionamentos sobre até quando vale continuar chutando.

Rogério Minotauro, ex-campeão do extinto Pride e do UFC, lembra da experiência que teve com o golpe.

— Numa das minhas primeiras lutas no MMA, em 1999, quase quebrei a perna. Depois disso, fiquei com receio de bater. Só chutava na coxa. Mas o chute baixo é um dos mais perigosos, tem vencido muitas lutas — ressalta.

Ele se torna arriscado quando o impacto ocorre entre o meio da tíbia do chutador e a cabeça da tíbia do defensor. A cabeça é mais densa e deixa quem chuta em desvantagem. Há também um elemento adicional, de explicação física, que potencializa o risco de fratura.

— Imagine uma alavanca. Quanto mais longe estiver do ponto de apoio, mais eficiente é a força aplicada — explica o professor de física Hugo Carvalho, formado na UFRJ, e fã de MMA:

— Quando o chute vem bem perto do joelho, que é o ponto de rotação, a força fica mal aplicada sobre o local. Quem está proferindo, com ponto de impacto mais longe do joelho, sofre força mais eficiente.

Nas vezes em que é bem executado, o chute baixo acerta a panturilha ou o músculo entre a tíbia e a fíbula. Aplicado repetidamente, ele gera muita dor e tem um papel importante no desenrolar da luta.

— Você obriga seu adversário a trocar de base (se ele está apoiando mais o peso do corpo sobre a perna direita, ele passa a se escorar na esquerda, e vice-versa) — afirma Francis Leonardo, professor de kickboxing e faixa preta há seis anos.

O problema é que o movimento de defesa é muito simples. Minotauro explica que basta o lutador que está sob ataque apontar a frente da perna para a tragetória do chute. Quando Anderson Silva fraturou a perna em 2013, contra o mesmo Weidman, o americano ergueu levemente a perna para colocar seu joelho na rota do brasileiro. No impacto, o Spider levou a pior.

Muitos lutadores não abrem mão do chute baixo devido à força que se consegue colocar nele — dependendo do peso do atleta, ela pode ser equivalente a mais de 400kg. Para praticamente zerar o risco de lesão com uma defesa, o chutador mira a coxa do adversário em vez da panturrilha.

Dedé Pederneiras, líder da Academia Nova União, do brasileiro José Aldo, ex-campeão do UFC e um dos maiores chutadores baixos da história do MMA, explica sua estratégia.

— Sempre falo para os meus lutadores testarem o adversário no começo da luta, checarem se estão defendendo. É bom também dar uma finta para depois acertar o chute com a perna do adversário não muito firme no chão. Mas não dá para abrir mão. O risco sempre vai ter, todo esporte tem — afirma.