Entenda porque a CoronaVac não pode, nem deve, ser comparada com outras vacinas

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SAO PAULO, BRAZIL - JUNE 18: A health worker prepares a CoronaVac vaccine against COVID-19 during an immunization campaign for people at José Marcílio Malta Cardoso Basic Health Unit on June 18, 2021 in Sao Paulo, Brazil. According to official figures released by the Health Minister, the death toll in Brazil is approaching half a million victims. President Jair Bolsonaro faces a probe as the country undergoes the second-deadliest COVID-19 outbreak outside of the United States. Protests are being held against the Copa America, which is being played in four Brazilian cities amid a surge in cases and deaths.  (Photo by Rodrigo Paiva/Getty Images)
CoronaVac é produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a SinoVac (Foto: Rodrigo Paiva/Getty Images)

No Brasil, aproximadamente uma a cada três pessoas receberam a primeira dose de alguma vacina contra o coronavírus. A possibilidade de imunização traz esperanças, mas não o suficiente para que toda população se vacine com o imunizante disponível nas unidades de saúde. O Brasil experimenta o fenômeno da “escolha de vacinas”, sob o argumento de que algumas são mais eficazes que outras. Esse pensamento, no entanto, faz pouco sentido.

Até o momento, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou integralmente o uso de quatro vacinas: CoronaVac, Oxford/AstraZeneca, Janssen e Pfizer. Todas elas têm segurança e eficácia atestada pelo órgão regulador, um dos mais rigorosos do mundo.

Ainda assim, há pessoas que rejeitam a CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a chinesa SinoVac. A reportagem do Yahoo! Notícias ouviu relatos sobre pessoas que foram em busca da vacina e, quando ouviram que a disponível era a CoronaVac, deixaram a unidade de saúde, preferido abrir mão da imunização.

O primeiro anúncio sobre a eficácia geral da vacina, com base no estudo clínico feito no Brasil, mostrou índice de 50,4%. Isso quer dizer que, para os vacinados, a possibilidade de ser contagiado pelo coronavírus cai pela metade. A comparação com índices de outras vacinas assustou os brasileiros, no entanto, a comparação não faz sentido. Entenda:

Como foram feitos os estudos da CoronaVac no Brasil

Eder Gatti, infectologista do Hospital Emílio Ribas, referência no tratamento da covid-19, explica que há particularidades nos estudos clínicos da CoronaVac:

  • O estudo foi feito com intervalo de duas semanas entre as doses

  • Pessoas que participaram do estudo eram profissionais de saúde, mais expostos ao vírus

“O estudo clínico aqui no Brasil usou o intervalo de duas semanas, foi um intervalo curto entre a primeira e segunda dose, porque, em vacinas, especialmente vacinas inativadas, a resposta pós-segunda dose tende a ser melhor quando o intervalo entre a primeira e a segunda dose é maior”, explica Gatti. “Então, por exemplo, se der um intervalo de quatro semanas, é de se esperar que a vacina responda melhor, que a imunogenicidade seja melhor e a imunidade gerada seja mais protetora e até mais duradoura. Essa é uma característica do estudo clínico que pode ser contribuído para essa eficácia geral menor.”

Sobre o público que participou da pesquisa, o infectologista lembra que os profissionais da saúde estão mais expostos e, por isso, a força de infecção da doença sobre eles é mais alta do na população em geral.

“Não podemos comparar resultados de um estudo clínico como o da Pfizer, o da Janssen, o da AstraZeneca, que recrutou pessoas da população no geral. Não dá para comparar com os resultados de um estudo clínico que foi atrás de profissionais da saúde, muitos deles da linha de frente. São profissionais que se expõe mais e isso certamente fez com que a eficácia geral da vacina fosse uma pouco menor.”

A amostra dos estudos é diferente e, por isso, a comparação não faz sentido. “Os dados de eficácia que a gente vê da Pfizer e da AstraZeneca são estudos multicêntricos e que envolvem populações em geral, não populações específicas. Já a nossa grande referência para a CoronaVac foi um estudo clínico conduzido pelo Butantan, feito em serviços de saúde”, reforça.

Eficácia x efetividade

Gatti lembra que é importante diferenciar eficácia de efetividade da vacina. Veja as explicações do infectologista:

  • O que é eficácia: São os estudos que avaliam em estudos clínicos. Esses estudos são bons, são importantes, porém, são feitos de forma controlada

  • O que é efetividade: Avalia o comportamento da vacina na população em geral

“O estudo de efetividade é diferente, para mim, é até mais interessante, porque ele avalia o comportamento da vacina na população em geral. A gente já tem estudos que mostram que a CoronaVac tem um bom desempenho de uso na população em geral, diminuindo hospitalizações e diminuído óbitos”, afirma o médico.

Um exemplo da efetividade da CoronaVac é o estudo feito em Serrana, pelo Butantan. Eder Gatti explica que a pesquisa feita no interior paulista mostra a importância de se vacinar não só pelo efeito individual, mas pelos efeitos indiretos para toda a população. 

“Quando se faz estudos envolvendo vacinação em massa, como foi feito em Serrana, é possível, inclusive, avaliar os efeitos indiretos da vacina, coisa que os estudos clínicos não conseguem avaliar. Efeitos indiretos são aqueles efeitos resultados da diminuição da circulação da vacina na população. Porque, melhor que estar imunizado, vacinado, tendo títulos altos de anticorpos depois da vacina, é eu estar vacinado, mas as pessoas que estão no meu entorno também estarem vacinadas. Porque, além de eu estar protegido, o vírus dificilmente vai chegar até mim.”

Dessa forma, a vacina, seja qual for, ajuda o indivíduo e também toda a sociedade, contribuindo para diminuir a circulação do vírus. 

Estudo de Serrana

Em Serrana, os números mostraram que, com 75% da população imunizada com a CoronaVac, foi possível controlar a epidemia de covid-19.

“Na situação que a gente está agora, uma pessoa vacinada vai estar rodeada de pessoas suscetíveis e o vírus pode chegar até ela. Agora, em uma situação de vacinação em massa, o vírus vai ter dificuldade de chegar até a pessoa, porque o número de suscetíveis na população vai ser menor. E os efeitos de efetividade avaliam esses efeitos indiretos. A gente tem os estudos de Serrana, existem dados que já foram divulgadas de forma preliminar que são muito favoráveis. Dá para ter muita tranquilidade em usar a CoronaVac na nossa população.”

Em contato com a reportagem, o Butantan falou sobre a relevância do estudo feito em Serrana, conhecido como “fase 4”. Nenhuma vacina tem capacidade de impedir que uma pessoa pegue a covid-19, mas são capazes de diminuir consideravelmente mortes e hospitalizações, como lembra o instituto.

“A Coronavac tem se mostrado eficiente em reduzir o contágio na população. Os dados foram comprovados por meio de estudo, que chamamos de fase 4, coordenado pelo Instituto Butantan no município de Serrana, interior de São Paulo. Os números comprovam que, com 75% da população-alvo imunizada, houve drástica redução da circulação do novo coronavírus na cidade, além de queda de 95% nas mortes, 80% no número de casos e 86% nas hospitalizações por COVID-19. Vale destacar que a Coronavac tem se mostrado extremamente segura, com poucos casos de reações adversas leves.”

Efetividade da CoronaVac em outros países

Chile

Chilean nurse Maria Paz Herreros, 32, who was the first to inoculate a patient against COVID-19 in Chile, shows a vial of the Chinese Sinovac vaccine, at the Metropolitan Hospital in Santiago, on February 26, 2021. - Chile managed to inoculate 18% of its population with at least one dose of vaccine against COVID-19 and is among the first five countries in the world to do so. (Photo by MARTIN BERNETTI / AFP) (Photo by MARTIN BERNETTI/AFP via Getty Images)
CoronaVac é a vacina mais utilizada no Chile (Foto: MARTIN BERNETTI/AFP via Getty Images)

O Brasil não é o único país a utilizar a CoronaVac para imunizar a população. O Chile, por exemplo, usa majoritariamente esta vacina nos cidadãos do país. Segundo os dados divulgados pelo Ministério da Saúde chileno em abril de 2021, depois de 14 dias da segunda dose, a vacina da SinoVac apresentou os seguintes resultados:

  • 67% de efetividade para prevenir casos sintomáticos de covid-19

  • 85% de efetividade para prevenir hospitalizações

  • 89% de efetividade para prevenir entradas na UTI

  • 80% de efetividade para prevenir mortes

O estudo foi feito com 10,5 milhões de pessoas, entre os quais 4 milhões foram vacinados entre 2 de fevereiro e 1º de abril de 2021 com a CoronaVac. 

Em 24 de julho, com números atualizados, o governo Chile publicou novos dados, mostrando que a CoronaVac tem efetividade similar a das vacinas da Janssen, da Pfizer e da CanSino com o objetivo de prevenir hospitalizações.

É verdade que o país, mesmo com alto índice de vacinados, viveu uma alta de casos recentemente. Entretanto, o Chile tem 65% da população vacinada com duas doses – não 75% -, índice mais baixo que o indicado pelo estudo de Serrana como sendo o necessário para controlar a epidemia.

Os números divulgados pelo Ministério da Saúde chileno mostram que, entre 10 e 16 de junho, 77% das pessoas que deram entrada na UTI (830 pessoas) não tinham completado o esquema de vacinação (duas doses e mais duas semanas após a segunda dose), enquanto 23% já estavam vacinadas (247 pessoas).

Na semana entre 10 e 16 de junho, 77% dos pacientes que deram entrada na UTI com covid-19 não estavam devidamente vacinados (Reprodução/Ministério da Saúde do Chile)
Na semana entre 10 e 16 de junho, 77% dos pacientes que deram entrada na UTI com covid-19 não estavam devidamente vacinados (Reprodução/Ministério da Saúde do Chile)

Sobre a situação do país, o Butantan lembra que houve um relaxamento das medidas de restrição de circulação, o que levou a um aumento na circulação do vírus, contagiando mais pessoas que estavam sem o esquema completo.

“Além disso, os relatórios disponibilizados pelo Ministério da Saúde do Chile comprovam claramente a importância da vacina, uma vez que os novos casos que estão surgindo no país são, principalmente, entre pessoas não vacinadas ou pessoas que não completaram o esquema vacinal”, disse o Instituto Butantan em nota.

Uruguai

Em 28 de maio, o governo do Uruguai apresentou dados sobre a eficácia e efetividade da CoronaVac. Foram avaliadas 862.045 pessoas, entre as quais 20 deram entrada em Unidades de Terapia Intensiva e 14 morreram. No país, os dados da vacina foram:

  • 57% de efetividade em prevenir o contágio pela covid-19

  • 95% de diminuição na entrada em UTI

  • 97% de diminuição no número de mortes

Aprovação de uso definitivo

Até o momento, a CoronaVac tem aprovação para uso emergencial no Brasil. Segundo o Butantan, a competência para a emissão do registro definitivo é da Anvisa. “O Butantan tem encaminhado ao órgão regulador as informações necessárias para o registro, em um processo de submissão contínua”, explica o instituto.

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde aprovou a CoronaVac, também de forma emergencial. 

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