Entenda qual seria o papel de 'Rei Arthur', investigado na Lava Jato, no suposto esquema de Crivella na prefeitura do Rio

Felipe Grinberg, Maiá Menezes e Luiz Ernesto Magalhães
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RIO - Segundo o Ministério Público, o esquema montado na prefeitura do Rio conta com um velho personagem envolvido em denúncias de esquema de corrupção: o empresário Arthur Soares Filho, o Rei Arthur. Além de denuncia-lo, o Ministério Público reservou um capítulo na denúncia apresentada apenas para o que chama de “Núcleo Empresarial”, que teria como líder o próprio Rei Arthur.

A participação do empresário no esquema é revelada na delação premiada de Ricardo Rodrigues. Ele conta que o Rei Arthur afirmou antes de Crivella ser eleito, que aquela seria uma “grande oportunidade de participar de um governo". Atualmente o empresário está finalizando os termos de sua delação premiada, que deve ser assinada em breve.

O Ministério Público narra na denúncia que houve uma reunião na casa de Arthur Soares com a participação de Marcello Faulhaber e Rafael Alves — que teria afirmado ser a pessoa que cuidaria, durante o futuro governo de todos os acordos, negócios e liquidações financeiras. Para isso, não seria nomeado para poder “operar e circular com maior facilidade”.

Na reunião, segundo os investigadores, o grupo teria concordado com o pagamento de R$ 1 milhão para a campanha de Crivella. Em uma outra reunião, também na casa de Soares e com a participação de Eduardo Lopes, o suplente de Crivella e Rafael Alves teriam dito que Crivella ficou "muito feliz com a contribuição do grupo e que inclusive acataria eventuais sugestões de nomes para cargos de segundo e terceiro escalão e que os compromissos pedidos em contrapartida seriam todos entregues”.

Para mostar a proximidade entre o grupo ligado à Crivella ao Rei Arthur, o MP apresentou uma troca de mensagens entre Faulhaber e Alves, em que Rafael diz que “Ele é o Rei. Eu vou ser o Príncipe. E eu vou voltar de Miami (onde morava Rei Arthur) e isso vai fortalecer eu e você cada dia mais”. Logo depois eles comentam que irão avisar ao prefeito da ida aos Estados Unidos.

No dia seguinte, Rafael Alves mandou uma selfie de dentro de um avião a Marcelo Crivella. O prefeito respondeu com uma mensagem:

“Vai com Deus amigo!”, escreveu Crivella.

Um recurso jurídico e um personagem conhecido no Rio criam paralelos entre o escândalo que levou o prefeito Marcelo Crivella à cadeia, pouco mais de uma semana antes de passar o cargo ao prefeito eleito Eduardo Paes. Na justificativa para a prisão, a desembargadora Rosa Helena Penna Macedo Guita usa argumento do Ministério Público de “domínio do fato”, usada fartamente durante o julgamento do Mensalão pelo Supremo Tribunal Federal.

Ao classificar o prefeito de comandante de uma “bem estruturada organização criminosa, que cometeu reiterados crimes de corrupção ativa e passiva “, o argumento dos promotores é de que só pode interessar como autor quem tenha o domínio funcional do fato. O domínio não se subordina à execução pessoal da conduta , mas é uma decisão aritmética de um domínio Integral do fato, do qual cada co-autor focará em certa fração”.

Foi o Rei Arthur quem teria apresentado Rafael Alves a Crivella. A investigação indica que, já na campanha de 2016, eram prometidas a futuros potenciais fornecedores contrapartidas e vantagens em procedimentos concorrenciais caso o então candidato fosse eleito. Amigo de Cabral e Pezão, Arthur Soares foi preso em outubro de 2019 sob acusação de evasão de divisas, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa. Era o maior fornecedor do estado nos anos Cabral e Pezão.

Na denúncia, o Ministério Público afirma também que o esquema contou com a ajuda da Artex Produções e Propaganda para lavar dinheiro do esquema de corrupção. Em 2016, a Artex recebeu R$ 340 mil para divulgar a inauguração de uma franquia do restaurante Esplanada Grill, na Barra da Tijuca, sendo que a empresa foi indicada pelo empresário Rafael Alves. Um dos sócios do restaurante era a KB Participações, que tem o Rei Arthur entre os sócios.

A acusação toma como base o depoimento de um colaborador das investigações: Ricardo Rodrigues que era sócio do ''Rei Arthur'' no empreendimento. O MP descobriu também que quando fechou com a Artex em outubro de 2019 , o Esplanada Grill já havia pago a outra assessoria de imprensa por serviços de divulgação do restaurante, que na verdade ocorreu em setembro.

''Nesse sentido, Marcelo Crivella concorreu eficazmente para a consumação dos crimes de lavagem de capitais acima descritos, pois na qualidade de líder da organização criminosa e chefe do poder executivo municipal, valendo-se de interpostas pessoas, quais sejam, os seus operadores financeiros Rafael Alves, Marcelo Faylhaver e Eduardo Soares Lopes a quem tinha indevidamente delegado parcela de seus amplos poderes no âmbito da administração municipal, disponibilizou os mecanismos para a consumação dos crimes anteriores, tendo prévia ciência e anuído com a necessidade de ocultar e dissimular a origem do proveito criminoso'', diz um trecho da representação.

O Esplanada Grill da Barra encerrou as atividades em março deste ano. Por meio de nota, o grupo que toca o Esplanada informou na época que "a licença de uso e exploração da marca foi descontinuada por quebra de cláusula contratual".

Procurada, a defesa de Marcelo Crivella não respondeu até o fechamento da reportagem, mas o prefeito já afirmou que foi preso 'por perseguição política' e nega todas as acusçãoes. A defesa de Marcelo Faulhaber diz que vai buscar na Justiça que a denúncia não seja aceita contra ele e que o marqueteiro "não tem qualquer relação com os crimes imputados ao Prefeito Crivella e ao QG da Propina." Os advogados afirmam que a denúncia em relação a Marcello "se restringe a um único fato de ter apresentado Arthur Soares a Rafael Alves". A defesa vai buscar na Justiça

"E o próprio Marcello o relatou ao MP quando questionado. Posteriormente, juntou comprovante que pagou sua própria passagem, hotel e que não recebeu qualquer vantagem, nem participou dos atos de arrecadação de campanha. Não é imputado a Marcello nenhum envolvimento de atos durante o governo de Crivella ou de ter participado dos fatos imputados a Crivella e Rafael Alves", completa a nota.

A defesa de Rafael Alves também não respondeu os questionamentos. O GLOBO não conseguiu contato com os advogados de Arthur Soares e de Eduardo Lopes.