Entenda quem é e o que quer o Talibã, grupo extremista que tomou o poder no Afeganistão

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TOPSHOT - Taliban fighters stand guard at an entrance gate outside the Interior Ministry in Kabul on August 17, 2021. (Photo by Javed Tanveer / AFP) (Photo by JAVED TANVEER/AFP via Getty Images)
O Talibã é um grupo terrorista, extremista islâmico sunita criado em 1994 (Foto: Javed Tanvee/AFP via Getty Images)
  • Especialista explica como surgiu o Talibã e porque o grupo é considerado terrorista

  • Talibã tomou o poder no Afeganistão novamente no último fim de semana e implanta a sharia, lei islâmica, interpretada de forma radical

  • Enquanto o Talibã é inimigo dos Estados Unidos, grupo terrorista é reconhecido pela China e pela Rússia

No último fim de semana, o mundo assistiu as imagens do Talibã tomando Cabul, capital do Afeganistão. A preocupação do lado ocidental do globo foi generalizada, com imagens de homens armados, ameaçando a liberdade das mulheres, mas o que é, de fato, o Talibã? Um grupo extremista? Terroristas? Como surgiu o grupo?

Como surgiu o Talibã

Tanguy Baghdadi, mestre em Relações Internacionais e podcaster no Petit Journal, explica que o grupo surgiu no fim dos anos 1970, no contexto de resistência do Afeganistão contra a invasão da União Soviética, com ajuda dos Estados Unidos.

“No ano de 1979, a União Soviética invade o Afeganistão, quem está disposto a resistir a essa invasão são os religiosos, eles recebem apoio dos Estados Unidos e vencem. Eles conseguem fazer a União Soviética se retirar do território. A União Soviética sai do Afeganistão em 1985, é uma derrota importante para o grupo”, afirma.

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Com isso, o Afeganistão viu crescer a força dos argumentos religiosos, porque esses grupos foram capazes de livrar o território da União Soviética. Assim, o país observou o surgimento de diversas correntes religiosas, entre elas, o Talibã, oficializado como grupo em 1994.

“Talibã”, segundo Baghdadi, quer dizer “estudantes”. “São, na prática, estudantes, normalmente de instituições religiosas, que acreditavam na necessidade de fazer praticamente uma revolução religiosa no país, fazer com que o país voltasse a viver segundo os preceitos religiosos.”

Em 1996, o Talibã toma Cabul pela primeira vez e se torna o governo do Afeganistão.

O Talibã é um grupo terrorista? Extremista?

Segundo Tanguy Baghdadi, sim, o Talibã é um grupo terrorista, assim como é um grupo extremista islâmico. Há, na visão do especialista, duas vertentes do terrorismo praticadas pelo grupo: o interno e o externo.

“Podemos falar do terrorismo interno, porque é um grupo que implementa a sharia, então, usa de fato o medo como forma de controle. O medo que eles impõem sobre as mulheres, sobre grupos dissidentes, qualquer um que não siga estritamente uma visão religiosa”, afirma. A "sharia" é a lei islâmica, aplicada pelo Talibã de forma radical.

O Talibã é um grupo extremista islâmico, além de sunita, que faz uma interpretação muito radical das leis religiosas. Baghdadi diz que um dos termos alcunhados ao falar do Talibã é que o grupo é “de divisão medieval”, porque quer, de fato, um regresso à maneira como o mundo era na época do profeta.

O outro aspecto é o terrorismo externo. “É um grupo que tem laços históricos com a Al Qaeda, que é um grupo terrorista. Se você dá apoio à grupos terroristas e participa eventualmente de atentados terroristas, você não é outra coisa, seu nome é terrorista”, pondera.

Afghan Taliban fighters are seen on a military vehicle in Kabul, capital of Afghanistan, Aug. 16, 2021. (Photo by Str/Xinhua via Getty Images)
Talibãs tomaram o poder no Afeganistão (Foto: Str/Xinhua via Getty Images)

Relação com Al Qaeda, conflito com os Estados Unidos e o 11 de setembro

Os Estados Unidos financiaram o Talibã antes de o grupo ser o que viria a se tornar. A visão dos norte-americanos sobre o grupo era, inicialmente, positiva. “No primeiro momento, os Estados Unidos viram o grupo, que posteriormente se tornaria o Talibã, de maneira muito positiva, pelo fato de que ajudavam no objetivo daquele momento, na década de 1980, que era o de combate à União Soviética e ao comunismo de forma geral. Então, houve inclusive financiamento, envio de armas, apoio técnico, tem uma série de ajudas que os Estados Unidos ofereceram aos grupos religiosos afegãos”, lembra Baghdadi.

Segundo o professor, quando o grupo foi oficializado como Talibã, em 1994, os norte-americanos fizeram “vista grossa”. O mesmo acontece em 1996, quando o grupo assume o poder no Afeganistão: sem qualquer reação dos Estados Unidos.

O conflito entre Talibã e Estados Unidos começa quando os afegãos se tornam aliados da Al Qaeda, grupo terrorista responsável pelos atentados de 11 de setembro, em 2001. Foi no Afeganistão, com autorização do Talibã, que Osama Bin Laden e outros membros da Al Qaeda treinaram para executar o ataque terrorista.

Foi neste mesmo ano, há duas décadas, que os Estados Unidos invadiram o Afeganistão. “Desde então, não há uma relação de proximidade, mas os Estados Unidos chegaram a ter uma ideia de negociar com o Talibã a possibilidade de uma saída ordenada das tropas do Afeganistão, desde que o Talibã abrisse mão da sua ligação com a Al Qaeda. Houve, de fato, um acordo assinado em fevereiro de 2020, mas foi um acordo preliminar, nada muito definitivo, o que não trouxe resultado muito prático para essa relação bilateral. É um relacionamento tenso, uma relação de distância”, descreve Tanguy Baghdadi.

E o Estado Islâmico?

Questionado sobre a relação entre Talibã e Estado Islâmico, o mestre em Relações Internacionais explica que há uma rivalidade entre os grupos.

“Não existe relação de proximidade. Inclusive, foi uma das coisas que o Talibã pediu pros Estados Unidos: a gente fecha o acordo, mas vocês precisam ajudar a gente a combater o Estado Islâmico”, conta.

Onde entra a China?

A China foi o primeiro país a reconhecer o governo do Talibã no Afeganistão. Segundo Baghdadi, essa rapidez se deve a três motivos:

  • Oportunidade de ver os Estados Unidos longe da região

  • Possibilidade de expansão econômica

  • Preocupação com o terrorismo dentro do território chinês

“A China vê o Talibã não apenas como uma oportunidade de tirar os Estados Unidos de perto, mas também como uma possibilidade de ter uma expansão econômica para aquela região”, explica. “É um corredor importante para obras de infraestrutura que a China vem promovendo no mundo. E existe um outro elemento, que é o temos que a China tem, a maneira preocupada que a China enxerga a ascensão do Talibã ao poder no Afeganistão, pela possibilidade de o Talibã dialogar com minorias muçulmanas, bastante radicalizadas também na China.”

A Rússia estaria no mesmo caminho: disposta a reconhecer o governo Talibã, desde que o grupo não fomente o terrorismo e a visão radical do islã dentro do país.

No podcast apresentado por Tanguy Baghdadi e Daniel Sousa, os especialistas detalham a tomada de Cabul pelo Talibã: 

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