Entenda a roupa de embarque da seleção e referência ao vestuário Islã: 'Eles adoraram', diz alfaiate

Os jogadores e a comissão técnica da seleção brasileira de futebol embarcaram neste sábado rumo ao Catar no clima do islã. Nas redes sociais, os atletas mostraram o figurino completo, feito sob medida pelo badalado alfaiate Ricardo Almeida. Ele assina as roupas de passeio que os atletas usarão no Mundial do Catar. Para conceber os 75 trajes, Almeida contou com um time de mais de 50 pessoas, dedicadas há pelo menos cinco meses entre pesquisas sobre referências artísticas, arquitetônicas, urbanísticas e a paisagem desértica do Catar e a confecção em si.

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Seguindo a proposta de quebrar a seriedade convencional da alfaiataria masculina e imprimir a identidade espirituosa dos jogadores, eles ganharam uma roupa criativa, bonita, confortável e conectada com o clima desértico da região. Os atletas aprovaram. No aeroporto, em Turim, onde finalizaram a preparação para o Mundial, contaram que o traje era confortável, fácil de vestir e também de combinar com acessórios como relógios e joias. O ouro, porém, é de uso exclusivo das mulheres do islã.

No lugar da gravata, eles usaram uma echarpe de algodão leve com trama aberta e desfiada nas pontas (assim como o ouro, a seda natural também é usada apenas pelas mulheres), referência aos lenços masculinos da região do Golfo Pérsico, mas com formato de uso ocidental. A camisa, de linho em gola Mao, faz referência ao thobe, a principal peça do vestuário árabe masculino. No caso dos muçulmanos, porém, trata-se de uma espécie de “vestido” de manga, comprido até o joelho. Eles usam também o cirwall, uma calça larga e fina, embaixo da túnica.

Os atletas completaram o look com terno azul bem clarinho, com o forro, na parte de dentro do paletó, com estampa paisley com elementos culturais de Brasil e Catar. Em 2018, no forro do paletó, a estampa era formada por desenhos das taças das Copas conquistadas pelo Brasil e também referências arquitetônicas russas.

Os muçulmanos também usam uma peça de roupa por cima do thobe, algo como um "paletó local". Mas não são todos: líderes governamentais ou religiosos de alto nível costumam usar um manto masculino mais elegante para ocasiões específicas.

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Almeida explicou que a criação do figurino foi parecida de uma edição de Copa para a outra e que em ambos os casos, feitas em conjunto com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Desta vez, o objetivo era fazer uma homenagem ao Catar. Então, disse ele, o forro, além dos cinco troféus, tem ainda estampa de onça, "que é um elemento da nossa natureza e também utilizada nos ombros das camisas esportivas", e ainda as bandeiras do Brasil e Catar e elementos da arquitetura local.

-- O lenço também remete à questão dos ventos, no deserto, que é uma forma de proteção para o rosto. Sobre o azul, tem a ver com a cor do céu do deserto, que é como este tom que usamos. Para a Rússia, o azul foi mais forte. E tem também a sola do sapato, que fizemos como se fosse de tênis, remetendo a cor da areia e com desenho interessante -- explicou Almeida.

Já a comissão técnica manteve o estilo clássico com camisa de algodão em micro desenho xadrez e gravata de seda (olha a gafe aí). Tanto para a comissão técnica quanto para os jogadores, os paletós ganharam o símbolo da CBF bordado.

-- As gravatas foram feitas em seda porque é o costume ocidental, são mais chiques. E por isso foram desenvolvidas na Itália -- justificou o estilista.

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Almeida comentou que uma diferença em relação aos trajes feitos em 2018 foi a modelagem. Quatro anos atrás, imperava a silhueta slim na moda masculina, ou seja, tudo mais justo. O tecido usado foi a lã fria com efeito changeant, que muda sutilmente de tom conforme a luz. Para Doha, porém, eles estão leves e soltos.

Segundo a equipe do estilista, foram feitas entre quatro a cinco provas com todos jogadores e demais membros da equipe, muitas vezes na Europa, onde a maioria atua. De acordo com Almeida, o maior desafio para confeccionar um traje sob medida para um jogador de futebol é principalmente acertar o tamanho das coxas e glúteos, com músculos demandados e fortalecidos. Da mesma forma, o tecido precisa ter certa elasticidade, para resistir aos movimentos durante os deslocamentos dos jogadores.

Ao embarcarem, os atletas, que viajam de primeira classe, trocam a roupa. Viajam com peças esportivas para ficarem mais à vontade. Almeida conta que foi a Turim para a entrega dos trajes e acompanhamento da saída da delegação ao aeroporto. Ele comemorou que tudo deu certo:

-- Ficou tudo ótimo, perfeito. Gostei de todas as roupas. Porque ficamos preocupados. São 75 trajes e se um dá errado, estraga tudo. Eles adoraram, não fizeram nenhum pedido especial -- disse Almeida, ao GLOBO, por telefone. -- No desembarque voltarão a usar o traje de passeio.