Entidades científicas criticam politização do debate sobre vacinas contra coronavírus

Renato Grandelle
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Marcos Corrêa/PR
Marcos Corrêa/PR

RIO — Uma nota assinada este domingo por três entidades científicas reivindica o fim da politização ligada ao debate sobre a criação de vacinas e a normas sanitárias durante a pandemia do coronavírus.

A Academia Brasileira de Ciências, a Academia Nacional de Medicina e a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil denunciam, sem mencionar nomes, "o comportamento inadequado demonstrado por parte de nossos governantes" diante da "gravíssima crise":

"Não podem ser toleradas, nesta hora tão difícil, a exploração político-partidária oportunista, declarações mentirosas e rixas pessoais e institucionais", ressaltaram as entidades, acrescentando que médicos, cientistas, meios de comunicação e órgãos da sociedade têm "se desdobrado" desde março para obter informações sobre a pandemia, que, "seguem com frequência desrespeitadas por muitos políticos".

Além das normas já conhecidas e, por vezes, ignoradas, como o distanciamento social e o uso de máscaras, o país depara-se com um novo desafio, que é o registro e a aplicação de vacinas. De acordo com os cientistas, o tema ainda não é considerado estratégico e, devido aos embates políticos, compromete o papel que deve ser exercido pela Agência Nacional de Viglância Sanitária (Anvisa).

"Essa questão (vacinação) não pode continuar a ser tratada como briga de torcida e busca de holofotes na mídia", alertam as signatárias do documento. "A Anvisa, como agência máxima de saúde, necessita ser respeitada e blindada contra interesses mesquinhos e ignorantes, para conseguir manter sua credibilidade e forte papel decisório".

Nas últimas semanas, a neutralidade da agência foi contestada pelo Instituto Butantan após a suspensão temporária do estudo da vacina Coronavac, do laboratório Sinovac. O motivo seria a morte de um dos voluntários da fase 3 dos testes. O governador João Doria (PSDB-SP) é o principal articulador político da produção do imunizante.

O presidente Jair Bolsonaro, arquirrival de Doria e crítico da obrigariedade das vacinas — uma bandeira ostentada pelo governador — comemorou a interrupção dos ensaios. A agência, no entanto, deu aval à continuidade dos estudos, após a confirmação de que a morte do voluntário não teve relação com a Coronavac.