Entidades e especialistas em saúde condenam manifesto que defende tratamento precoce da Covid-19

O GLOBO
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Foto: Dirceu Portugal/Fotoarena/Sipa USA via AP Images
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Médicos, cientistas e especialistas em saúde criticaram nesta terça-feira o manifesto publicado nos principais jornais do país e assinado por um grupo de médicos identificado como Associação Médicos Pela Vida, com sede no Recife, Pernambuco, que defende o “tratamento precoce” contra a Covid-19. O texto defendia o uso de medicações cuja ineficácia para esse fim já foi comprovada cientificamente, como hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, entre outros. O anúncio foi publicado na edição impressa do Globo desta terça.

O informe publicitário cita o Artigo 32 do Código de Ética Médica afirmando que é infração grave “deixar de usar todos os meios disponíveis” para o tratamento de doenças, assim como a Declaração de Helsinque e um parecer do Conselho Federal de Medicina (CFM) dando conta que, quando não há métodos terapêuticos comprovados, “o médico, com consentimento informado do paciente, deve ser livre para utilizar medidas não comprovadas ou inovadoras se, no seu julgamento, esta ofereça a esperança de salvar vida”.

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A posição defendida no manifesto, no entanto, não é apoiada pela maioria dos profissionais que atuam na saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) também são contrárias a essa linha de argumentação. Procurada pela reportagem, o grupo Médicos pela Vida, que assina o informe publicitário, não retornou.

Principal entidade representativa da área no país, a SBI publicou documento em 19 de janeiro passado em que afirma que “as melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no 'tratamento precoce' para a Covid-19 até o presente momento. (...) Atualmente, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”, diz o texto.

Desde julho de 2020 a SBI condena especificamente o uso de hidroxicloroquina, quando estudos comprovaram que o medicamento não tem efeito benéfico sobre pacientes com Covid-19. Na ocasião, a organização afirmou inclusive que a “hidroxicloroquina deve ser abandonada em qualquer fase do tratamento da Covid-19" e orientou que “os agentes públicos, incluindo municípios, estados e Ministério da Saúde reavaliassem suas orientações de tratamento, não gastando dinheiro público em tratamentos que são comprovadamente ineficazes e que podem causar efeitos colaterais”.

Já o Conselho Federal de Medicina (CFM) afirma não reconhecer a existência de quaisquer tratamentos válidos para a prevenção ou cura da Covid-19. O CFM defende, no entanto, que o médico tenha autonomia para prescrição de "medicamentos off label" (ou seja, fora da indicação que está na bula), desde que os pacientes sejam alertados para isso.

O infectologista da UFRJ Mauro Schechter, uma das vozes mais ativas no combate às fake news e tratamentos sem respaldo científico contra a Covid-19, diz que o texto publicado pela associação com sede em Pernambuco se baseia em duas “falácias”:

— A primeira é afirmar que, segundo o artigo 32 do Código de Ética Médica, é falta grave o médico deixar de utilizar todos os meios disponíveis cientificamente comprovados. Ora, todas as sociedades científicas nacionais e internacionais unanimemente contraindicam os medicamentos propostos por eles. Isto por já ter sido conclusivamente demonstrada a ineficácia da maioria dos que eles propõem, como cloroquina, azitromicina e vitamina D.

De acordo com Schechter, a dexametasona tem indicações precisas, para pacientes com critérios de gravidade, jamais para tratamento precoce.

— A segunda falácia é citar a Declaração de Helsinque e a resolução do CFM que afirmam que, quando os medicamentos disponíveis se revelaram ineficazes, o médico está autorizado a utilizar outros ainda sem comprovação de eficácia, mas que ele julga que possam ser eficazes. A falácia aqui é que eles propõem utilizar exatamente os medicamentos que se revelaram ineficazes, não outros ainda não adequadamente testados, o que é o óbvio sentido da declaração de Helsinque.

A pneumologista da Fiocruz Margareth Dalcomo disse que o manifesto pode gerar mais confusão na opinião pública, quando a sociedade deveria estar mobilizada para tomar a vacina o mais rápido possível.