Entornos de Bolsonaro e Lula travam nova disputa após conclusão da polícia sobre crime

SÃO PAULO, SP, BRASÍLIA, DF, E CURITIBA, PR (FOLHAPRESS) - Aliados de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Jair Bolsonaro (PL) reagiram às conclusões da Polícia Civil do Paraná, que não viu crime político no assassinato do militante petista Marcelo de Arruda por um bolsonarista em Foz do Iguaçu.

Nesta sexta-feira (15), a Polícia Civil do Paraná anunciou a conclusão do inquérito que investigou em menos de uma semana o assassinato do petista pelo policial penal Jorge Guaranho.

De acordo com a polícia, o crime ocorrido no último sábado (9) em Foz do Iguaçu teve motivo torpe e, tecnicamente, não será enquadrado como crime de ódio, político ou contra o Estado democrático de Direito, por falta de elementos para isso.

Em sua live semanal, nesta sexta-feira (15), Bolsonaro não citou diretamente a conclusão da polícia, mas disse que "não consegue entender a motivação" de um episódio como este.

"Houve uma exploração política do caso. Falaram que o meu discurso de ódio é que provoca isso tudo", afirmou. "Por causa de um episódio, querem botar na minha conta o discurso de ódio", completou, criticando seus opositores, que o acusam de incentivar a violência política.

Já o ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira (PP), usou as conclusões da polícia para criticar a imprensa.

"Um dos princípios do jornalismo não é a imparcialidade? Foram dezenas e dezenas de horas afirmando que a tragédia de Foz foi crime político. Agora não seria a hora de dezenas e dezenas de horas de esclarecimentos e pedidos de desculpa? Ou é isso ou a parcialidade vai ficar escancarada. Só que o povo não é bobo. E percebe. E na hora certa vai falar", disse o ministro nas redes sociais.

A presidente nacional do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann (PR), afirmou por sua vez que a conclusão das autoridades paranaenses é "açodada e contraditória aos fatos" e que ela significa "mais um incentivo aos crimes de ódio e à violência política comandadas por Bolsonaro".​

A declaração do ministro bolsonarista foi republicada pelo filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

O empresário e dono da Havan, Luciano Hang, um dos principais apoiadores do atual presidente, também repercutiu o desfecho do inquérito policial. Ele aproveitou para criticar a esquerda.

"A esquerda sempre querendo ser a vítima", comentou em seu Twitter.

Dentre os aliados de Lula, o deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG), líder da bancada do partido na Câmara, afirmou à Folha de S.Paulo que a conclusão da polícia "não contribui para a pacificação das eleições no Brasil". "O inquérito nega a verdade e ajudará aumentar a escalada da violência incentivada pelo Bolsonaro", disse ele.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), importante peça na campanha presidencial de Lula, afirmou que a polícia tenta minimizar o caso.

"A Polícia Civil do Paraná concluiu que não foi crime político porque não impediu ninguém de exercer seus direitos. Fica difícil Marcelo exercer esses direitos estando morto, não? Negar a natureza de crime de ódio ao caso é uma tentativa covarde de apagar essa tragédia!", escreveu nas redes sociais.

Ele foi acompanhado por colegas de Senado da bancada do PT. Humberto Costa (PE), por exemplo, questionou o trabalho dos policiais envolvidos no caso. "Quem é que vai analisar a motivação política desses policiais?", questionou em seu Twitter.

O senador Fabiano Contarato (PT-ES) foi na mesma linha.

"Um atípico inquérito a jato, para uma conclusão estapafúrdia, que confronta fatos e evidências visíveis a olho nu. É lamentável que um delegado se preste a fazer o jogo bolsonarista, em detrimento de seus deveres", escreveu.

Em nota, o PT do Paraná afirmou que o "encerramento apressado das investigações" é uma ofensa à família de Marcelo, além de um "prognóstico preocupante de conivência das autoridades com os futuros episódios de violência que ameaçam as eleições deste ano".

Ao apresentar suas conclusões, a polícia paranaense admitiu que tudo começou com uma provocação do bolsonarista seguida de discussão por questões políticas e ideológicas. Mas disse que, para enquadrá-lo como um crime político, seriam necessários requisitos para isso, como o de tentar impedir ou dificultar outra pessoa de exercer direitos políticos.

Jorge foi indiciado sob a suspeita de homicídio duplamente qualificado. Ele invadiu a festa de 50 anos de Marcelo, que tinha o PT como tema, e o matou —o bolsonarista acabou baleado pelo petista e segue internado em estado grave.

Familiares, amigos e colegas militantes do guarda municipal Marcelo Arruda, morto a tiros durante uma festa com temática do PT, irão ser reunir no próximo domingo (17) para uma homenagem pública em Foz do Iguaçu (PR), onde o crime ocorreu.

A família de Arruda se pronunciou por meio de seu advogado, Ian Vargas. Segundo ele, o ato será apartidário e pede o fim da intolerância e da violência política.

"Não há previsão de manifestação política, mas filiados e sindicatos vão comparecer como amigos e colegas", diz o advogado.

Sobre o fim do inquérito anunciado hoje pela polícia, que descartou crime político ou de ódio, o advogado diz que a família aguarda o resultado das demais investigações em andamento, como a perícia no celular do atirador, o policial penal Jorge Guaranho.

Segundo o representante da família, tanto nos relatos das vítimas quanto das testemunhas houve a intolerância política, que resultou na violência contra Arruda.

"Ele [Guaranho] era uma pessoa estranha, não era convidado [da festa], não trabalhava lá, invadiu o local e cometeu o crime brutal", diz Vargas.

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