Entre clima e petróleo: uma COP das Arábias

Em 2006, quando Al Gore lançou “Uma Verdade Inconveniente”, a mensagem era clara: a ciência dizia que ou as emissões de gases-estufa causadas pelo homem diminuíam ou o aquecimento global provocaria uma mudança de tal ordem no clima que acabaria com a vida como a conhecemos.

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Dezessete anos depois, a mensagem do ex-vice presidente americano continua valendo, infelizmente, e cada vez mais no presente do que no futuro do pretérito. Para alguns dos maiores produtores de petróleo do mundo, reunidos no Golfo Pérsico, soa como uma dupla sentença de morte.

O que o mundo procura banir (a queima de combustíveis fósseis) é, para países que surgiram do petróleo, como morrer duas vezes — pelo clima e pelo fim da receita que alimentou a região nas últimas décadas. Não é dilema fácil de enfrentar.

É nesse contexto que vai ocorrer em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos (EAU), a COP 28, a próxima conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em dezembro. Dizem que os árabes estão preparando a maior COP de todos os tempos, com 80 mil pessoas se deslocando de todo canto para o meio do deserto a fim de discutir como acabar com a economia que criou cidades entre as mais ricas do mundo.

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Infraestrutura hoteleira e logística, eles têm de sobra. Turismo e serviços é fonte importante de recursos para os Emirados. Hoje se diz que o petróleo responde por não mais que 30% da receita do país. Os EAU têm 10 milhões de habitantes e estão em sexto no ranking dos maiores emissores per capita de CO2.

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Qatar vem em primeiro lugar, seguido pelo Bahrain e o Kuwait na lista do Global Carbon Project. Não à toa os países árabes resistiram até o último momento à criação do Acordo de Paris. Ainda agora, em novembro, lutaram para que o texto de Sharm El Sheikh (no Egito, onde foi realizada a COP 27) fosse aquarelado em relação aos fósseis.

É, de certa forma, compreensível. Até o momento, não se viram muitas manifestações de altruísmo em prol do planeta em outras sociedades ricas. A prática tem sido apontar o dedo aos demais.

O fato de o presidente da COP 28, Sultan Al Jaber, ser CEO da Abu Dhabi National Oil Company, a Adnoc, uma das maiores empresas de petróleo do mundo, foi visto como uma afronta à agenda climática por grupos ambientalistas no globo. No mundo árabe, Al Jaber é conhecido por levar adiante a pauta das energias renováveis.

- Os Emirados entenderam que a transformação energética é inevitável - diz um analista de energia.

- Não gostam disso, mas na visão deles trata-se de mitigar danos. É uma postura diferente de outros que preferem negar a realidade - continua. - Nenhum país do Golfo sairá da transição energética sem ossos quebrados. Alguns, entretanto, sairão menos destruídos.

Os Emirados estão se preparando para a COP 28 desde o sinal verde da ONU, dado em 2021, em Glasgow. Buscam ser os mais proativos em ação climática entre as nações do Golfo Pérsico. Foram os primeiros a definir uma meta net zero e a ter um ministério do clima — agora chefiado por Mariam Mohammed Almheiri. Mas não é para tanto — não será uma mulher a presidir o evento.

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É precisamente aí, no conteúdo e não na forma, que está a desconfiança quanto a uma COP das Arábias. Lideranças climáticas buscam dizer que é bom ter os EAU à frente para trazer a bordo mais nações do petróleo. Há urgência em reverter o quadro: o mundo vive uma sucessão de eventos climáticos assustadores, emissões longe de onde deveriam estar, e financiamento climático, idem. É isso que se espera que a COP 28 resolva.

Sobre a autora: Daniela Chiaretti é repórter especial de ambiente do Valor, vencedora do prêmio Esso de 2011 na categoria Ciência.