Entre computadores e panelas: profissional de TI e chef cria kit de hambúrguer artesanal para cliente finalizar em casa

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RIO — Lapa, 1992. Pai e filho montam uma churrasqueira em frente a um bar para vender espetinhos. A gastronomia de rua foi a solução encontrada pelo agora saudoso Seu Costa para garantir a sobrevivência da família. O pequeno Bruno, na época com 12 anos, já demonstrava interesse pela culinária, seguindo os passos do seu “velho”. A desenvoltura do menino para pilotar o fogão chamava a atenção, ainda que ele nem sonhasse virar cozinheiro. Vieram a adolescência e a idade adulta, e o encanto por transformar ingredientes em sabores únicos se mantinha inabalável.

Mas quis o destino que as receitas só voltassem com força total para o dia a dia do já profissional de TI, morador de Vila Isabel, em 2015, quando o Bozaio Gourmet foi criado. Um ano depois, um projeto batizado de Invasão — que nada mais era do que vender petiscos em estabelecimentos especializados em cerveja artesanal e sem um cardápio de iguarias para oferecer os clientes — fez o futuro repetir o passado. E não será surpresa se daqui a mais um tempo, a filha de Bozaio (sobrenome de Bruno), Laura, de 9 anos, seguir os passos do pai e do avô. O amor por colocar refeições ou lanches na mesa passa de geração para geração. Não à toa, o ex-participante do programa “Cozinheiros em ação”, do GNT, está fazendo sucesso com uma ação, nascida em meio à pandemia, que incentiva as pessoas a experimentarem os prazeres de montar o próprio hambúrguer no lar doce lar.

— O Bozaio na Sua Casa funciona com o cliente recebendo na sua residência um kit com dois pães artesanais, duas carnes, dois molhos, duas maioneses e duas fatias de queijo. Todos estes produtos chegam em uma caixa com embalagens individuais, fechadas a vácuo. Um manual de instruções, com o passo a passo para a preparação, acompanha os ingredientes. Depois, é só virar chef por um dia. Eu tive essa ideia quando os eventos gastronômicos que fazia pararam, e os meus clientes pediram que eu fizesse algo para delivery. As famílias estavam em casa e, como a cozinha é um ambiente de união, pensei que seria interessante promover um momento em que pais e filhos fossem preparar o lanche juntos. O diferencial do kit é a qualidade dos ingredientes, todos artesanais, e as minhas dicas de como selar o pão e sobre o ponto ideal da carne e a maneira correta de derreter o queijo — diz o cozinheiro, que mantém o perfil @bozaio no Instagram.

Não seria bem mais prático para o cliente receber em casa os hambúrgueres prontos? O simpático Bozaio tem resposta afiada, na ponta da língua, para a provocação.

— A graça está em viver uma experiência diferente. É bacana ver uma criança, um adolescente, aventurando-se no preparo do próprio lanche, sentindo-se aprendiz de chef. Alguns clientes compram os kits também para presentear os amigos. Aí fazem videoschamadas com eles para prepararem a comida juntos, cada um na sua casa. O kit vira um evento divertido, seguro, além do sabor especial dos hambúrgueres que eu recomendo — diverte-se.

Na cozinha de sua casa no bairro de Noel, Bozaio vive cotidianamente a experiência de preparar receitas com a filha, que já demonstra interesse pela gastronomia.

— Com 4 anos, a Laura fazia biscotinhos caseiros. Atualmente, ela gosta de preparar hambúrguer, omelete e macarrão. Se a minha filha quiser seguir os meus passos fazendo da cozinha uma profissão, eu darei todo o meu apoio. Mas vou explicar que é uma vida difícil. Tanto é que até hoje não vivo exclusivamente da gastronomia. Continuo trabalhando com TI, sou gestor de redes sociais, mas estou me preparando para me dedicar cada vez mais ao meu lado cozinheiro. Amo cozinhar, mas amo ainda mais poder servir. Preparar um alimento é servir a alguém, e isso é lindo. Esta magia da cozinha me reconecta com o meu pai. De verdade, eu sinto a presença dele perto de mim sempre que estou cozinhando. Mas, curiosamente, ele não chegou a me ver trabalhando como cozinheiro profissional. Se viu, foi lá do céu — diz.

Um detalhe: Bozaio não gosta de ser chamado de chef de cozinha:

— Fiz muitas especializações em gastronomia, mas como não cursei uma faculdade, prefiro ser cozinheiro, com muito orgulho!

Sucesso em programa de TV com receita familiar

Não há a menor possibilidade de Bruno Bozaio dissociar a gastronomia da sua infância e da adolescência, tempo em que aprendia com o pai os segredos de um bom tempero.

— Hoje em dia, quem vende espetinhos na rua já compra tudo pronto. Mas naquela época isso não existia. A gente cortava a carne, temperava, colocava nos espetinhos. A mesma coisa com o preparo da cafta, que era uma marca registrada do meu pai e que faço até hoje. Uma das minhas maiores lembranças afetivas é dos meus dedos cheios de farpinhas do espeto, de tanto que eu espetava as carnes. Era uma produção bem caseira, feita com muito amor — recorda.

Foi de coração que, aos 8 anos, o então aspirante a cozinheiro preparou uma surpresa daquelas para os pais. Ele conta que ficava sozinho em casa e um dia resolveu fazer uma macarronada para o jantar.

— Quando eles chegaram, a comida estava pronta para ser servida. Além do hambúrguer e do churrasco, que são minhas especialidades, adoro cozinhar comidão para muita gente, como uma boa feijoada. Esta preferência também tem tudo a ver com o meu passado. Quando chovia ou fazia muito frio, como não era possível ir para rua vender churrasco, o meu pai cozinhava com a porta aberta para atrair os vizinhos. Fazia fila na porta do apartamento para comprar a comida dele — lembra.

E foi com uma receita familiar que Bozaio brilhou ao participar do “Cozinheiros em ação”, do GNT, em 2017:

— Eu e a minha prima Michele Gusso formamos uma dupla no programa. Em cada episódio, tínhamos que cozinhar uma receita com o ingrediente que a direção escolhia. No dia em que foi carne moída, preparei a cafta do meu pai, que sempre fez sucesso nos eventos gastronômicos em que eu trabalhava. Ganhei esta prova do “Cozinheiros em ação” com a receita do meu pai. Foi inesquecível.

Para um futuro próximo, o cozinheiro planeja retomar sua intensa agenda de eventos, feiras e palestras, praticamente suspensa desde março do ano passado. Ele diz que não vê a hora de a vida voltar ao normal e de poder trabalhar em festas particulares e corporativas, casamentos...

— Até o fim do ano pretendo não trabalhar mais com TI, só com culinária e marketing digital. Até porque o meu tempo é curto, já que cuido pessoalmente das compras, do cardápio e da entrega. Faço questão de que os clientes saibam que cada etapa tem o meu DNA — afirma.

Nada mais familiar, não é mesmo?

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