Entre as crianças, bebês são os mais afetados pelo coronavírus no Rio

Felipe Grinberg
Montagem do hospital de campanha no Estádio Célio de Barros, ao lado do Maracanã, na Zona Norte do Rio.

A cidade do Rio de Janeiro tem 12 crianças entre 0 e 9 anos infectadas com coronavírus. De acordo com o painel da Secretaria Municipal de Saúde, a média de idade é de 1,3 anos, o que indica que grande parte são bebês. Delas, seis são meninos e as outras as outras meninas. A Barra da Tijuca concentra o maior número de casos, tendo três confirmados. Em Botafogo duas crianças já foram diagnosticadas e em, Ipanema, Freguesia, Leme, São Cristóvão e Paciência foram registrados um paciente em cada. Uma criança mora fora do município também foi diagnosticada na rede municipal e outra ainda não teve os dados de residência atualizados na plataforma da prefeitura.

Entre os jovens adolescentes de 10 a 19 anos, oito já foram diagnosticados com a covid-19. A média de idade deles é de 14,4 anos e são moradores da Barra da Tijuca, Ipanema, Lagoa, Jardim Botânico e Gávea.

Segundo o infectologista e pediatra Marco Safadi, os casos de coronavírus em crianças costumam ser mais brandos. O médico, que atua em hospitais de São Paulo, já atendeu duas crianças infectadas com covid-19 com menos de um ano. Nos dois pacientes, Safid conta que foram preciso alguns dias de internação, mas a recuperação evoluiu bem.

Safadi alerta que como muitas crianças estão em casa, os adultos podem ser os vetores de transmissão, já que alguns ainda trabalham e frequentam lugares com alta exposição, como mercados. Por isso ele recomenda a higienização logo após a chegada em casa.

Ele orienta que os pais devem ficar atentos aos sintomas e procurar auxílio se perceberem o agravamento:

- As crianças e bebês são grupos que têm mais chances de contrair infecções respiratórias. Elas podem também ser alvo de coinfecções, pegando outro vírus da gripe também, que pode agravar algum caso. Se ela estiver com uma febre contínua, se cansar na hora de mamar, por exemplo, pode ser o momento de procurar ajuda - conta Safadi, que também é membro da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Segundo o infectologista Edimilson Migowski, que é mestre em pediatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, ainda é preciso ter um cuidado no contato das crianças com outras pessoas que não são residentes da mesma casa, já que elas podem ser assintomáticas e transmitir o vírus.

— Sem apresentar sintomas elas podem acabar levando o vírus para casa e contaminando pais e avós

O especialista alerta que é preciso redobrar os cuidados de higiene das crianças. :

— Como elas estão em casa é um ótimo momento de ensiná-las a ter bons hábitos de higiene. Mostrar como lavar as mãos , tocar a boca e olhos e colocar o sapato na porta, por exemplo. Ensinar bons hábitos que irão salvar vidas e fazer elas serem adultos mais conscientes da prevenção — conta Migowski.

O município do Rio atingiu, nesta quinta-feira, 807 casos confirmados de coronavírus. Em todo o estado são 992 vítimas, sendo 41 mortes..

A Zona Sul continua sendo a região com mais casos absolutos. Porém nos últimos dias , houve um grande aumento na Zona Norte. Diversos bairros, entre eles algumas comunidades, registraram os primeiros casos.

Estado do Rio ultrapassa barreira dos 100 casos diários

Pela segunda vez consecutivo o Rio ultrapassou a barreira de 100 registros de infectados pelo coronavírus em um dia. A alta foi puxada pela capital, que confirmou 110 dos 160 novos casos. Ontem também foi o dia com maior número de óbitos confirmados. A Secretaria Estadual de Saúde informou que mais treze pessoas infectadas foram vítimas do covid-19., nove na cidade do Rio

O aumento no número de casos preocupa as autoridades. A curva que aparentava estar “achatando” na última semana, voltou a subir. Anteontem, o prefeito Marcelo Crivella fez um apelo à população.

— O número de casos confirmados subiu muito. Fazemos um apelo para que as pessoas permaneçam em casa, em especial o pessoal do comércio. E um cuidado especial com os idosos — disse, alertando sobre a baixa procura pelas vagas nos hotéis disponibilizados para os moradores de áreas carentes: — Até agora, só dez das mil vagas foram preenchidas.

Já o subsecretário municipal de saúde Jorge Darze acredita que o aumento repentino de casos seja porque haviam testes atrasados no laboratório do governo estadual:

— Nós continuamos a ter casos todos os dias. O.mais provável é que havia uma quantidade de exames depredados no laboratório Noel Nutels que ficaram prontos agora. Minha avaliação é que a estratégia de confinamento ajudou a reduzir a curva. E a oferta de leitos está atendendo a demanda — afirma.

A avaliação de especialistas ouvidos pelo GLOBO é que o número de notificações por dia só deve aumentar, já que o pico da contaminação é esperado para a última semana de abril. Para a Tania Vergara, presidente da Sociedade de infectologia do Rio de Janeiro, é preciso continuar com as medidas de isolamento para tentar reduzir essa subida ao máximo.

— Só vamos ter certeza do impacto do isolamento social daqui uma semana, porque os casos confirmados são aqueles sintomáticos e que procuraram os hospitais. O período de incubação é de aproximadamente 14 dias. Precisamos ficar em casa — conta Tânia

Também há uma grande preocupação com a subnotificação de casos. Nesta quarta-feira uma análise feita pelo Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS), que reúne especialistas de diversas instituições públicas e privadas, antes da divulgação dos mais de cem casos afirmou que o cenário no Rio de Janeiro está entre o cenário otimista e mediano. Porém, eles alertaram para um problema nacional de falta de testagem:

“O Brasil apresenta duas dificuldades na mensuração do total de casos positivos identificados: ausência de uma política de testagem ampla e o atraso na obtenção dos resultados e notificações”, cita trecho do estudo.

Segundo o governo estadual, nesta semana quase 700 mil kits de testagem rápida devem chegar ao Rio. Nas próximas semanas o laboratório do estado também deve ser equipado para aumentar a capacidade de testagem. Nesse caso, a prioridade do diagnóstico é testar profissionais de saúde e segurança, pacientes graves e óbitos em investigação.