Entre os profissionais da saúde, mulheres negras são mais impactadas pela pandemia, diz estudo

Raphaela Ramos
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Fabiano Rocha / Agência O Globo

RIO — Na linha de frente do combate à Covid-19, os profissionais da saúde exercem um papel fundamental durante a pandemia e têm enfrentado diversos desafios. Mas, embora todos esses trabalhadores estejam em situação vulnerável, as mulheres negras são as que mais sofrem com impactos da crise sanitária. É o que mostra uma pesquisa da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV/EAESP), publicada nesta quarta-feira.

O estudo foi realizado em parceria com a Fiocruz e com a Rede Covid-19 Humanidades e divulgado pela Agência Bori. Os dados foram coletados por meio de um questionário on-line entre os dias 15 de setembro e 15 de outubro. Participaram 1.263 profissionais de saúde de todo o país, como médicos, profissionais de enfermagem e agentes comunitários.

A análise evidencia a maior vulnerabilidade das mulheres negras que trabalham na área da saúde, enquanto os homens brancos são os que apresentam menores índices de impactos devido à pandemia.

De acordo com a pesquisa, as mulheres negras são as que mais demonstram medo de contaminação pelo novo coronavírus (84,2%), sensação de despreparo para lidar com a crise (58,7%) e declaram ter sofrido mais assédio moral durante a pandemia (38%). Elas também são as que menos receberam testagem para a Covid-19 (26%) e têm menos suporte de seus supervisores (54%).

— Esse é um reflexo da desigualdade estrutural da sociedade, na qual as mulheres negras ocupam profissões hierarquicamente inferiores na área da saúde. Elas são, em geral, agentes comunitárias ou profissionais de enfermagem, recebem os piores salários, têm pior nível de instrução comparativamente, são menos valorizadas como profissionais comparando com médicos. Quando chega a pandemia essas desigualdades se exacerbam ou ficam mais evidentes — explica Gabriela Lotta, professora da FGV/EAESP, uma das coordenadoras da pesquisa.

O estudo também apresenta alguns depoimentos de trabalhadoras: "É frustrante e humilhante você ser profissional de saúde e ver faltar tudo de equipamento de segurança para seu trabalho, os testes, por conta dos apadrinhamentos de funcionários, são feitos em quem menos precisa ou não precisa de jeito nenhum. E nós profissionais não temos acesso e para fazermos isso é uma humilhação que dá desânimo pelo tamanho do descaso", conta uma mulher negra, agente comunitária de saúde, da Bahia.

"Quando a pandemia começou, achei que estava grávida e estava ainda amamentando minha primeira filha. Pedi ao diretor que me colocasse em um setor de menor risco, já que estava alocada justamente na enfermaria Covid de um serviço de referência. Ouvi barbaridades do tipo 'você tem risco na rua também, nem você nem tua filha são grupo de risco'. E a pior na minha opinião: 'até quando você vai amamentar sua filha?'", relata outro depoimento, de uma mulher branca, médica, de São Paulo.

No entanto, em alguns aspectos analisados, a situação de homens e mulheres que se autodeclaram amarelos, indígenas, transexuais e não-binários é ainda mais crítica. Nesse grupo, apenas 40,3% afirma ter recebido treinamento durante a pandemia, contra 44% das mulheres negras, 50,8% das mulheres brancas e 58,7% dos homens brancos.

— Os profissionais indígenas, que em geral trabalham em comunidades indígenas, têm condições de trabalho mais precárias, com menos recursos. Da mesma forma, os profissionais LGBT são pessoas que sofrem mais assédio moral. Esse dado reflete grupos sujeitos a vulnerabilidades profundas, e a pandemia exacerba as desigualdades que já existem — afirma Lotta.

Saúde mental dos profissionais de saúde

Os profissionais da saúde também vêm sofrendo diversos impactos psicólogicos. Segundo a pesquisa, as mulheres, brancas e negras, declaram-se mais suscetíveis às emoções negativas nesse período: 83% delas disseram que a saúde mental foi impactada durante a pandemia, contra 69% dos homens. Entre amarelos, indígenas, pessoas transexuais e não-binárias, essa porcentagem foi de 89%.

"Como trabalho na linha de frente nessa pandemia, fiquei um mês sem ver minha filha e sem abraçar meus pais. Sentindo uma solidão por ter que conversar com eles por vídeo chamada… A dor era surreal, querendo estar próximo e não poder. Única forma de mantê-los seguros e protegidos", conta em depoimento uma mulher negra, agente comunitária de saúde, do Amazonas.

— Não é só que as mulheres sejam mais vulneráveis na sociedade. A pandemia tem características que afetam mais a elas do que aos homens, pela dupla jornada, ter que cuidar do filho ao mesmo tempo que trabalham. Para esses profissionais não existe home office. Imagina o sofrimento dessa mulher que tem que deixar o filho para cuidar de outras pessoas, voltar para casa e ter a preocupação de contaminar sua família. Às vezes não tem nem com quem deixar a criança — diz a professora da FGV/EAESP.

Ela também destaca que o risco para essas profissionais da saúde é realmente grave:

— Dados oficiais mostram que as mulheres morrem mais entre os profissionais da saúde durante a pandemia, e o Brasil é líder em morte de profissionais de enfermagem pela Covid-19, que são em sua grande maioria mulheres — ressalta.

Recomendações

O estudo apresenta algumas sugestões e recomendações para os governos, com o objetivo de diminuir os impactos de gênero para os profissionais da saúde durante a pandemia. Lotta afirma que a primeira indicação é quantificar esses dados de maneira mais evidente, pois existem poucos indicadores com informações sobre gênero e raça dos trabalhadores.

— Outra é que os governos façam políticas para resguardar essas mulheres que têm que sair de casa e não têm com quem deixar seu filho. E que os governos cuidem ou resguardem a saúde mental dos profissionais de saúde durante a pandemia, isso para todos, mas principalmente para as mulheres — enumera a pesquisadora.