Entre tiaras e lembranças, Israel escolhe sua 'Miss Holocausto'

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Selina Steinfield cumprimenta o público (AFP/Ahmad GHARABLI)

Com vestidos de baile penteados, maquiagem, salto alto e tiaras brilhando sob os holofotes, as candidatas - todas sobreviventes do Holocausto - desfilaram em Jerusalém.

"Muito obrigada, estou emocionada, não tenho palavras", disse Selina Steinfeld, vencedora do concurso, ao microfone entregue a ela por uma modelo. Com seu cabelo ruivo, vestido dourado e colar de pérolas, esta sobrevivente do genocídio judeu, nascida em 1935 na Romênia, foi coroada "Miss Holocausto 2021" na terça-feira (16) à noite.

Organizado desde 2012 pela instituição de caridade israelense Yad Ezer La Haver, este concurso de beleza sem precedentes quer "dar às sobreviventes do Holocausto um pouco da infância que lhes foi roubada", explica à AFP Shimon Sabag, fundador da organização.

"É muito importante. Nós as vestimos, maquiamos, cuidamos delas", diz.

Envolvida em um xale cinza, Kuka Palmon se sente como uma "adolescente". Aos 87 anos, acaba de passar a tarde sendo mimada por profissionais e acha isso "muito bom".

Nascida na Romênia, ela se escondeu em um porão durante a Segunda Guerra Mundial enquanto seu pai era colocado em um trem para um campo de concentração. "Ao voltar do comboio da morte, era um esqueleto", lembra Kuka.

"Quando ele chegou em casa, eu disse: 'Você não é meu pai' e fugi", continua.

Para a sobrevivente, este concurso da rainha da beleza representa, acima de tudo, uma "grande" oportunidade de "poder contar ao mundo o que viveu".

As 10 competidores selecionadas por Yad Ezer se revezam no palanque de um salão em Jerusalém para contar brevemente sua história. Algumas não querem largar o microfone, outras têm a voz cortada pela emoção.

Como em um concurso de beleza comum, as candidatas clamam por "paz no mundo".

Mas a melodia de "Dancing queen" do Abba, a tela gigante, o júri de modelos e empresárias em vestidos extravagantes e chamativos não ofuscam o Holocausto onipresente.

Fala-se de pogroms, campos de trabalho, fome e Josef Mengele, o médico nazista de Auschwitz apelidado de "anjo da morte" por seus experimentos com deportados.

- Grotesco ou entretenimento? -

Organizado algumas semanas antes do concurso Miss Universo - agendado para dezembro em Eilat, no sul de Israel - o das sobreviventes gera polêmica.

Algumas organizações consideram o genocídio um assunto muito sério para ser celebrado sob o brilho de projetores.

Para Colette Avital, presidente de um grupo de organizações israelenses de ajuda a sobreviventes, as mulheres participantes do evento sofreram tanto que "não podem ser convidadas a participar de um concurso de beleza. É ridículo, é grotesco e falta de respeito", reagiu à AFP.

No segundo lugar do pódio, Marcelle Epstein, de 80 anos, rejeita as críticas, dizendo que "gosta de ver mulheres velhas se divertindo".

Colocada em um orfanato no sul da França durante a guerra, Marcelle, que chegou a Israel em 1948, se considera sortuda por ter escapado dos nazistas. "Eu não estive nos campos de concentração", confessou a dinâmica octogenária alguns dias antes da competição em seu apartamento em Tel Aviv.

Desse período, ela guarda principalmente lembranças do pós-guerra, quando, após sair do orfanato, voltou a se encontrar com pais que não reconhecia e que "não queria" (como pais). "Mas mesmo agora, quando ouço sobre o Holocausto, dói".

Feliz por ter sido escolhida como a primeira princesa do Miss Holocausto, ela considera que o concurso, além da beleza das octogenárias, deve sempre priorizar a candidata mais velha. "Você tem que fazer ela se sentir uma rainha", lança em um francês com sotaque hebraico. "Quanto tempo mais viverá?"

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