Entregador de aplicativo que ficou sob mira de fuzil recebeu ofertas de cinco bicicletas, mas continua a pé

Marcos Nunes
Jorge Hudson, de 27 anos, pensa em processar o estado

RIO - Depois da violência e do ódio nas redes sociais, a solidariedade. O entregador de aplicativos Jorge Hudson Alves da Silva, de 27 anos, contou nesta terça-feira, ter recebido a oferta de doação de cinco bicicletas e até de dinheiro. Há um mês, ele teve a bike que usava no trabalho, e que era emprestada por um tio, levada por alguém que estourou um cadeado em frente à 9ª DP (Catete). Passou a fazer o serviço a pé, e foi justamente após uma entrega que, no último domingo, teve um fuzil apontado para sua cabeça por um policial militar, durante um protesto em frente ao Palácio Guanabara, em Laranjeiras, na Zona Sul do Rio.

Jorge chegou a receber ataques nas redes sociais após postar as fotos do episódio, que foi flagrado por um cinegrafista da GloboNews. Apesar de ter aceitado uma das cinco bicicletas oferecidas (a primeira que chegou), e de ter recusado doação de dinheiro, ele continua a pé. É que o entregador também resolveu ser solidário. Por conta disto, doou a bike para um amigo desempregado.

Segundo Jorge, o rapaz estava em piores condições financeiras e precisava usar o veículo para trabalhar. Morador de uma comunidade pobre do Rio, onde mora de aluguel, e pai de uma criança de 4 anos, Jorge Hudson planeja voltar a pé ao serviço de entregas de aplicativo nesta quarta-feira. Mas diz que aceitou um conselho: fazer uma vaquinha para tentar comprar uma bicicleta motorizada. Assim, será mais fácil fazer entregas e vencer as ladeiras do Rio.

— Havia recebido uma cesta básica na comunidade que eu moro e por enquanto ainda não estou passando fome. Meu amigo estava desempregado e precisava trabalhar com a bike. Estava em pior situação e eu resolvi doar. Vou trabalhando a pé. A ideia é voltar nesta quarta-feira, já que não posso ficar parado por muito tempo. Uma vaquinha foi aberta e quem sabe não consigo comprar uma bicicleta motorizada? — disse.

Jorge ganha cerca de R$3,50 por cada entrega que faz. Após ter a bike furtada, viu sua renda despencar de R$ 50 para apenas R$ 20 por dia. No domingo, após fazer uma última entrega, foi encontrar amigos que iriam participar do protesto "Vidas negras importam". Após uma bomba estourar, ele se assustou e correu.

Em seguida, acabou sendo rendido por policiais. Ao ter um fuzil apontado para sua cabeça, não reagiu: apenas levantou as mãos para o alto. Acusado de resistência, ele foi levado para uma delegacia de polícia. Como também estava com uma ponta de cigarro de maconha, passou a responder por porte de drogas.

De menor potencial ofensivo, o caso será analisado pelo Juizado Especial Criminal. Procurador da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), o advogado Rodrigo Mondego acompanhou o entregador na delegacia. Ele disse acreditar que o rapaz seja absolvido da acusação de resistência.

Polícia reconhece que PM feriu protocolo ao apontar fuzil para cabeça

Procurada nesta segunda-feira, a Polícia Militar reconheceu que o PM feriu o protocolo ao apontar o fuzil para um homem desarmado. O policial atuava no bloqueio do trânsito e responderá administrativamente pelo ato. Abaixo, a íntegra da nota da corporação.

"A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que, neste domingo (31/5), policiais do 2º BPM (Botafogo) e do RECOM (Batalhão de Rondas Especiais e Controle de Multidão) acompanharam uma manifestação em frente ao Palácio Guanabara, em Laranjeiras. O protesto estava transcorrendo de forma pacífica, quando um homem começou a arremessar objetos nos policiais, ele ainda fez uma tentativa de invasão ao local, o criminoso foi preso. Durante a dispersão, policiais militares tiveram a necessidade de fazer o uso de instrumento de menor potencial ofensivo para conter os manifestantes mais exaltados começaram a arremessar pedras no Palácio Guanabara e nos policiais militares.

A Corporação esclarece que o policial das imagens responderá administrativamente por ter ferido o protocolo interno ao apontar seu fuzil para um homem desarmado. O policial atuava no bloqueio do trânsito e na segurança da tropa."