Entregador recupera celular de motorista assaltada em Botafogo: 'Foi aquela reação de só querer fazer o bem'

Louise Queiroga
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Foto: Instagram @moto_boyzs / Reprodução

Um encontro inesperado com um entregador livrou uma motorista em Botafogo, na Zona Sul do Rio, de ter o celular — seu instrumento de trabalho — roubado na noite do último domingo, dia 24. Ambos postaram em um grupo de bairro no Facebook suas respectivas versões do ocorrido, emocionando internautas.

Diego Batista Correia, de 27 anos, contou que costuma trabalhar na região de Laranjeiras. Ele presta serviço para um aplicativo de entrega alimentícia. Naquela noite, porém, recebeu um pedido até o Leme, o que não é comum, relatou, a partir do local onde estava. Por isso, Diego acredita que tenha sido por intervenção divina, para que estivesse na hora certa, no lugar certo, para ajudar a vítima de assalto.

— O que passou pela minha cabeça foi sentir como se fosse minha mãe que estivesse ali naquele momento — disse o jovem, que estava voltando do Leme e passava por Botafogo quando avistou um garoto ameaçando uma motorista com uma faca apontada para o pescoço dela.

Num primeiro momento, Diego pensou que o rapaz estivesse vendendo balas. No entanto, ao observar atentamente, viu que ele segurava uma faca na frente do pescoço da motorista, enquanto ainda estava com a cabeça para dentro do veículo, onde o entregador viu estarem duas crianças no banco de trás.

— Fiquei esperando, não fiz nada não. Continuei só olhando. Estava a cinco metros de distância, pertinho. Ela estava em pânico. Ele estava com a faca no pescoço dela. Mas esperei ele roubar ela pra não dar uma facada nela. Tomou os pertences dela, o telefone e outra coisa lá, que ele pediu R$ 50. Quando ele começou a sair correndo aí eu já vim na contramão e comecei a gritar "ladrão!". Só que não tinha ninguém, que foi domingo, oito horas da noite. Eu vim pela contramão, pela Oswaldo Cruz. Ele viu que eu estava indo atrás dele, falei que ele não podia roubar ali — narrou Diego.

O entregador disse que conseguiu encurralar o ladrão, que mesmo tentando fugir, acabou tropeçando.

— Aí eu quase caí da moto também — acrescentou. — Ele soltou o telefone, largou a faca e outra bolsinha e começou a correr.

Diego pôde recuperar o celular e, ao voltar para o ponto do assalto, o carro da vítima ainda estava lá. Embora tenha recebido uma oferta de gratificação pela atitude, ele não a aceitou.

— Dei o telefone na mão dela. Ela me agradeceu, veio me dar um dinheiro, eu não aceitei. Falei que foi de coração mesmo. Falei que poderia ter acontecido com minha mãe, minha tia, com todo mundo. Mas graças a Deus. Eu creio que foi Deus que me colocou naquela hora ali. Foi aquela reação de só querer fazer o bem mesmo — descreveu. — Eu estou na pista trabalhando todos os dias, entendeu? Trabalho pelas duas filhas que tenho. Moro nem aqui, moro lá em Vitória. Da repercussão do caso, eu nem sabia que ia acontecer essa repercussão toda. Nem eu mesmo imaginava. Estava mesmo querendo saber se ela estava bem. A gente sofre muito com essa vida de entregador, entendeu? Já passei várias coisas na pista.

Conforme combinado com Diego após a ajuda recebida em Botafogo, Ana Paula Demarchi fez uma publicação sobre o episódio em grupo com enfoque em alguns bairros da Zona Sul. No texto, ela resumiu o ocorrido com a palavra "gratidão". Frisou ter estado grata "a Deus" por não ter sofrido "nada grave" e "ao Diego por todo esforço" num momento em que sua "vontade era só de chorar", por sentir-se "tão impotente", pensando "nos filhos se algo de ruim tivesse acontecido".

Ana Paula afirmou que levava em seu carro duas passageiras quando um sinal da praia de Botafogo fechou e surgiu o assaltante.

"Eu estava com o celular no painel do carro, ele pediu o celular e R$ 50 e quando eu entreguei o celular ele me cortou, eu acho que foi o nervoso e a faca estava muito amolada", contou.

Na postagem, a motorista destacou a iniciativa de Diego, chamando-o de "herói" e "anjo que Deus colocou em seu caminho".

"Ele me perguntou o que o cara havia roubado, eu falei o celular que eu estava trabalhando, ele é entregador do Ifood, pegou a moto e saiu na contramão, nunca vi nada parecido, nem policial teria agido igual esse menino agiu, só sei que eu fiquei parada e daí a alguns minutos ele voltou com a moto e parou do meu lado, me entregou o celular e não quis nada, insisti para dar uma caixinha para ele, mas ele não aceitou em hipótese nenhuma, mesmo eu falando que era de coração e que ele merecia muito mais", acrescentou. "Hoje eu tive a certeza que ainda existem anjos por aí, disfarçados de pessoas...parabéns para o Diego e para a mãe dele, pela educação, idoneidade e caráter, que Deus o abençoe grandemente e o proteja todos os dias. Por mais seres humanos assim".