Entregadores vivem entre o medo e a generosidade dos clientes durante pandemia

Regiane Jesus
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Luiz Felipe faz entregas na Zona Norte do Rio

Bem-vindos sejam os entregadores que, sobre bicicletas e motos ou exclusivamente com seus próprios pés, chegam aos lares portando compras, refeições prontas, remédios... São mãos nunca antes tão solicitadas que levam, sobretudo, alimento a quem cumpre o distanciamento social necessário para um combate eficaz ao novo coronavírus. Se é época de desafio para todos, esses profissionais se arriscam ao circular sem moderação, ao mesmo tempo em que aprendem a exercer o ofício de uma forma mais cautelosa, protegendo suas vidas e dos clientes com o uso de máscaras e álcool em gel. O medo do contágio existe, mas, assim como aqueles que estão na linha de frente, seja nos hospitais, nas estradas ou fazendo a limpeza das ruas, eles sabem que precisam cumprir um papel social e, claro, levar o sustento para casa.

Luiz Felipe Oliveira, de 25 anos, morador do Cachambi, é um desses heróis do asfalto. Dez horas por dia, ele está a postos para fazer entregas seguindo uma rotina que inclui um sentimento novo: o medo.

— Houve uma mudança na relação com os clientes. Alguns atendem com um receio estampado no rosto e ficam bem afastados. Estão certos, é uma segurança para os dois lados. O medo é real e também existe da minha parte. Dia desses, fiquei apavorado quando fui fazer uma entrega e a cliente estava com uma tosse terrível, com a respiração ofegante... Pedi desculpas, mas disse que iria manter uma distância maior. Felizmente, ela entendeu perfeitamente o cuidado que eu estava tendo com a minha saúde — diz.

O medo não é o único elemento que surgiu recentemente nos encontros entre clientes e entregadores. A generosidade também tem dado o ar da sua graça. Wallace Alves dos Santos, de 31, morador do Borel, na Tijuca, vive as duas experiência em sua rotina de trabalho.

— Neste período de pandemia, tem gente que não quer ter contato algum comigo, então pede que eu deixe a encomenda na portaria do prédio, no portão da casa, no chão do apartamento. Está todo mundo apreensivo. Por outro lado, as gorjetas aumentaram, estão em torno de R$ 5. As pessoas sabem da nossa dificuldade, que nos arriscamos porque ficamos o dia todo para lá e para cá — conta.

Casado, pai de dois filhos e com a mulher no sétimo mês de gravidez, Alexandre de Almeida, de 35, morador do Salgueiro, na Tijuca, tem redobrado os cuidados de higiene para proteger a si próprio e a família.

— O sustento é 100% comigo. Vivo das entregas, mas me preocupo muito. Desde que esta crise começou, deixo todo o meu material de trabalho fora de casa. Quando entro, vou direto tomar banho e só depois falo com a família. No trabalho, passo álcool em gel nas mãos o dia inteiro e tento manter distância dos clientes — conta o entregador, que, a exemplo dos colegas de profissão, tem transportado, principalmente, alimentos e remédios.

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