Entretenimento é coisa de jovem. Adulto gosta é de política

Plenário da Câmara dos Deputados – Foto: Luis Macedo

Não sei vocês, mas há algum tempo não ouço alguém dizer que odeia política.

Essa frase encerrou durante anos as conversas no fim de semana entre amigos e familiares quando eu contava sobre meu trabalho na cobertura política. Ela vinha acompanhada de variações do tipo “credo”, “Deus me livre”, “não me envolvo”, “que nojeira”, “tudo pilantra”, “são todos iguais”.

Fora do ambiente de trabalho, repercutir qualquer tema relacionado à “política” era viver em um monólogo eterno. Nele vivia dizendo que TUDO é político, dos nossos corpos á forma como bebemos água. Como resposta, ouvia apenas os grilos.

Quando comecei a me interessar pelo noticiário, no início dos anos 2000, era difícil conversar com quem sabia o nome do vice-presidente ou do ministro da Saúde.

Pouca gente acompanhava as votações do Congresso, menos ainda os julgamentos do STF.

Ao menos no meu ciclo de relacionamento, nove dos dez poucos indignados com nossa miséria social não tinham dúvidas em atribuir à apatia e à suposta alienação do povo as mazelas de um país notadamente atrasado, desigual, violento, preconceituoso.

“Enquanto você vê novela”, diziam os mais exaltados, “eles te roubam” – “eles”, no caso, eram velhos caciques engravatados com quem não tínhamos qualquer identificação: Jader Barbalho, ACM, Paulo Maluf.

Corta a cena.

A convite dos editores, volto hoje a escrever para o Yahoo! sobre nossas misérias políticas e como elas afetam nosso pobre e empobrecido cotidiano. Será minha terceira passagem por aqui.

Meu primeiro texto foi publicado no início da campanha de 2014. Falava sobre os estragos de uma polaridade que se bifurcava e jamais seria encurtada.

Meu último texto falava sobre a consagração de Jair Bolsonaro na festa do campeão brasileiro de 2018, o Palmeiras. Tudo ali era empolgação e, para seus eleitores e torcedores presentes à festa, esperança.

Foi há alguns meses, mas parece uma década.

De lá para cá o presidente assumiu o cargo, empossou ministros, demitiu o titular da Casa Civil, manteve em suspensão o do Turismo – ambos envolvidos no suposto esquema de candidaturas laranjas do PSL –, flexibilizou o acesso a armas no país, apresentou o projeto de reforma da Previdência, endossou a proposta de Sergio Moro de combate ao crime organizado, viu o motorista do filho eleito senador assumir que recolhia salários, pagos com dinheiro do contribuinte, de outros assessores, assistiu ao vice, Hamilton Mourão, se tornar um contraponto quase razoável das posições do governo, acompanhou a prisão de um antigo vizinho acusado de comandar a milícia que executou Marielle Franco, caluniou os brasileiros que pulam Carnaval, foi aos EUA bater continência a Donald Trump, acusou imigrantes brasileiros de levarem para lá todas as nossas más intenções.

Dificilmente o leitor não acompanhou, opinou ou repassou alguma corrente de WhatsApp sobre qualquer um desses assuntos.

Do início do século para cá, esse noticiário deixou de ser traço de audiência, uma bandeira fincada nos sites e portais entre notas sobre a novela, a vida amorosa das celebridades, os vai-e-vens do futebol. Pelo contrário: o noticiário político, se não supera, compete de igual para igual com todos esses eventos na disputa pela atenção do leitor.

Isso provocou cenas impensáveis no Brasil atual. Se você puxar assunto na padaria, é possível que todos ali, com o celular em mãos, saibam dizer quem são os 11 ministros do STF, mas não tenham ideia de quem vai entrar em campo pela seleção brasileira no fim de semana. É provável até que boa parte dos presentes já tenha mandado e-mail ou marcado a arroba de algum dos magistrados para falar umas boas sobre ele no Twitter.

Sinais dos tempos.

O fato é que o brasileiro se apaixonou por política. Ou porque, agora, tem acesso às notícias. Ou porque tem ferramentas disponíveis para relacionar suas misérias às decisões que antes considerava distante da sua realidade. Ou porque os canais de interação se ampliaram – e diminuíram a distância entre representantes e representados.

É provável que o antigo desinteresse fosse resultado apenas da falta e da dificuldade do acesso às informações.

Política é hoje o assunto principal dos brasileiros adultos – tenham eles 18 ou 98 anos.

Quem já se apaixonou, porém, sabe dos perigos que é olhar o objeto pelas lentes do fascínio. Como o perdão dos leitores, nessas horas vale lembrar o Renato Russo: “a paixão quer sangue e corações arruinados”.

Ódio e paixão são temas centrais para entender a roda-gigante entre euforia e depressão, expectativa e frustração, da relação entre brasileiros e a chamada classe política.

Mediar essa relação envolve um pisar em ovos, afetos e passionalidades constantes.

A internet que democratizou o acesso à informação democratizou também o acesso à desinformação.

A paixão pela política permite mobilizações e estados de alerta permanentes – o que explica, talvez, o cansaço e estado irritadiço de muitos eleitores que desfizeram amizades durante a campanha – mas também distorce, ilude, cria ruídos, perturbações.

É o terreno propício para o imediatismo e o senso comum.

Entre a letargia e a passionalidade latente que nos faz acreditar apenas naquilo que queremos acreditar, sem ver a realidade através de fatos, e não de opiniões formadas sobre fatos, há de haver um ponto de equilíbrio e inteligência.

É o que buscamos – assim, no plural – neste espaço.