Como FHC saiu da presidência para virar um próspero dono de terras

(AP Photo/Eraldo Peres)

Por Rafa Santos (@rafasantors)

Entender os caminhos que levaram um dos mais importantes presidentes da história do Brasil a se tornar um próspero proprietário de terras.

Essa foi a motivação do jornalista Alceu Castilho para escrever o livro “O Protegido – Por que o país ignora as terras de FHC".

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Em entrevista ao Yahoo Notícias, ele fala sobre como teve a ideia de fazer o livro, qual o caminho de sua pesquisa e a versão de Fernando Henrique Cardoso para os seus negócios agrários.

Yahoo Notícias: Como surgiu a ideia de escrever o livro sobre as terras do ex-presidente?

Alceu Castilho: Em abril de 2017 eu estava assistindo o Jornal Nacional e eu vi a notícia de que o Emílio Odebrecht havia denunciado de que as campanhas do Fernando Henrique tinham sido abastecidas com caixa dois. Com dinheiro da Odebrecht. E então aparecia o Emílio falando e depois o Fernando Henrique colocando panos quentes... Ali eu decidi fazer uma apuração sobre as relações entre Fernando Henrique e Emílio Odebrecht a partir do tema que eu trabalho que é a questão agrária.

Era algo restritivo, mas eu achei que mesmo com essa restrição dava para achar bastante coisa ali. Eu sabia que a Odebrecht tinha um braço agrário e que o Fernando Henrique que já teve ou pelo menos já tinha tido negócios agrários. Como tem. Então eu produzi uma série de reportagens para o “De Olho nos Ruralistas” sobre o tema em que abordei a antiga propriedade do ex-presidente em Minas Gerais e a atual propriedade em Botucatu (São Paulo) –um canavial em área de mananciais. Também busquei trabalhar com outros aspectos da relação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com o universo agrário. E exatamente o personagem que é o braço agrário da família Cardoso que é o Jovelino Carvalho Mineiro Filho é uma das conexões diretas com Emílio Odebrecht. Eles são sócios em uma empresa de genética.

Com todas essas informações eu produzi uma reportagem de capa da revista “Carta Capital” em julho do ano passado e esse ano decidi atualizar os dados em formato de livro juntando as coisas e... Foi excelente porque eu descobri que o Fernando Henrique voltou a ser sócio em junho da empresa agropecuária Goytacazes Participações que tem um canavial em Botucatu. Ano passado a empresa estava apenas no nome dos filhos dele. A motivação foi política no sentido que um dos presidentes mais importantes da história da República aparece no principal jornal do país em uma notícia sobre caixa dois e por interesse jornalístico eu achei que deveria identificar eventuais conexões com Emílio Odebrecht a partir desse recorte agrário.

Yahoo Notícias: Qual o caminho da apuração desse livro? Quanto tempo o senhor dedicou a investigação? Quantos documentos o senhor pesquisou?

Alceu Castilho: Apuração como você sabe é uma coisa que tem começo e é no limite inesgotável. Se você não colocar um limite ela não termina nunca. Eu imaginei que você fazer uma série com poucas abordagens e iria abordar um aspecto ou outro da relação do ex-presidente com o universo agrário. Quando tive a ideia do livro estava doente e esperando uma cirurgia. Então eu comecei uma apuração virtual até para entender se existia alguma pauta relevante ali. E aí eu trombei com algumas dessas histórias do livro disponíveis. Já públicas. A história da fazenda em Minas.

Algumas coisas desse personagem que é o Jovelino Mineiro que o Fernando Henrique chama de “Nê” e algumas informações disponíveis até nos “Diários da Presidência” ... Comprei alguns livros. Um deles sobre o Sérgio Mota –tucano eminente e ex-ministro das Comunicações no governo FHC (1940-1998) — porque ele foi sócio da fazenda em Minas. Foi ele que levou o Fernando Henrique para a agropecuária. A série “Diários da Presidência” que foi escrita pelo próprio ex-presidente é uma das fontes do livro. Está lá registrado nessa série que o Fernando e o Nê receberam no Palácio do Alvorada o Emílio Odebrecht. O Nê não tinha da a ver com o governo, mas recebeu com o Fernando Henrique o Emílio Odebrecht. Uma coisa puxa a outra... A partir do momento que eu identifico, por exemplo, essa empresa de genética em que o Jovelino Mineiro e o Emílio Odebrecht são sócios eu vou atrás de todos os documentos possíveis dessa empresa. Inclusive de atas de assembleia. Em uma delas aparece um advogado representando os dois. O Jovelino Mineiro e o Emílio Odebrecht. Quem é esse advogado?

É o José de Oliveira Costa que é advogado do Fernando Henrique. Até ano passado era o diretor da Fundação Fernando Henrique Cardoso junto com a Beatriz Cardoso que é filha do ex-presidente. A Fundação vem do Instituto FHC... Ela foi renomeada... Esse instituto foi criado no fim do governo de Fernando Henrique a partir de um jantar organizado por Jovelino Mineiro no Palácio da Alvorada. As doações de 12 comensais viabilizaram o instituto. Entre esses comensais estava o Emílio Odebrechet. Outro era o Luiz Carlos Nascimento da Camargo Correa... Personagens hoje encalacrados na Lava Jato. Pessoas que estão presas domiciliarmente ou não, mas presos. Ricardo Espírito Santo. Outro preso em Portugal. Fiz uma ampla apuração de documentos em juntas comerciais e visitei o canavial do FHC em Botucatu onde entrevisteis pessoas in loco.

Yahoo Notícias: Esse canavial de Botucatu fica em região de manancial?

Alceu Castilho: Isso. O canavial do Fernando Henrique fica na beira da represa do Rio Pardo. Foram compradas duas fazendas em 2012 pela Goytacazes Participações. Nessa época a empresa era constituída por Fernando Henrique Cardoso e seus filhos. Depois ele sai da sociedade e volta a figurar como um dos acionistas da empresa agora em julho. Em 2012 eles compraram essas duas fazendas em Botucatu que é uma região que fica mais ou menos no centro do estado de São Paulo. Uma região muito bonita. Essas duas fazendas são contiguas a terras que pertenciam a Jovelino Mineiro.

Contiguas a Central Bela Vista que é uma empresa genética bovina que também já pertenceu a Jovelino Mineiro. Ele vendeu para um grupo holandês. Isso tanto fica em área de mananciais que a prefeitura do Botucatu desapropriou parte dessas terras do Fernando Henrique e da Central Bela Vista para construir a represa do Rio Pardo. O canavial do Fernando Henrique fica entre as terras da Central Bela Vista e a cachoeira Véu da Noiva –existem muitas cachoeiras com esse nome no país e essa é uma delas. As únicas cercas que existem são as das terras do parque onde fica a cachoeira e as terras da Central Bela Vista. A propriedade do Fernando Henrique só tem cana. Não tem nada. Não tem casa. Não tem caseiro... Só tem cana. E a prefeitura no ano passado desapropriou a fazenda menor do FHC de 36 hectares por R$ 5. Desapropriou por um preço simbólico. E aí restou a outra de 205 hectares. Essa fazenda de 36 hectares desapropriada fica em uma área de que deveria ser de proteção permanente.

O motivo da desapropriação foi a construção da represa do Rio Pardo em tese para abastecer a população de Botucatu. Esse projeto da represa é dividido em várias etapas. A última delas é a construção de chácaras-recreio para transformar o entorno da empresa em áreas de lazer. O que é hoje um canavial do Fernando Henrique comprado como terra nula poderá ser fatiado e loteado e se tornar um conjunto de chácaras. Esses 206 hectares poderão tecnicamente ser transformado em 100 lotes. Daí ficará a cargo da família do Fernando Henrique Cardoso deixar como estar essa propriedade que foi comprada por R$ 3,6 milhões ou se transformará em um empreendimento imobiliário que vai render dezenas de milhões de reais. Essa é uma história de especulação imobiliária envolvendo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Yahoo Notícias: O senhor citou uma antiga propriedade do ex-presidente em Minas Gerais e desse canavial de Botucatu. Qual o tamanho do patrimônio agrário de Fernando Henrique Cardoso?

Alceu Castilho: Essa propriedade em Minas Gerais foi vendida e o dinheiro em tese serviu para comprar esse canavial em Botucatu. Se compra as duas fazendas em Botucatu. Tudo indica que o patrimônio agrário de Fernando Henrique e seus filhos seja essa propriedade do interior paulista. No ano passado, o próprio Fernando Henrique comentou rapidamente que não era dono de nenhum empreendimento agrário e tinha passado tudo o que tinha para os seus filhos. E isso é verdade.

Ele só voltou a figurar como principal sócio da Goytacazes Participações em junho desse ano colocando R$ 3,2 milhões na empresa. Os dados estão na Junta Comercial do Estado de São Paulo. É um investimento peculiar. Quando tinha a fazenda em Minas a propriedade produzia gado. Ele chegou a vender touros no interior paulista durante seu mandato presidente. Em leilões promovidos por Jovelino Mineiro. E agora ele e os filhos se tornam sócios de um canavial inóspito em uma área em processo de desapropriação, mas também de valorização comandada por uma prefeitura tucana. Em uma área sob a gestão da Sabesp de um governo estadual que também é tucano.

Yahoo Notícias: Sobre essa desapropriação com valor de R$ 5. Houve algum tipo de recurso judicial da família do ex-presidente? É um valor muito simbólico...

Alceu Castilho:
Quem assinou o acordo foi a filha do FHC, Luciana Cardoso. O que aparece no cartório é essa compra por R$ 5. Não foi o que outros proprietários fizeram. A Central Bela Vista que já pertenceu ao Jovelino Mineiro também cedeu terras por um valor simbólico. Outros recorreram na Justiça. Entre esses que contestaram a desapropriação foi o braço agrário da companhia de bebidas Schincariol.

E aí acabaram perdendo essas terras na Justiça. A prefeitura consegue essas terras e cede para a Sabesp. O que é uma história curiosa... A Sabesp passa a gerir essa represa do Rio Pardo. Boa parte dessa área será de Área de Preservação Permanente. Nem todas as desapropriações foram amigáveis, mas a família do Fernando Henrique cedeu amigavelmente uma terra comprada por R$ 600 mil. Por que o Fernando Henrique é bonzinho? Não. Porque a propriedade remanescente será valorizada com irrigação e poderá ser fatiada para um empreendimento imobiliário. A empresa Goytacazes Participações passou a prever não só mais o cultivo de cana de açúcar, mas também aluguel, compra e loteamento de imóveis próprios. Então o que era uma empresa agropecuária agora também tem a prerrogativa de ser uma empresa imobiliária.

Yahoo Notícias: O senhor procurou o ex-presidente para saber a versão dele dessa história?

Alceu Castilho: Ele foi procurado no ano passado antes da sair a série de reportagens no “De Olho nos Ruralistas”. Ele não quis conceder entrevista. Preferiu escrever uma nota entregue a mim pelo Sérgio Fausto. O Sérgio Fausto é o superintendente-executivo da Fundação FHC. Quem deu entrevista em nome da fundação foi ele. Nela ele me passou a nota e algumas posições do FHC sobre o caso. O Fernando Henrique alegou na época que não era dono das terras –como eu disse em junho desse ano ele voltou a ser— e que ele não era proprietário do apartamento de Paris.

Esse apartamento de Paris é da família do Jovelino Mineiro. É da família do Roberto de Abreu Sodré que foi ex-governador biônico de São Paulo na época da Ditadura. O Jovelino Mineiro é casado com a filha dele, a Maria do Carmo de Abreu Sodré. Na nota ele insistiu que não era dono do apartamento de Paris. Essa foi a única manifestação do Fernando Henrique sobre o tema. Ele também disse que não tinha nenhuma relação empresarial com pecuaristas já que foi perguntado a ele qual seria a relação dele com o pecuarista Jovelino Mineiro e Jonas Barcellos. Ambos ligados a história do apartamento de Paris e da Miriam Dutra. Segundo a Mirian Dutra o Jovelino Mineiro era o operador do FHC e o Jonas Barcellos era quem pagava a mesada dela na Europa.

Yahoo Notícias: Fale mais sobre o personagem Jovelino Mineiro?

Alceu Castilho: Ele é o segundo personagem mais importante do livro. Ele é um pecuarista que é um dos expoentes da genética bovina no Brasil e é muito influente em organizações como a Sociedade Rural Brasileira. Instituição que fica no mesmo prédio da Fundação FHC. Então além de promover o jantar que originou o Instituto FHC hoje Fundação FHC, o Jovelino Mineiro também escolheu a sede da entidade.

É uma pessoa muito influente no circuito do poder político, mas particularmente influente com o próprio Fernando Henrique Cardoso. O Jovelino se tornou amigo do filho de FHC, Paulo Henrique Cardoso quando o ex-presidente dava aulas em Paris. O FHC é compadre do Jovelino. Um dos filhos do Jovelino é afilhado do Fernando Henrique Cardoso. Ele foi muito influente no governo FHC mesmo sem cargo nenhum. O livro se propõe a contar essas conexões do Jovelino Mineiro com o ex-presidente e o Emílio Odebrecht. O livro faz perguntas que ninguém respondeu.

Yahoo Notícias: O título do seu livro é direto ao tratar de uma suposta proteção ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Quem blinda FHC?]

Alceu Castilho: O título diz respeito a duas instituições, a justiça e a imprensa. Curiosamente o título foi bolado antes do “The Intercept” divulgar as conversas do escândalo que ficou conhecido como “Vaza Jato”. Entre essas conversas existe uma em que o então juiz Sérgio Moro dizia que não era bom investigar o Fernando Henrique Cardoso pois poderia melindrar um apoio importante.

E existe a blindagem da imprensa que embora a gente tenha publicado 27 reportagens sobre o tema no ano passado não se interessou por essa história. Se toda essa história aparecesse com o nome de outro ex-presidente, como o Lula, talvez a grande imprensa teria interesse? A mesma imprensa repercute tudo que acontece em relação ao sítio de Atibaia que é dezenas de vezes menor que a fazenda do FHC. Não estou dizendo que o sítio de Atibaia não seja assunto de imprensa porque é.

A questão é o fato de usarem dois pesos e duas medidas. A imprensa brasileira não se interessou em contar uma história sobre um dos ex-presidentes mais importantes da história do país. Que tem um amigo que é chamado pela ex-namorada desse presidente chama de seu operador... Deveríamos supor que um ex-presidente do mesmo tamanho do Lula deveria ter a mesma atenção da imprensa nesse caso.

O Fernando Henrique Cardoso e seus filhos têm um canavial em Botucatu. Isso é um fato. Não estou acusando ninguém de crime algum, mas essa história merece ser contada. Que cada um conte a história como convier, mas não contar me parece esquisito e contraditório.

Yahoo Notícias: Existiu algum tipo de movimento para judicializar o lançamento do livro?

Alceu Castilho: Não. Nenhum movimento desse tipo. Também não seria do feitio do ex-presidente Fernando Henrique. E creio que ele tenha bastante influência sobre os outros personagens citados. Não seria do comportamento dele tentar censurar algo. Até porque talvez na visão dele isso seria colaborar com a divulgação de um trabalho que ele prefere que seja escondido.