Entrevista: 'Brasil foi exposto a vexame sem necessidade', diz o bolsonarista Ratinho Júnior, governador do Paraná

Governador reeleito do Paraná, Ratinho Jr. (PSD) afirma que os atos de vandalismo nos prédios do Congresso, do Palácio Planalto e do Supremo Tribunal Federal (STF) foram promovidos por “bandidos” e que o episódio expôs o Brasil a um “vexame” desnecessário que fortaleceu o presidente Lula. Mesmo assim, saiu em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro e do governador afastado do DF, Ibaneis Rocha, que, segundo Ratinho Jr., não podem ser responsabilizados pela destruição das sedes dos três Poderes. O governador do Paraná diz que sua Polícia Militar é “apolítica” e que gostaria de dialogar com Lula, o que ainda não aconteceu.

O senhor foi um apoiador do ex-presidente Bolsonaro. Como avalia a situação do campo da direita após os atos de vandalismo em Brasília?

O que aconteceu foi muito triste. Todo aquele que faz qualquer tipo de vandalismo contra prédio público e que invade propriedade privada é bandido. É fora da lei. Não importa se é da esquerda ou direita. Isso não é democracia, é baderna. Logo que fiquei sabendo já me posicionei. Mas a população já se cansou dessas discussões. No Paraná, não estamos discutindo ideologia. Estamos discutindo metodologia e o que está dando certo no mundo para que a gente possa fazer aqui. Recentemente, passamos Santa Catarina como melhor índice de qualidade de vida. Além disso, não temos mais nenhum acampamento no estado. Conseguimos que as pessoas deixassem os locais sem usar a força e por meio do diálogo.

A esquerda costuma ser associada por políticos da direita a atos de vandalismo, mas agora a direita que os praticou. O senhor se sente representado por essa direita?

Temos que ver e esperar investigações para entender o conjunto do quebra-quebra. Então vai depender de toda essa investigação e se não houve conivência, se não deixaram acontecer para ter ganho político. Ambas as ideologias (de direita e de esquerda) têm casos de sucesso e de fracasso. O Brasil perdeu tempo ao longo dos últimos anos e décadas ficando nessa discussão ideológica. Isso fez com que o país não avançasse.

O senhor costuma se colocar à direita no debate político marcado pela polarização nacional. Agora sua fala parece sugerir uma guinada ao centro…

Defendo que o estado possa ser menor, então isso pode ser direita. Ao mesmo tempo, o meu governo tem os maiores programas sociais do Paraná. Isso dizem que é de esquerda. Sempre me pautei pelo que é eficiente. (...) Eu entendo também que todo esse momento que aconteceu no domingo serve de um recado para os atores políticos. É preciso que haja de certa forma uma reflexão de que chegou a hora de colocarmos a espada no chão e pegarmos a enxada para ir trabalhar.

Ministros do governo Lula acusam o ex-presidente Bolsonaro de estar envolvido nos atos golpistas e apontam conivência do governador afastado do DF, Ibaneis Rocha. O senhor mantém contato com Bolsonaro? Acredita na ligação dele com esses fatos?

Não tive mais contato com ele (Bolsonaro). Sou muito grato porque ele colaborou muito com as obras para o desenvolvimento do Paraná. Acho que teve um papel importante como presidente (...). É muito injusto querer atribuir a ele o quebra-quebra como se tivesse mandado. Como Bolsonaro vai ter culpa? Ele estava nos Estados Unidos. Não estava nem aqui no Brasil.

E o Ibaneis?

Eu não acredito que o Ibaneis possa ter planejado ou até mesmo ter sido conivente com qualquer tipo de manifestação ou de ato que aconteceu. O que cabe agora é analisar o conjunto dos fatos porque parece que a Abin tinha avisado outros órgãos como o Ministério da Justiça. Talvez ter afastado o governador eleito sem investigação tenha sido, sim, uma medida dura. Sempre vi no Ibaneis uma pessoa sensata.

E a polícia não está contaminada pelo bolsonarismo? No Paraná o então comandante-geral da PM, o coronel Hudson Leôncio Teixeira, admitiu em vídeo a um grupo pró-golpe que estaria “prevaricando” ao permitir o bloqueio parcial de uma rodovia. E o senhor o promoveu a secretário de Segurança Pública. Como responde a isso?

A nossa polícia é apolítica. E tem regime severo de punição. Ele como comandante da PM estava atendendo a recomendações minhas. Não chegamos dando paulada e cacetada. Construímos a solução e conversamos. E da mesma forma foi o que aconteceu. A imprensa queria que tirasse na borrachada, mas não foi necessário o uso da força.

Lula se fortalece após a reunião os atos golpistas?

Eu vejo que naturalmente o presidente acabou se fortalecendo. Essa manifestação acabou expondo o Brasil a um vexame que não tinha necessidade. O povo não gosta disso. Nesse aspecto, houve um crescimento político do presidente. Isso se ele conseguir construir essa união e mostrar que não é jogo de cena.

Como está a relação do Paraná com o governo federal? Já esteve com Lula?

Com Lula ainda não, mas quero dialogar. É hora de sair do palanque e buscar o melhor para o Brasil e para o Paraná. A eleição acabou. Tenho falado com alguns ministros do governo e com o vice-presidente Geraldo Alckmin.