Presidente do PDT fala sobre emprego, rebate Tabata Amaral e diz que Ciro é o candidato do partido em 2022

Renato Araújo/Agência Brasil

Por Rafa Santos (@rafasantors)

Ex-ministro do Trabalho no governo nos governos Lula e Dilma, o presidente do Partido Democrático Trabalhista (PDT), Carlos Lupi que imprimir ainda mais protagonismo a sua legenda.

Em entrevista ao Yahoo Notícias ele criticou duramente a política de emprego do governo Bolsonaro e defendeu um projeto desenvolvimentista de nação. Lupi também falou sobre a situação da deputada Tabata Amaral que entrou na justiça para deixar o partido sem perde o mandato e também já sinalizou que deseja que Ciro Gomes seja novamente candidato à presidência em 2022.

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Yahoo Notícias: Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de setembro apontam que a taxa de desemprego no Brasil é de 11,8%. O número de desalentados é gigantesco e a renda média está caindo. O senhor foi ministro do Trabalho. Como avalia a política de emprego do governo Bolsonaro?

Carlos Lupi: Eu só posso avaliar a política do desemprego. Porque política do emprego não existe no Brasil hoje. Não precisa ser um economista renomado e nem ter muita inteligência na área econômica para se entender que a geração do emprego parte do princípio básico que é a renda. Se você não tem emprego e nem projeto de crescimento não se tem renda. Sem renda o dinheiro não circula e sem o dinheiro circulando você não tem como fazer a economia melhorar. Não existe no Brasil hoje um projeto de desenvolvimento com começo meio e fim. Que aponte os rumos que o Brasil deve tomar. Um projeto de tecnologia de ponta. Atualmente estamos destruindo a indústria aeronáutica brasileira ao vender a Embraer. Em um momento em que todo mundo quer ter tecnologia de ponta. Um país pequeno como a Coréia só conseguiu enriquecer com tecnologia de ponta com investimentos maciços nessa área. E o Brasil está cortando esses investimentos. Quando se diminuiu o salário você diminui o dinheiro em circulação. E menor volume de dinheiro circulando significa menos capacidade de crescimento e menos emprego. A política que se tem hoje é a do arrocho. O que estão fazendo com a Reforma da Previdência é criminoso. Você vê hoje uma pensionista que ganha um salário mínimo. Se o seu parceiro morre. Ela pode perder 40% da renda do seu parceiro. Está se tirando dinheiro da base da pirâmide que precisa comprar e colocar dinheiro no mercado. Tudo isso acarreta nesse recorde de desemprego que o Brasil tem hoje.

Yahoo Notícias: Vemos nas grandes cidades brasileiras milhares de pessoas se submetendo a trabalho precarizado. Qual a proposta do PDT para combater esse movimento que é mundial?

Carlos Lupi: Primeiro temos que conceber um projeto nacional de desenvolvimento. Temos que ler a realidade como Getúlio Vargas fez na década de 1930. Nessa época o Brasil era basicamente São Paulo e Minas Gerais. A política do café com leite. São Paulo produzindo café e Minas com a maior bacia leiteira do país. Getúlio começou a conceber um projeto nacional desenvolvimentista enxergando o Brasil como uma federação. Criando a indústria automobilística. Fundando a Petrobrás. Ajudando a desenvolver o potencial de cada estado. Não temos algo fundamental para uma nação é que ter um plano a longo prazo. Se fala de Uber, por exemplo, você vê médicos, advogados, engenheiros trabalhando com Uber para você sobreviver. Todos pagam taxa para um grupo norte-americano que é o dono da marca. A que ponto chegamos! Eu tenho o meu carro. Uso ele para trabalhar e pago uma taxa para a dona da marca Uber. Por que não desenvolvemos as nossas potencialidades regionais? O país está dominado. Não estamos querendo avançar no caminho de ser um país que queira crescer obedecendo a sua vocação. Hoje nós somos o maior produtor de carne do mundo. Somos os maiores produtores de soja. Somos os maiores produtores de café. Somos autossuficientes em petróleo. Temos 20% da água potável do mundo. Nós temos uma riqueza biológica e um potencial absurdo. Estamos parados vendo o mundo crescer e achando que a grande solução do Brasil é continuar produtos alimentícios. Esse setor é importante, mas é fundamental desenvolver nossa indústria. Não temos mais uma fábrica de aviões. Uma fábrica de automóveis. Falta ao Brasil um projeto de nação. É tudo muito macro. É isso que queremos discutir. Não adianta discutir o desemprego e a realidade que faz um médico, um engenheiro ou um advogado dirigir um Uber. É evidente que isso não é demérito para ninguém, mas precisamos discutir a realidade que faz com que essas pessoas não consigam exercer a profissão para qual estudaram.

Yahoo Notícias: A Reforma da Previdência tem relativamente apoio popular. O senhor acredita que o povo foi enganado?

Carlos Lupi: Existe a máxima que uma mentira contada mil vezes se torna verdade. A campanha que fazem da exigência da Reforma da Previdência faz com que o pobre trabalhador acreditar que isso vai ser bom para ele. Ele só vai entender que não é bom quando ele ver o seu salário diminuir. Isso que estamos fazendo hoje é raro. É uma oportunidade única de mostrar uma opinião diferente nesse debate. Todas as rádios, todos os jornais, todos as televisões só repetem uma opinião única. Que é a opinião do sistema financeira que é quem manda no Brasil. Se você enxergar só um pouquinho além do que alcança a nossa vista vai entender que eles querem a Reforma da Previdência para priorizar fundos privados e ficar com os recursos. E o sistema financeira nunca está satisfeito. Você vê que o brasileiro paga 300% de juros no cartão de crédito. Falta a gente esclarecer. De termos uma democracia que priorize o debate. Você não sabe como fico feliz de ter oportunidade de falar sobre isso. De dar minha opinião. Alguns podem gostar. Outros não. Mas, tendo espaço e liberdade de dizer o que eu penso.

Yahoo Notícias: A reforma da previdência foi aprovada. Que efeitos ela trará a médio e longo prazo?

Carlos Lupi: A mãe de todas as reformas é a fiscal e financeira. Temos de encarar um novo desafio no Brasil que é novamente encarar o país como uma República Federativa. Hoje as grandes arrecadações ficam concentradas no Governo Federal. A maioria dos governadores e prefeitos fica com o pires na mão pedindo moedinha para garantir a sobrevivência dos seus estados e municípios. A mãe de todas reformas é a fiscal, financeira e tributária. Por que não se tem, por exemplo, imposto sobre as grandes fortunas? Por que não se cobra impostos dos lucros dos grandes grupos financeiros? Por que temos um cartel de cinco bancos? As vezes em apenas um estado dos Estados Unidos temos cinquenta bancos. Como uma federação do tamanho do Brasil tem um cartel de cinco bancos? Não se cobra nada do lucro deles. Não se cobra nada do lucro deles. E aí quem tem que fazer sacrifícios é quem ganha R$ 3 mil. Não existe um artigo da Reforma da Previdência que toque nos rendimentos dos marajás do Poder Judiciário. Quando eu falo isso eu sei que eu estou fazendo inimigos poderosos. O Poder Judiciário é uma casta. Ninguém toca nos salários dos grandes tribunais. Ninguém toca no dinheiro dos feudos das empresas públicas com servidores com altos salários. E olha que eu sou um defensor da empresa pública... E o sacrifício fica com quem ganha R$ 3 mil na Previdência. Eu quero que a sociedade entenda. Isso pode até demorar, mas a sociedade vai entender quando ver esses efeitos no próprio bolso.

Yahoo Notícias: O partido decidiu encerrar a punição aos dissidentes que votaram a favor da Reforma da Previdência. Passado algum tempo do episódio. Que leitura o senhor faz desse caso?

Carlos Lupi: Não decidimos encerrar as punições. Todas as punições seguiram o estatuto partidário que diz que essas suspensões duram 90 dias. Esse prazo se completou no dia 14 de outubro. O que fizemos foi encaminhar o relatório da comissão de ética para o diretório nacional que irá definir quais são as punições. Agora o grande debate que temos que fazer como sociedade é sobre para que servem os partidos. Será que esses parlamentares que votaram contra o trabalhador não leram o programa do partido? Como um trabalhista pode votar contra alguém que ganha R$ 3 mil por mês na Previdência? Essa é a pergunta que devemos fazer. Que a nossa história é a de defesa do trabalhador? As pessoas se escamoteiam, mas o partido fez uma convenção nacional com 550 membros e o voto contra a Reforma da Previdência foi definido por aclamação. Com o voto deles. Daí tiraram uns penduricalhos para dizer que essa reforma é diferente. A reforma é a mesma! É sempre contra o pequeno. Para mim esses parlamentares que tomaram essa decisão estão indo para direita. Votaram com o Bolsonaro que é a antítese de tudo que nós queremos para o Brasil.

Yahoo Notícias: Qual a sua opinião sobre movimentos que atuam a margem dos partidos como o Acredito?

Carlos Lupi: O caso está na Justiça Eleitoral. Nós e muitos partidos temos questionamentos sobre esses grupos. Eles servem basicamente para dar apoio financeiro a algumas candidaturas é um abuso. Uma fraude a Lei Eleitoral. Porque a legislação veda o apoio financeiro privado. Ela aceita ou dinheiro do Fundo Eleitoral ou contribuições de pessoas físicas. Daí você pega 10, 20, 40 pessoas bem abastadas que se cotizam e patrocinam as candidaturas de seu interesse. Esse candidato é eleito e vai defender os interesses do partido que não tem a grana dessa gente ou quem deu a grana para ele se eleger? Essa é a discussão que eu quero travar e o tribunal vai definir sobre o recurso que apresentamos.

Yahoo Notícias: Ao rebater as queixas da deputada federal Tabata Amaral, o senhor disse que ela defendia uma “democracia de conveniência”. O senhor pode explicar melhor esse conceito?

Carlos Lupi: Sabe o que eu chamo de “democracia de conveniência”? É aquilo de todo mundo ser democrata desde que seja a sua vontade que esteja prevalecendo. Como alguém pode participar de reuniões para discutir a Reforma da Previdência. De participar de uma convenção nacional. De participar de mais dez reuniões... Isso está publicado. Está na internet... Eles agora pediram o direito de sair sem perder o mandato e vamos esperar o julgamento da Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A democracia deles é fazer as coisas só como eles querem. Democracia é participar da reunião. Discutir e respeitar a vontade da maioria. Eu não gosto do Bolsonaro, mas ele foi eleito pela maioria da população e eu tenho que aceitar isso. Isso é democracia. Respeitar a vontade da maioria. Democracia de conveniência é dizer que respeita, mas só seguir a sua vontade.

Yahoo Notícias: Como o partido enxerga o voto da senadora Katia Abreu pela Reforma da Previdência? Qual a diferença do voto dela para o da deputada Tabata Amaral?

Carlos Lupi: Vou responder com toda sinceridade. A senadora Katia Abreu não participou das discussões. Ela não foi eleita pelo PDT. Ela veio com o mandato dela para o PDT. Outro ponto é que cargos majoritários como senadores, governadores e prefeitos não tem vinculação de compromisso de perda de mandato. Isso quer dizer que pessoas que ocupam esses cargos podem sair dos partidos sem perder o mandato. Eles não têm a legislação vinculante da fidelidade partidária e de obedecer a vontade da maioria. O voto da senadora Katia Abreu será discutido, mas é diferente. É diferente por esses dois pontos que eu expliquei.

Yahoo Notícias: Se ventilou na imprensa que o partido estava cogitando a Tabata Amaral para a corrida eleitoral pela prefeitura de São Paulo. É verdade?

Carlos Lupi: Tínhamos muita esperança na deputada. Nós achávamos que pela sua origem. Pela sua natureza... Por ela ter escolhido a bandeira da educação que é tão importante para o PDT... Esperávamos que ela pudesse entender o que era o trabalhismo e o futuro do trabalhismo. Infelizmente ela não assimilou isso. Erramos na avaliação e ela seguirá o seu caminha e a gente o nosso.

Yahoo Notícias: Como o senhor enxerga a troca de farpas públicas entre o ex-presidente Lula e o candidato do PDT à presidência Ciro Gomes?

Carlos Lupi: Cada um de nós tem uma característica. O Ciro foi muito maltratado pelo PT no último processo eleitoral. Vimos o PT agir de uma forma muito desleal ao manipular o PSB para tirar da gente... Manipular o PC do B quando tudo estava caminhado bem. Ao não enxergar que o Ciro era disparado o candidato mais preparado e o favorito a vencer o Bolsonaro no segundo turno e isso deixa sequelas. Nós apoiamos os governos do PT e nunca tivemos reciprocidade. Cada um tem uma maneira de falar e de agir. Eu tenho o meu jeito e o Ciro tem o jeito dele. Mas, o Ciro é um homem profundamente preparado. Experiente e com uma visão generosa e projeto de nação. E por isso estamos preparando-o para o próximo ciclo eleitoral. Nós queremos apresentar uma opção para o Brasil. Sou amigo pessoal do Lula. O considero um irmão. Mas, o PT já teve sua chance. Ficou 16 anos no poder com alguns avanços, mas não enfrentou o câncer da sociedade moderna que é o sistema financeiro. E queremos enfrentar o sistema financeiro, taxar os grandes grupos e enfrentar o que consideramos o câncer da sociedade moderna. Queremos enfrentar a visão de ganhar por ganhar explorando a mão de obra em favor sempre do mercado especulativo.