Entrevista: 'comando não é ficar berrando com os outros', diz Spindel sobre cobranças no Flamengo

Diretor de futebol do Flamengo, Bruno Spindel respondeu a perguntas que todo torcedor fez ou ainda tem feito em meio a uma temporada que não começou nada bem para o clube, mas que agora dá sinais de recuperação. O executivo abriu o jogo sobre o trabalho junto aos jogadores no dia a dia para a obtenção de resultados, a renovação do elenco, e também da relação com agentes do mercado.

Como foi passar pelas cobranças recentes no departamento de futebol?

Temos consciência da cobrança, ela é devida, justa, até determinado limite. Não pode passar pela integridade física. A gente ouve tudo, e tem coisas que são boas críticas. Outras não tem fundamento. Se a gente não ouvir crítica, não for cobrado... Às vezes pode ter outro caminho melhor, alguma coisa que a gente não viu. A gente é ser humano. Tem coisas internas, estratégicas, que não pode expor. As pessoas falam que a gente não está fazendo, a gente faz, mas não pode expor.

Se refere às informações de que você como executivo não exerce esse papel de comando?

Para mim, comando não é ficar berrando com os outros. Comando é dar resultado, fazer o trabalho com paixão, amor, fazer direito. Todos os atletas são profissionais, fazem o trabalho com paixão, às vezes o resultado não vem. As pessoas confundem o resultado não vir com falta de comando. Não é. Não tem ocorrência de indisciplina. São raríssimas. As que tiveram foram públicas. Gabi, Isla, Leo, Michael, em três anos e tanto. Isso é comando. Dar respaldo ao treinador, fazer os processos funcionarem, saber o que é função de cada um, cobrar que todos executem sua função, não eu ir lá e fazer a função do outro. Ir lá no médico e dizer o que o cara tem, ou dar um berro com o médico. Dentro de gestão, quando os resultados desviam do que é o normal, tem que ir lá entender o que está acontecendo.

Como é sua relação com os jogadores?

Tenho relação boa com vários jogadores. Mas tenho que respeitar o espaço deles. Tem momentos de confraternização de todos. Sou diretor do clube, eles precisam ter liberdade de falar o que eles quiserem entre eles. Mas tenho amizade com alguns.

Como vocês construiu a relação com o Marcos Braz, que é do futebol há anos?

A gente se conhecia de cumprimentar, não era amigo dele, não tinha trabalhado com ele. Desenvolvemos relação de respeito, admiração e confiança mútua, um dos motivos para a gente realizar o que já realizou.

E com o presidente Rodolfo Landim?

Tenho gratidão pelo presidente também. Em 2019 ele me falou: "se eu quiser te colocar como executivo do futebol, você topa?". Eu disse: "Claro". O Landim é um cara muito firme, muito seguro nas decisões, analisa sempre até o último detalhe para tomar a melhor decisão. E dá uma confiança enorme para o nosso trabalho. Toma as decisões de forma muito técnica, com frieza, pensa em tudo, para que seja bem avaliado, e haja segurança e certeza no melhor para o Flamengo. Marcos e eu também desenvolvemos relação boa para analisar tudo, e encaminhar para o presidente, e tem todo um corpo profissional no futebol, que é enorme e tem que funcionar muito bem.

É possível repetir 2019 com a reformulação em curso?

A gente vai buscar sempre os melhores resultados. E esse nível de excelência. A pandemia dificultou. O Banco Central atrasou (dívida que ameaçou penhorar quase R$ 150 milhões). Agora estamos correndo contra o tempo. A gente parou completamente. Quando houve uma vitória no processo, teve negociação menor, aí quando ganhou de vez, trouxemos o Cebolinha. Somos gratos a ele também por escolher o Flamengo. No fim das contas, o negócio tem três partes e tem que ser bom para todos. O atleta tem peso na negociação de escolher para onde ele vai. Se o Flamengo agrada a ele, o clube flexibiliza algumas questões. Por isso que demora. Não pode cometer um erro com ninguém.

Concorda com a ideia de que o elenco está envelhecido?

Só ver o que a gente fez. Não tem essa questão da idade. Tem a qualidade. O desejo do atleta. O que é possível para o Flamengo. Gerson, Pedro, Gabi, todos vieram novos, Bruno Henrique e Rodrigo Caio um pouco mais, Rafinha e Filipe ainda mais velhos. É caso a caso. A gente vai tentar algo que a gente julgue que é possível dentro da realidade. Às vezes o cara quer ficar na Europa, às vezes vê o Flamengo com bons olhos. Depende muito do jogador. E tem a forma como a gente se posiciona com os agentes e os clubes. Quando o cara escolhe vir para cá, o Flamengo hoje está inserido no mundo do futebol como os grandes clubes europeus. É um patamar que o clube mudou. Não quer dizer que escolher vir para o Flamengo ele fechou as portas na Europa. Gabi veio, se quisesse teria voltado, Pedro também, vários outros, Rodrigo Caio quase voltou no meio de 2020, Filipe Luís também.

Esse patamar passa também pela relação com grandes agentes, como Giuliano Bertolucci, que é visto como parceiro da gestão?

O Flamengo tem mais de 30 agentes diferentes que representam atletas. É bem pulverizado. Em algumas situações, com o tempo, da mesma forma que o clube constrói credibilidade, o agente também constrói com o clube. Combinou um negócio e cumpre. Às vezes o agente pode usar o Flamengo para tirar vantagem. Tem parceiros do clube que você sabe que não vão fazer isso. Aí é óbvio que tem uma relação com o clube. Se for por esse caminho tem que tomar cuidado, porque tem risco maior, o clube ser usado. Por aqui, o que está sendo dito vai ser cumprido. O clube é o parceiro de primeira hora, as coisas têm uma segurança maior. Vai construindo relação, confiança. Jogadores que são globais, o próprio empresário precisa de parceiros. Não consegue fazer todos os países. Jogadores de determinado tamanho precisam de bons acessos. Também temos boa relação com intermediários. No caso do Vidal, o desejo dele foi muito importante. "Eu quero, eu quero, eu quero o Flamengo. Não quero saber". Foi campeão por onde passou. Vai ajudar muito.

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