Entrevista: ‘A esquerda precisa investir em lideranças evangélicas’, diz pesquisador da Unicamp

Coordenador do Laboratório de Antropologia da Religião da Unicamp e pesquisador do Cebrap, Ronaldo de Almeida, que acaba de voltar de um período como professor visitante na Universidade de Berkeley, nos EUA, tem conversado com teólogos e fiéis evangélicos após as eleições. E detectado o incômodo nas igrejas com a distinção radical feita por lideranças entre o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL). “As eleições foram apresentadas como uma batalha espiritual, o bem contra o mal. O mal ganhou, mas, por outro lado, nesta mesma narrativa, a autoridade é escolhida por Deus. Como explicar agora a demonização, as mentiras? Meus parentes crentes, de periferia, estão envergonhados. Venho de uma tradição evangélica, sou estudioso dela, não se pode, por exemplo, criar um Jesus armamentista com base na Bíblia, mas isso foi feito impunemente”.

Organizador do livro “Conservadorismos, fascismos e fundamentalismos: análises conjunturais”, ele defende ser preciso tratar da consolidação do bolsonarismo no universo evangélico como um movimento conservador identitário, que seguirá forte mesmo com a derrota de Bolsonaro. Mas também aponta caminhos para a esquerda na difícil disputa pelo voto evangélico: formar lideranças e levá-las para o novo governo e, ao mesmo tempo, investir mais na leitura social das Escrituras: “o evangélico é, em sua maioria, das classes mais baixas, há um caminho”.

O senhor diz que, após as eleições, em vez de ‘religião na política’ devemos falar de ‘religião como política’ ao tratar do voto evangélico. Qual a diferença?

A diferença é sutil e a mistura sempre ocorreu, mas fazer religião se traduziu de vez em fazer política. Nos templos, foram feitos jejuns, rituais, mobilizações coletivas, culto-comícios. As eleições foram apresentadas como uma batalha espiritual do “bem contra o mal”. O “mal” ganhou, mas, por outro lado, nesta mesma narrativa, a autoridade é escolhida por Deus. Como explicar agora a demonização, as mentiras? Uma das saídas pode ser a de apresentar a vitória de Lula como uma espécie de provação aos fiéis, mas o que não virá é um arrependimento público pelo sinal que as lideranças evangélicas atravessaram. Tenho conversado com teólogos e o efeito do veneno do bolsonarismo nas igrejas é enorme. Meus parentes crentes, de periferia, estão envergonhados. Venho de uma tradição evangélica, sou estudioso dela, não se pode, por exemplo, criar um Jesus armamentista com base na Bíblia. Mas isso foi feito impunemente.

A interpretação passou por Cristo usando o chicote contra os vendilhões do templo...

A Bíblia foi deliberadamente maltratada, e digo isso dentro da própria tradição evangélica. A associação de Jesus com armas é presente no universo cristão nos Estados Unidos, mas era alienígena aqui. Isso foi introduzido na doutrina evangélica no Brasil nos últimos quatro anos, exemplo de um efeito direto, e duradouro, do bolsonarismo na religião.

Há um paralelo entre o voto evangélico no Brasil e nos EUA com a defesa de um nacionalismo cristão?

Sim, e os vínculos com os EUA são históricos e profundos. Os seminários evangélicos brasileiros, a formação teológica, vem toda de lá. Lá, como cá, se apropriou da pauta de costumes, especialmente de temas que dividem o eleitorado, para galvanizar esse eleitor. Precisamos tratar a discussão do voto evangélico no universo da ideologia, de pauta identitária. E esta aposta vitoriosa pela divisão está sendo sentida internamente, é uma das grandes questões para os evangélicos no futuro imediato.

De que modo?

Será que a associação ao bolsonarismo não foi longe demais? Caracterizar uma eleição como guerra santa? Classificar irmãos com quem se conviveu por décadas como “falsos cristãos” por votar em Lula? Internamente, esse processo está sendo muito duro. Há um campo evangélico de esquerda, ainda que minoritário, profundamente ofendido. Como as igrejas irão se recompor? A fissura interna, que começou em 2016 com o impeachment da (presidente) Dilma (Rousseff) e aumentou com o processo de idolatria de Bolsonaro em 2018, incluindo o episódio do atentado em Juiz de Fora, foi legitimada nestas eleições pelas lideranças evangélicas. Ele foi apresentado pelas lideranças como alguém sacro, infalível.

Bolsonaro teve o desgaste de quatro anos de governo com uma pandemia no meio. Por que isso não se refletiu no voto evangélico?

De fato, o voto evangélico a Bolsonaro é praticamente igual se compararmos as intenções a três dias dos pleitos de 2018 e 2022. Eu me surpreendi, achei que a memória governo Lula, especialmente para os mais pobres, e as barbaridades do Bolsonaro na pandemia seriam problemas para ele com os evangélicos. Mas a capacidade de captura do voto evangélico pela direita religiosa funcionou muito bem, e não foi só ir a igrejas.

Como assim?

Bolsonaro percorreu convenções evangélicas no Brasil inteiro, em cada uma delas apertando a mão de pelo menos 500 pastores, isso fez uma enorme diferença. E ele fez arranjos burocráticos importantes, proporcionou uma experiência conjunta de gestão, de forma inédita, com protagonismo da direita religiosa da Comunicação às Relações Exteriores, da Justiça à Cidadania e a Educação. A face política de Messias Bolsonaro uniu os Gandra aos Malafaia, o protestantismo racional ao neopentecostalismo. O bolsonarismo não se limitou a traçar um ambicioso plano eleitoral, mas de gestão também. A direita religiosa está organizada politicamente. Além da crença, do senso de comunidade cristã, ela é percebida na identidade política, que foi exercida de forma prática — com discursos oficiais, propostas de leis, indicações consequentes a cargos-chave — em Brasília. O patamar, hoje, é outro.

Mas este patamar não muda com a derrota de Bolsonaro?

Um dos maiores significados da derrota nas urnas de Bolsonaro, inclusive e especialmente para os evangélicos, é que sua vitória legitimaria o discurso místico do bem contra o mal. Mas ele recebeu mais de 58 milhões de votos para a presidência e o bolsonarismo não recuou nas eleições. Ele sai forte do Planalto, com novas peças desta direita no comando de governos importantes, como São Paulo, além do avanço nas duas casas do Congresso.

Qual o papel da primeira-dama Michelle Bolsonaro no futuro da relação do bolsonarismo com o voto evangélico?

Ela mostrou nestas eleições um desempenho absurdo, em termos de fidelização do voto, focando no que era incômodo para o marido, repetindo que “o vocabulário do presidente pode ser chulo, mas ele faz a vontade de Deus”, algo que cabe na cosmologia bíblica. Ela trabalhou bem as representações, os imaginários, é natural nela, não apenas cálculo político. A primeira-dama se tornou um contraponto importante e deve seguir a parceria com a agora senadora eleita Damares Alves. A imagem da mulher bonita, educada, e crente, desperta admiração e desejo.

O senhor vê possibilidade de aproximação de Lula com os evangélicos?

Já se nota um certo pragmatismo de algumas lideranças. A declaração de voto do (pastor) Edir Macedo, por exemplo, ao falar da importância de se olhar para o passado, de que a consciência pode pesar, cabe em qualquer candidato e é atemporal. Não duvido que o Republicanos (onde está a maioria dos pastores da Igreja Universal do Reino de Deus) entre logo na base de Lula. Se o (pastor Silas) Malafaia (da Assembleia de Deus) é Darth Vader, o Macedo é o Imperador (em uma referência à franquia “Star wars”). Agora, cabe aos evangélicos de esquerda tratar de religião também.

Mas é possível disputar o voto evangélico com o bolsonarismo?

O bolsonarismo está muito consolidado e energizado. E a esquerda no campo evangélico ainda é muito limitada. Hoje o evangélico progressista é duplamente marginalizado, nos partidos e nas igrejas. Talvez o caminho seja investir em mais lideranças, como os pastores Henrique Vieira e Ariovaldo Ramos, mas há outros, que consigam fazer a conjugação entre mística e militância, com gospel, batismo do Espírito Santo. Seja o de dar protagonismo a estas pessoas no novo governo, não se limitar às eleições. Contra a tática da exposição do antagônico também pode funcionar o discurso conciliatório do lulismo, que ultrapassa os limites do petismo. O lulismo dialoga com uma tradição de fundo cristã brasileira, presente naquele vídeo da campanha dele inspirado na Oração de São Francisco de Assis. Pode-se ler o Evangelho pela ótica da pobreza, da periferia. Mas não será uma tarefa simples. A campanha de Lula foi responsável ao não incitar este antagonismo, mas ele implicou em perdas eleitorais.