Entrevista exclusiva: novo secretário da PM diz que Rio receberá 30 blindados e promete mais treinamento para policiais

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Na tarde do último domingo, o coronel Luiz Henrique Marinho Pires, de 50 anos, foi surpreendido com um telefonema do governador Cláudio Castro pedindo que ele comparecesse de imediato ao Palácio Guanabara. Mas surpresa mesmo ele teve quando recebeu, de cara, o convite para ser secretário de Estado da Polícia Militar. Saiu de lá já nomeado para o comando da pasta. Embora só tome posse nesta sexta-feira, quando colocará sua farda novamente depois de dois anos afastado, o coronel Henrique já está a pleno vapor no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), na Cidade Nova. Será de lá que pretende controlar o estado, mas também vai despachar do tradicional Quartel General da PM, na Rua Evaristo da Veiga, no Centro. Entre as medidas que pretende adotar estão o uso das câmeras nos uniformes dos policiais no Réveillon, a reformulação do projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e o planejamento de um estudo sobre a saúde mental da tropa.

O senhor tinha entrado na reserva recentemente. O que o fez voltar para assumir o comando da PM?

Minha ligação com a PM nunca parou nestes último dois anos. Eu nunca me afastei das minhas atividades de planejamento operacional. Saí em março de 2019 da polícia, mas fui convidado para trabalhar nos seis meses de intervenção do BRT. De lá, assumi o cargo de subsecretário de Ordem Pública nos governos do Marcelo Crivella e do Eduardo Paes. Agora estou aqui. Está na minha natureza servir.

O senhor pretende comandar o policiamento do CICC? Será tipo um gabinete itinerante?

Eu vou querer uma base aqui, porque aqui é o centro de tudo. Pelo serviço 190 você detém as informações. Gosto muito deste lugar. Tem que potencializar esse serviço essencial. É importante estar do lado de quem aciona a viatura para prestar o socorro. Esse pessoal precisa ter orientação e ser valorizado. É o coração do atendimento ao público. Já passei várias experiências interessantes aqui. Teve uma vez que assumi o mesão do centro de operações, quando houve uma grande invasão aos bairros do Rio Comprido e da Tijuca. Não me lembro o ano. Eu vim para cá num sábado e fui comandando o policiamento. Eu deslocava as viaturas, mandava cobrir aqui e acolá. Eu era subchefe operacional.

Já existe algum planejamento em andamento?

Na sala ao lado, estamos reunidos para planejar a Operação Verão deste fim de semana. Não podem acontecer cenas como as que vimos no sábado e domingo passados em Copacabana (depredação nos ônibus na volta da praia). Vamos voltar a intensificar a fiscalização antes do verão chegar.

Qual o seu principal desafio à frente do comando?

Manter os índices de violência reduzidos é um grande desafio. Temos uma meta traçada. São números que o governo do estado tem mantido num padrão bom. Isso tem sido cada vez mais desafiador. Não basta só manter. Temos que diminuir, melhorar ainda mais. Outro desafio é melhorar o bem-estar do policial militar. Será uma grande batalha, melhorar as condições de trabalho, de saúde e de treinamento.

O que o senhor pretende fazer neste sentido?

Tem uma questão que me preocupa muito: a saúde mental da minha tropa. O policial militar precisa de um suporte psicológico constante. Temos muitos policiais que estão se matando. Passou a ser uma tendência. É preciso evitar isso. A ideia é produzir um estudo com a área de saúde e tentar fazer algo para reverter este quadro. Tratar a cabeça do meu policial passou a ser uma meta. Temos que ter psicólogos em todos os batalhões. É uma necessidade da tropa. Quando fizemos isso no 41º BPM (Irajá) — unidade cujos indicadores de violência, como autos de resistência, sempre tiveram patamares elevados — foi fundamental.

O projeto das UPPs, classificado como o principal exemplo de política de segurança pública do estado, fracassou de vez?

Teremos que analisar o atual cenário. Não dá para dizer se vamos reduzir ou aumentar. A primeira medida será fazer um diagnóstico de cada unidade de polícia pacificadora. A gente vai voltar a esse processo com planejamento.

Como será a sua política de aproximação dos moradores?

A Polícia Militar, por sua natureza, já tem essa questão da proximidade em sua essência. Os projetos que estão sendo desenvolvidos pela corporação serão mantidos. Vamos avaliar cada caso e, se possível aperfeiçoá-los. O policial tem que conhecer a comunidade em que ele atua. Isso começou com as radiopatrulhas (RPs) e o policiamento de trânsito. Quero que as pessoas percebam a presença do policial na sua rua.

A Casa Civil vem adquirindo cerca de 22 mil câmeras para instalar nos uniformes dos policiais. Já existe uma previsão de quando isso ocorrerá?

A previsão é de que o policial já esteja equipado com as câmeras no Réveillon. Inicialmente, serão 15 mil para a PM. Sou um entusiasta nessa questão. Essa ferramenta, muito bem empregada, dentro de um planejamento adequado, será muito produtiva. Será bom para o policial e para a sociedade. O pregão eletrônico está previsto para o dia 9 de setembro. Finalizando a contratação, haverá 90 dias para a entrega. Será uma implantação por fases. Vamos analisar quem serão os policiais que vão ser equipados primeiro. A ideia inicial será implantar nos setores de RP, mas ainda vou discutir isso com a minha equipe.

A Polícia Militar também está adquirindo blindados. Quantos são?

Receberemos 30 blindados novos e adaptados para o nosso dia a dia. É um equipamento importante para a proteção da tropa. Os blindados serão equipados com câmeras de vigilância.

A PM vai seguir as recomendações restritivas do ministro do STF Edson Fachin, que determina a comunicação ao Ministério Público, fundamentando o motivo da ação policial nas favelas?

Decisão da Justiça a gente cumpre. Não tem o que questionar. Em relação às operações, vamos entender como estava funcionando até então. Vamos atuar com segurança para todos. Temos que minimizar os impactos das operações para a população. Faremos análises muito minuciosas, sempre seguindo um planejamento com inteligência.

Mas o que temos visto são tiroteios que surgem do nada, sem um confronto aparente, matando inocentes. Entre as vítimas mais recentes estão a jovem Kathlen Romeu, grávida de quatro meses, baleada em junho no Morro São João e, no último domingo, o adolescente João Vitor Santiago, de 17 anos, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Como evitar isso?

Não tenho informações detalhadas sobre esses casos. O que posso adiantar é que vamos estudar como cada situação dessa ocorreu. São casos que merecem a nossa atenção especial.

Não haveria despreparo do policial militar?

Foi bom ter tocado nesse assunto. Vamos intensificar o treinamento da tropa. Essa é a meta. Eu tenho uma ideia de colocar os policiais num estágio de aplicação tática. Eles farão uma imersão nos nossos centros de instrução para rever as técnicas. Iremos tirá-los das suas unidades por pelo menos uma semana. Quero retomar o treinamento, melhorar a capacidade deles. Temos o nosso estande de tiro virtual, nosso Centro de Instrução Especializada e Pesquisa Policial. As ferramentas vão ser amplamente utilizadas na minha gestão. A ideia é resgatar esse treinamento especializado.

Por ser uma tropa com cerca de 46 mil policiais, há muitos casos de desvios de conduta. Qual o seu plano para fortalecer a corregedoria da corporação? Temos o caso do sargento reformado Ronnie Lessa, acusado de matar a vereadora Marielle Franco que, até hoje continua na PM. Por que ele não foi excluído dos quadros da corporação?

Corregedoria é uma área sensível. Não tenho como falar sobre os casos específicos. Quero uma corregedoria moderna, proativa e integrada aos demais órgãos. Temos uma ideia de que ela deve ser sempre repressiva, mas o que eu quero é que a corregedoria detecte o problema antes que ele ocorra. Também é preciso que ela se integre aos demais órgãos como o Poder Judiciário e o Ministério Público. Não se pode jogar nos ombros do corregedor essa responsabilidade. O trabalho de correição tem que começar nos batalhões. Tem que ser dividido com quem comanda a tropa, os oficiais da unidade.

O senhor vai cobrar isso? Vai visitar os batalhões?

Hoje eu amanheci no 18º BPM (Jacarepaguá). É uma área que me interessa muito. Foi uma visita cordial, saber como foi a madrugada por lá. Foi um bate-papo com o oficial de serviço.

Por que começar pelo batalhão de Jacarepaguá, principal área de domínio das milícias? E a guerra na Praça Seca?

Eu nasci e fui criado em Jacarepaguá. É uma região sensível. Quero acompanhar de perto. Cessar os conflitos na Praça Seca é uma meta do nosso governador. Ele já falou sobre isso em entrevistas.

Qual é a sua avaliação da tropa?

Quero que os comandantes sejam participativos e mais próximos dos policiais. Resgatar o orgulho. Incentivar isso. Ver os comandantes nas ruas com sua tropa. A minha presença em determinados locais é para cobrar isso e será constante. Estar à frente de um batalhão é muito mais que um ato de comandar, e um ato de apoiar, estimular quem ali com ele no terreno.

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