Entrevista: fundador do Koo conta como notou brasileiros e rumos da plataforma

Após fechamentos de escritórios e desligamentos de milhares de funcionários do Twitter, especialistas e internautas passaram a cogitar a morte da plataforma deste a última quinta-feira. O assunto virou um dos mais comentados na própria plataforma pelos brasileiros, que como de costume providenciaram memes sobre o possível encerramento de ciclo. Foi neste clima, inclusive, que os tuiteiros descobriram o Koo, um aplicativo indiano que cumpre papel semelhante à rede de Elon Musk e que ainda rendeu muitas piadas de duplo sentido.

A empresa foi fundada em março de 2020 pelos empreendedores Aprameya Radhakrishna e Mayank Bidawatka. Segundo a plataforma Tracxn, o valor de mercado do Koo em junho deste ano era de US$ 263 milhões. Mesmo assim, em agosto, cerca de 15 funcionários de um total de 300 foram desligados da empresa. Na época, o CEO Aprameya alegou falta de performance e cargos redundantes, emendando que a empresa ainda contratava para outras áreas.

No Brasil, até quarta-feira, o aplicativo tinha apenas 2 mil usuários. Empolgado com a atenção recebida de 1 milhão de novos membros, além dos curiosos ao redor, o time de Koo já até prometeu para este sábado a disponibilização da ferramenta em Língua Portuguesa, além de atender outros pedidos feitos pelos brasileiros: feed da linha do tempo; mostrar lista completa de criadores da região; e corrigir bugs relatados.

Para sanar curiosidades dos brasileiros, o EXTRA entrevistou o atual CEO, Aprameya Radhakrisha, sobre o sucesso recente da plataforma e os planos para o futuro.

Extra: Para começar, gostaria de saber em que momento e como alguém da equipe notou e disparou um "alarme" para os demais de que havia um tráfego anormal em Koo e especificamente vindo do Brasil.

Aprameya: Ontem de manhã, horário da Índia, começamos a ver que havia alguns usuários que falavam português se juntando à plataforma. À tarde, vimos os números aumentando e então nosso chefe de análise nos disse que havia um aumento constante de usuários do Brasil. Foi aí que percebemos que havia um grande interesse pelo Koo no Brasil.

Extra: Eu tenho que te perguntar como vocês descobriram que o nome de Koo soa como algo muito particular no Brasil. Foi por tweets, algum amigo brasileiro contou ou tiveram que procurar no Google?

Aprameya: (Risos) Alguns usuários nos escreveram dizendo o que Koo queria dizer em português. Ficamos preocupados inicialmente, mas depois pensamos que na verdade era uma boa coincidência, pois só ajudaria a espalhar a palavra mais rapidamente, pois mais pessoas falariam sobre isso, mesmo que fosse de uma forma engraçada. Nós até perguntamos (em enquete no Twitter) se deveríamos mudar o nome, mas a maioria das pessoas disse que não.

Extra: Você pode abrir alguns números do Koo no Brasil? Até esta quarta-feira, quantos membros tinha? E agora? Que posição o Brasil ocupava no ranking de países com mais membros até quarta e agora?

Aprameya: Tínhamos apenas 2 mil usuários brasileiros. E só ontem ganhamos 1 milhão. Assim, o Brasil ocupava a 75ª posição em nossa lista dos países com mais usuários únicos vitalícios até quarta-feira e ontem se tornou o número 2.

Extra: Na internet, algumas coisas se estabelecem e muitas são efêmeras. No Brasil, existe uma cultura muito forte de memes e todo dia nasce um novo. Você acha que o Koo pode ser como um meme para o Brasil e tem medo que abandonem a plataforma logo?

Aprameya: Sinto fortemente que, como uma plataforma de pensamentos e opiniões, seremos capazes de criar uma rede única no Brasil. Quem cada pessoa alcança em cada plataforma é muito diferente. Você não alcançará a mesma pessoa no Instagram como faria no Koo. Além disso, pretendemos garantir que criadores e usuários também tenham a oportunidade de gerar receita na plataforma. Damos uma enorme importância à língua e à cultura. Então estamos muito confiantes em conquistar o coração dos brasileiros por muito tempo.

Extra: Vocês têm demonstrado que estão se esforçando para reter estes novos membros: até foi criada uma página do app no Twitter exclusivamente voltada aos brasileiros, e anunciaram que vão atender vários pedidos que estão sendo feitos, certo? Em termos práticos: vocês têm alguém que entende português ajudando a captar tudo ou a equipe está usando tradutores automáticos para isso?

Aprameya: Começamos usando ferramentas de tradução automática. Com o tempo pretendemos construir uma equipe local e ter um escritório local no Brasil. Isso nos ajudará a lidar com as nuances da operação no país.

Extra: Uma das primeiras perguntas que vocês fizeram aos brasileiros após notar a movimentação foi se eles gostariam que o app mudasse de nome. Vocês realmente fariam isso, se o "sim" ganhasse? Isso ainda está em aberto, mesmo com o "não" tendo ganhado em larga vantagem?

Aprameya: Se os usuários dissessem "sim", com certeza teríamos mudado. Como recebemos "não", a questão está encerrada e continuaremos com o nome Koo.

Extra: Vocês já postaram fotos contando que a equipe está trabalhando muito para aproveitar esse bom e apresentar novidades aos brasileiros em breve. Como recentemente tivemos uma polêmica com Elon Musk exigindo jornadas exorbitantes de seus funcionários e retirando benefícios, tenho que perguntar como vocês estão organizando as tarefas por aí. Foi preciso contratar alguém ou vão abrir vagas em breve? Os funcionários receberão pelas horas extras?

Aprameya: Somos uma pequena equipe de 200 pessoas muito apaixonadas trabalhando nisso. Para nós, o objetivo é nos tornarmos uma plataforma global de tecnologia de consumo e todos estão muito entusiasmados com isso. Muitos de nossos funcionários têm "esops" (ações da empresa) e serão mais do que bem recompensados ​​por todo o trabalho árduo que fizeram para tornar Koo um sucesso global.

Extra: No mundo, e não é diferente no Brasil, sofremos há alguns anos com o fenômeno das fake news. Por isso, algumas redes sociais já possuem artifícios para tentar conter a divulgação delas. O aplicativo Koo é bem novo, mas isso já está dentro do seu raio de preocupação? É algo importante na Índia, que você já havia considerado?

Aprameya: Sim. Levamos este problema muito a sério. Tomamos duas medidas para isso. Uma é permitir que a comunidade verifique os fatos com agências de verificação de fatos de sua escolha. Isso chamamos de democratização da checagem de fatos. Em seguida, tentamos identificar quem compartilha repetidamente informações falsas e alertamos os usuários sobre este usuário. Continuaremos a inovar nisso e garantir que nossos esforços sejam os melhores do mundo.

Extra: Outra preocupação muito atual no mundo é em relação à coleta e tratamento de dados pessoais na internet. O que vocês podem garantir aos brasileiros sobre isso?

Aprameya: Acreditamos firmemente que os dados de todos os países devem ser armazenados no mesmo país. Faremos o mesmo no Brasil. Também temos uma segurança muito boa para evitar qualquer roubo de dados de números de telefone ou endereços de e-mail. Fora isso, como Koo é uma rede de mídia social aberta, todas as outras postagens e informações estão disponíveis publicamente.

Extra: Até agora, todas as inscrições de brasileiros no aplicativo Koo foram espontâneas ou vocês convidaram alguma celebridade brasileira para entrar no aplicativo por meio de uma parceria publicitária? Pensam em fazer isto?

Aprameya: Até agora vimos brasileiros ingressando organicamente. Iniciaremos esforços para convidar mais pessoas conhecidas para a plataforma.

Extra: Vocês já estabeleceram um diálogo direto com um brasileiro que perceberam ser um grande influenciador? Estão trocando ideias com alguém do Brasil de forma mais direta?

Aprameya: Ainda não. Faremos isso nas próximas semanas. Se houver pessoas experientes que já trabalharam em construção da comunidades, adoraríamos contratá-los.

Extra: Atualmente, o Koo App tem receita para se pagar? E que caminho você vê para o futuro financeiro deste negócio?

Aprameya: Estaremos focados no crescimento do usuário e na construção de uma grande comunidade que as pessoas amam. Na monetização, gostaríamos de ser mais inclusivos do que qualquer outra plataforma, dando oportunidades para criadores e usuários monetizarem a partir da plataforma também.