Entrevista: 'Que futebol é esse que não pode reunir jogador, que não tem oração no vestiário?', diz Alexandre Kalil

Renan Damasceno
Kalil, em 2012, quando era presidente do Atlético

Dirigente mais vitorioso da história do Atlético-MG, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), teve desafio duplo em 2020: encarar a pandemia do novo coronavírus, dois meses depois de enchentes devastarem a capital mineira. Defensor do isolamento social e conhecedor das necessidades dos clubes – foi mandatário alvinegro de 2008 a 2014, conquistando, entre outros títulos, a Libertadores-2013 –, Kalil afirma que futebol não é prioridade agora, em um momento que as cidades lidam com corpos de vítimas da Covid-19.

Em entrevista ao GLOBO, Kalil comentou sobre a possibilidade de retorno do esporte, avaliou o trabalho do governo federal, comentou a situação de Ronaldinho Gaúcho – herói de conquistas recentes do Galo, preso no Paraguai –, e dos desafios de comandar a prefeitura de uma das principais capitais do país durante a pandemia.

O que você pensa sobre a discussão em torno da volta do futebol?

Eu conheço os dois lados. Eu sei o que que é uma estrutura para um jogo de futebol. Se não tiver público e transmissão, o futebol não tem necessidade de existir. Se for para ter só transmissão, tem jornalistas, cabos, rádios, massagistas amontoados em pequenos lugares, como vestiário. É aglomeração. Não é hora de pensar nisso, em política, em reeleição, em nada. Tem que pensar em libertar a cidade o mais rápido possível. Que futebol é esse que não vai poder reunir jogador, fazer oração no vestiário?

É possível?

Na Cidade do Galo, que eu conheço bem, só dentro da gaiola trabalham três pessoas, para limpar chuteira de jogador. Nós vamos obrigar esse povo a ficar lá? Dentro do departamento médico trabalha gente, tem cozinha, roupeiro, dois massagistas, garçom, você está fazendo aglomeração. Ou vai fazer igual na Europa? Cada um sai da sua casa, de carro para o estádio. Chega lá, tem outra multidão de gente, mesmo sem público. Não tem a menor possibilidade de pensar nisso agora, por questão de segurança.

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Em que momento estamos?

Estamos indo para o pico da pandemia. O futebol que está voltando é de mentira. E outra coisa: o futebol depende da cidade, do que o prefeito pensa. O Cruzeiro não vai voltar a treinar aqui em Belo Horizonte, mas o Atlético está em Vespasiano; o América, em Contagem (cidades da região metropolitana de BH). Você pode até barrar o ônibus, o Supremo Tribunal Federal autorizou as prefeituras. Não estou falando que vou fazer isso, mas se eu quiser barrar o ônibus do Atlético, ele não vai para o jogo, porque ele sai de Vespasiano.

As federações terão que dialogar com as prefeituras...

Federações não mandam nada em pandemia e saneamento. A federação manda em futebol. Nós não estamos acostumados com guerra — e isso (a doença) é guerra.

É possível vislumbrar um momento seguro para a volta?

Isso vai passar. Gradualmente, nós vamos ter segurança para prioridades. O futebol não é prioridade humana. A prioridade humana é a liberdade.

Por ter sido dirigente antes de ser prefeito, você entende o lado dos cartolas?

Eu respeito, porque é a luta do comerciante, do ambulante, a luta de todos. Uma opinião: falta uma mesa para os clubes assentarem. E determinar regra única para diminuir o prejuízo. São contratos longos e quem conhece futebol sabe que público não é grande receita — com a exceção do Flamengo, talvez. A televisão perde, o clube perde, os jornais, eu perco, porque adoro assistir o Atlético no fim de semana... Todo mundo está perdendo.

Mais difícil ser prefeito ou presidente do Atlético?

Até a tempestade que devastou BH, em janeiro, que tivemos que reconstruir a cidade, era mais fácil ser prefeito. Com a pandemia e tempestade, Deus nunca deu tanto problema para um prefeito na História. Esse ano não fui prefeito, fui bombeiro.

Belo Horizonte deve manter isolamento até quando?

Belo Horizonte não vai arredar pé da ciência e da medicina. Não sou eu que estou mantendo a cidade fechada. É um grupo que foi criado com infectologistas, médicos do mais alto nível, com secretário de saúde. O dia que eles falarem que é para flexibilizar, que a curva está na descendência, coisa parecida, eu faço. O que estou fazendo agora é obedecendo a ciência e a medicina.

Qual sua avaliação do governo federal em relação às medidas contra a pandemia?

Não vou politizar esse assunto. Eu tenho minha opinião que é frontalmente contrária a dele (presidente Jair Bolsonaro). Eu sei conviver. Já que aqui quem manda sou eu, e ele tem enviado o que tem que mandar para cá, não vou politizar. Ele pensa do jeito que ele quiser e eu penso do jeito que eu quero. Eu tenho autoridade na minha cidade, pelo STF.

Como acompanhou a situação do Ronaldinho (campeão da Libertadores de 2013 com o Atlético e atualmente preso no Paraguai)?

Ele foi levado naquilo. Eu gosto muito dele. Ele veio receber medalha aqui, no fim ano passado, em BH, veio jantar aqui em casa comigo, com a mãe, o Assis. Ele me fez muito bem, me ajudou muito em tudo que conquistei no Atlético. Eu não entendi nada.

No fim de cada dia, antes de dormir, o que você pensa?

Mais um dia foi embora, ganhamos mais um dia. É questão de tempo. Todos nós mudamos, pena que eu acho que o mundo não ficou melhor. Enquanto estão enterrando, comprando material – como vi em São Paulo –, saco plástico para botar corpo no frigorífico, estão falando em política, falando em futebol. Com 61 anos, não tenho idade para acostumar com mais nada. Eu não posso acostumar com isso, nenhum de nós. Temos sete mil problemas a menos de emprego, porque morreram. Se abrir tudo, nós não teremos nem desemprego. Vai morrer todo mundo.