Cabo Shirreff, um oásis para fauna antártica que cativa os cientistas

Júlia Talarn.

Cabo Shirreff (Antártida), 23 mar (EFE).- O cabo Shirreff, uma pequena península situada na ilha Livingston, é um oásis para a fauna antártica onde convivem diferentes tipos de aves, pinguins, focas e lobos marinhos.

Há décadas, cientistas chilenos e americanos passam longas temporadas neste remoto lugar da Antártida, situado a 62 graus na latitude sul, com o objetivo de estudar as espécies e tentar decifrar os efeitos da mudança climática.

"Cabo Shirreff é como um oásis no qual coexistem muitas espécies. Isto nos oferece a oportunidade não só de estudar cada um dos animais, mas também a interação entre eles", disse à Agência Efe o biólogo marinho Renato Borrás.

Esta língua de terra gelada de aproximadamente três quilômetros de comprimento e meio de largura abriga comunidades de Pinguim-de-barbicha e Pinguim-gentoo, além de aves marinhas como Petrel-gigante, gaivotas e moleiros.

Também está povoada por quatro dos cinco tipos de focas que existem na Antártida. Dezenas de foca-leopardo, de Weddell, caranguejeira e elefante-marinho jazem nas inóspitas praias de cor cinza que delimitam a península.

No entanto, o grande protagonista é o lobo-marinho-antártico, uma espécie de otariídeo que praticamente ficou em extinção no século XIX por sua singular e prezada pelagem.

A proibição de sua caça na década de 80 permitiu que a população se recuperasse rapidamente.

Atualmente, Cabo Shirreff é o refúgio da colônia mais numerosa de lobos-marinhos-antárticos das ilhas Shetland do Sul e aloja milhares de exemplares desta espécie.

A grande biodiversidade que coloniza essa porção de terra foi o motivo pelo qual os signatários do Tratado Antártico a declararam como uma zona especialmente protegida e restringida ao turismo.

"É fascinante que a enorme complexidade do ecossistema antártico possa ser estudada em um lugar tão reduzido", declarou Borrás.

Nesta pequena península fica a base chilena Guillermo Mann e a americana Shirreff, que a cada ano abrigam durante três ou quatro meses uma dezena de cientistas que desafiam as gélidas temperaturas e o vento para poderem realizar suas pesquisas.

Embora não se saiba com exatidão o que empurra os animais a se reunir nessa porção de terra, os cientistas estimam que a geografia do lugar e a distribuição do krill poderiam ser determinantes.

"Além de ser todo um festim para os animais, a geografia do cabo o transforma em um dos lugares favoritos para a reprodução e a criação dos mamíferos", explicou o biólogo marinho.

Há três anos, este estudante de doutorado da Universidad Católica do Chile se transfere à base chilena durante a temporada de verão austral para estudar o comportamento da colônia de lobo-marinho-antártico.

Seu objetivo é determinar se este mamífero está preparado para lidar com a mudança climática que afeta especialmente a península antártica.

Esta região, a mais setentrional do continente, é um dos lugares do planeta que experimentou com mais intensidade os embates da mudança climática.

Nos últimos 50 anos, a temperatura aumentou 6 graus Celsius, uma taxa de aumento seis vezes superior ao aquecimento global médio, segundo dados da National Science Foundation dos Estados Unidos.

"Além de um oásis, este lugar é um laboratório natural para os cientistas, pois nos permite estudar como estas espécies respondem perante tais mudanças extremas", acrescentou o pesquisador.

A parte oeste da península antártica, onde há um ano se mediu uma temperatura de 17,5 graus, a mais alta registrada no continente branco, já sofreu o desaparecimento de sete grandes capas de gelo.

O derretimento destas plataformas geladas tem um impacto direto no ecossistema antártico, já que dificulta o crescimento das algas das quais se alimenta o krill.

O diminuição do krill - base da cadeia alimentar e alimento fundamental de várias espécies antárticas - poderia ter consequências catastróficas em termos ecológicos e pôr em perigo as populações de pinguins e focas.

As espécies que vivem em Cabo Shirreff, situado no meio da área que mais rapidamente mudou nos últimos anos por causa da mudança climática, lidam hoje com cenários climáticos similares aos que poderiam ocorrer em outras zonas do continente no futuro.

Daí se explica porque Borrás ressalta a importância de "preservar este laboratório natural" e "aumentar os esforços científicos" para tentar decifrar as consequências do avanço da mudança climática.

"Este lugar é como uma janela ao futuro. Entender o que ocorre aqui pode nos ajudar a prever o que sucederá em outros pontos do planeta o dia de amanhã", concluiu o cientista. EFE