Epidemia de coronavírus dobrou de tamanho a cada sete dias, indica estudo

Rafael Garcia
Estudo epidemiológico da doença foi baseado em exames nos primeiros 425 pacientes infectados pelo Coronavírus. (Foto: AP Foto/Vincent Thian)

Nas semanas iniciais em que vinha sendo transmitida, a epidemia de Coronavírus centrada em Wuhan, na China, dobrou de tamanho a cada 7,4 dias, estima um novo estudo. O trabalho, publicado na revista médica New England Journal of Medicine indica que, antes da virada do ano, mais da metade dos casos da doença remontam ao mercado que vendia animais vivos na cidade.

O trabalho publicado agora é o primeiro grande levantamento epidemiológico da doença, baseado no exame dos primeiros 425 pacientes infectados que desenvolveram pneumonia pelo Coronavírus. O estudo levanta preocupação sobre a capacidade do governo chinês de conter a epidemia, e foi seguido de um outra pesquisa mostrando que o vírus já teve uma difusão profunda na China.

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Qun Li, cientista do Centro para Prevenção e Controle de Doenças da China, analisou com sua equipe todo o período de transmissão verificado até 21 de janeiro para entender melhor o comportamento do vírus, batizado de 2019-nCoV.

Uma correção importante que o pesquisador fez em relação aos estudos iniciais sobre o patógeno é que a capacidade de disseminação do vírus parece ser um pouco menor do que se estimou inicialmente. No início, em média, o número representado pela variável R0 era de 3,0. Isso significa que cada pessoa contaminada parecia passar o vírus para outras 3 pessoas. Essa taxa é de similar à da SARS, o coronavírus que eclodiu na China em 2002 e foi contido no ano seguinte.

O grupo de Li revisou o R0 do novo coronavírus para 2,2: menor que a SARS, mas ainda assim um número alto. Vírus de gripe com potencial pandêmico, por exemplo, não precisam ter R0 maior que 1,5.

CRIANÇAS POUPADAS

Os pesquisadores também perfilaram todos os grupos de pacientes que contraíram a doença inicialmente e confirmam a tendência de poucos casos serem notados em crianças.

"Pode ser que as crianças sejam menos propensas a se infectar ou, quando infectadas, apresentem sintomas mais amenos", escrevem Li e colegas. "Ambas essas situações resultariam em uma sub-representação de crianças na contagem de casos confirmados."

Os autores entrevistaram vários pacientes em Wuhan e confirmam duas estimativas feitas antes, a de que o tempo médio de incubação do vírus é de 5 dias e que os primeiro caso da epidemia provavelmente surgiu no meio de dezembro. Segundo Li, pode ser que mais de um paciente tenha adquirido o vírus de um animal no mercado de Wuhan, mas existe evidência de que a transmissão de pessoa para pessoa começou a ocorrer logo em seguida.

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Segundo Li, o fato de a taxa de reprodução da epidemia ter sido 2,2 no primeiro mês não significa que ela tenha continuado assim, especialmente depois do toque de recolher adotado em Wuhan. Seu estudo, porém, serve de alerta para outras cidades chinesas que já tem epidemias sustentadas do vírus.

"Um esforço considerável para reduzir transmissões será necessário para controlar surtos se uma dinâmica similar se verificar em outros lugares", afirma. "Medidas para prevenir ou reduzir a transmissão precisam ser implementadas em populações sob risco."

CHINA PROFUNDA

Concentrando a maioria dos casos e das mortes registradas até aqui, Wuhan ainda é de longe o principal foco do coronavírus na China, mas há pelo menos outras 18 cidades chinesas que já têm mais de 50 casos registrados, e o resto da China já abrigava, na noite de quinta-feira, mais de 9 mil casos da doença.

Um outro estudo publicado nesta quinta-feira sugere que, pela dinâmica de expansão da doenças, ainda há 22 cidades com casos do novo coronavírus presentes, mas ainda não detectados.

Liderado por Zhanwei Du, da Universidade do Texas em Austin, o trabalho mapeou a interconectividade de 370 cidades chineses e estima que 131 delas tinham mais de 50% de risco de ter recebido casos de infecção por coronavírus antes de Wuhan entrar em quarentena.

Desse universo, 109 cidade de fato detectaram e notificaram a presença do vírus, mas outras 22 não, sendo seis deles cidades com mais de 2 milhões de habitantes que ainda não tinham reportado casos até 27 de janeiro: Bazhong, Fushun, Laibin, Ziy ang, and Chuxiong.

Os cientistas manifestam preocupação com a possibilidade de as duras medidas de isolamento impostas pelo governo chinês a Wuhan não serem suficientes para frear a epidemia.

"Essa avaliação de risco identificou diversas cidades pela China que provavelmente estão abrigando casos de 2019-nCoV ainda não detectados e sugere que viagens de trem ou por estrada semearam casos para muito além da região de quarentena de Wuhan", escrevem Du e seus coautores. O estudo dos pesquisadores não teve publicação formal ainda e foi depositado antes de passar por revisão independente no portal de artigos científicos preliminares medRxiv.