Equador e o alto custo do coronavírus em meio ao colapso da saúde pública

Por Xavier LETAMENDI
Homem contempla um corpo abandonado em frente à uma clínica em Guyaquil, Equador

Lourdes Rosales agonizou por um mês em uma clínica privada de Guayaquil, centro da pandemia no Equador. Foi infectada com o novo coronavírus, mas não conseguiu tratamento no já saturado sistema público de saúde. Por trás de sua morte, a ruína é iminente para sua família.

No período em que Lourdes lutava para sobreviver, a conta hospitalar subiu para US$ 51.000, até sua morte em 21 de abril.

Quando seu filho Gustavo Ycaza, de 26 anos, universitário e funcionário de um banco, quis retirar o corpo, recebeu uma resposta indolente.

"Me disseram que não me dariam o corpo de minha mãe até que eu pagasse a conta. Imagine, depois de tanta dor, te dizerem isso", conta à AFP.

Para levar o corpo embora, Ycaza assinou uma nota promissória no valor de US$ 29.000, com vencimento para setembro. "Não sei onde vou conseguir esse dinheiro, porque o salário que entra é para pagar os cartões quebrados", confessa.

- Emergência não superada -

Guayaquil, com 2,7 milhões de habitantes, sofreu como poucas cidades na América Latina com os primeiros efeitos da pandemia.

Os sistemas de saúde e mortuário sobrecarregaram após a detecção do primeiro contágio, em 29 de fevereiro.

Casas se tornaram necrotérios. A crise da saúde piorou em Guayas e em abril foi registrado um pico diário de mais de 700 mortos, a maioria na capital, segundo dados oficiais.

As autoridades não relataram quantos são consequência da COVID-19 e, embora o número de óbitos tenha caído para uma média de 85 por dia, Guayaquil ainda não considera a emergência como superada.

E as sequelas econômicas podem durar muito tempo, enquanto os casos em todo o país se aproximam dos 34.000, com quase 2.800 mortos, e outras 1.700 prováveis mortes do novo coronavírus.

- "Doença de alto custo" -

Um dia de internação em um centro privado custa entre US$ 400 e US$ 800, enquanto um salário básico mensal é de 400 dólares. Nas UTIs, onde há muitos pacientes de COVID-19, a internação custa entre 1.500 e 2.500 dólares.

O médico Roberto Gilbert, proprietário da clínica privada Guayaquil - alheia às histórias aqui contadas - afirma que a COVID-19 é uma doença de alto custo: "O oxigênio é caro, a hora do respirador (mecânico) é cara, a hora da equipe é cara. São atendidos por enfermeiros especializados e médicos de terapia intensiva".

Ycaza, no entanto, enxerga o futuro com desespero: "Não sei o que fazer (...). Nunca pensei que a doença de minha mãe fosse durar tanto e ser tão custosa".