Equador, entre a direita conservadora e a volta de Correa em um 'outro corpo'

Paola LÓPEZ
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O Equador, um país endividado, dividido e atingido pela pandemia, escolherá um novo presidente neste domingo (4) e tudo aponta para um segundo turno entre a direita conservadora e uma esquerda que anseia pela retomada do poder para se vingar da "perseguição" ao seu líder Rafael Correa.

Nesta quinta-feira, o pequeno país petrolífero encerra uma curta campanha eleitoral, limitada pelo vírus. São 16 candidatos, mas nenhum tem apoio suficiente, segundo as pesquisas, para vencer no primeiro turno.

No entanto, as preferências nas pesquisas apontam para o ex-banqueiro Guillermo Laso, de 65 anos, e Andrés Arauz, de 35 anos, afilhado político de Correa, o popular ex-presidente que da Bélgica tenta retomar o poder da esquerda nacionalista com um candidato que até recentemente era desconhecido para a maioria da população.

Há também o líder indígena Yaku Pérez, de 51 anos, que detesta igualmente os dois e promete um governo ambientalista averso às empresas de petróleo e mineração.

Caos e crise são palavras que se repetem entre os equatorianos. Sem o apoio popular, o presidente Lenín Moreno desistiu da reeleição, deixando aberta a disputa para seu sucessor.

- O que está em jogo -

Correa, que queria ser candidato à vice-presidente, viu sua aspiração ser abalada quando, em última instância, foi condenado a oito anos de prisão por corrupção. Ele foi então substituído na chapa pelo jornalista Carlos Rabascall.

O ex-presidente, entretanto, é onipresente na campanha. O próprio Arauz conta que Correa será assessor de seu governo e que pode haver a revisão de uma série de processos judiciais contra ele.

"Abre-se a possibilidade de Correa retornar ao país com muita facilidade porque cessaria a perseguição política que tentou enterrá-lo", relata à AFP o analista David Chávez, da Universidade Central.

No entanto, considerou que seus apoiadores correm o risco de "cometer um grave erro ao tentar fragilizar ainda mais as instituições do país, forçando processos judiciais, pressionando pessoas ou vingando-se".

Para o cientista político Esteban Nichols, da Universidade Andina Simón Bolívar, uma eventual vitória de Arauz significaria "um retorno à política de amigos e inimigos".

"A lógica política será a de um combate declarado contra os inimigos políticos que nascem na cabeça de Correa", afirmou o professor, que considera que o Equador "está um caos" com "uma política pública bastante desorganizada".

- A ressurreição da direita -

Lasso, candidato pela terceira vez, busca a presidência junto ao médico Alfredo Borrero. Aliado natural do Partido Social Cristão, o mais conservador do país, simboliza o anti-correísmo.

Ele apoiou Moreno no referendo que derrubou a reeleição por tempo indeterminado instituída no governo Correa, qualificando as propostas de Arauz de "receitas malsucedidas" e oferecendo "uma mudança no modelo".

"Vota em Lasso quem espera que o correísmo não volte assim como os que querem uma política diferente, especialmente no aspecto econômico", explicou à AFP o cientista político Simón Pachano, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).

Ele lembrou que "a condição de banqueiro" de Lasso gera "rejeição" entre os equatorianos, principalmente devido à crise bancária do final dos anos 1990.

"Isso o afeta, muito mais quando há quem o considere um dos arquitetos" do congelamento de depósitos no Equador, acrescentou.

Lasso nega ser o responsável pela crise, que custou ao Estado cerca de 8 bilhões de dólares.

- A opção indígena -

Em meio à polarização entre os correístas e anticorreístas, surgiu a figura de Yaku Pérez, impulsionada pelo destaque que o movimento indígena ganhou nos protestos de outubro de 2019 contra o governo Moreno.

Pérez, que possui uma carreira política local e tem como companheira de chapa a bióloga Virna Cedeño, "combina a velha votação do movimento indígena com o da esquerda não correísta e com uma série de outros setores, como os jovens atraídos ao discurso ambientalista", ressalta Pachano.

Considerou também o líder indígena, do partido Pachakutik, um "candidato surpresa" nessas eleições.

Embora Pérez, de 51 anos, tenha ficado em terceiro lugar nas pesquisas, "é sem dúvida a eleição mais bem-sucedida que (os indígenas) terão em muito tempo e isso é positivo" para eles, complementou Chávez.

O último candidato presidencial indígena, Luis Macas, obteve apenas 2,2% dos votos em 2006. Antes dele, Antonio Vargas obteve 0,9% dos votos em 2002.

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