Equipe de reportagem expõe as dificuldades de um Brasil sem agência bancária

Moradora de Belmiro Braga, a idosa Marina Cruz, de 86 anos, espera na porta de posto bancário para sacar aposentadoria

RIO - Nos últimos anos, O GLOBO e outros jornais vêm publicando, com frequência, notícias sobre o fechamento de agências pelos grandes bancos do país, inclusive os públicos. Em geral, o destaque vai para o número de unidades fechadas, o tamanho do corte nos custos da instituição financeira e a perda de postos de trabalho.

Ao notar a repetição dessas notícias, o repórter Pedro Capetti resolveu investigar que localidades estão perdendo agências e que impactos essa situação provoca na vida das pessoas. Localizando uma base de dados do Banco Central, ele descobriu que, com esse movimento, o número de cidades brasileiras que não têm sequer uma agência bancária está aumentando.

Como mostra a reportagem publicada hoje pela editoria de Economia do jornal, atualmente, dois em cada cinco municípios do país não contam com estabelecimentos bancários. Entre 2013 e 2019, 427 cidades entraram para esse grupo. No total, são cerca de 17 milhões de brasileiros em 2.328 municípios que passaram a ter que ir a cidades vizinhas para abrir uma conta corrente ou negociar um empréstimo com um gerente. Nos seus municípios, só podem contar com postos de atendimento e lotéricas com serviços e horários muito limitados. Para muita gente, isso significa mais dificuldades para sacar benefícios como a aposentadoria.

— Falamos muito sobre o número de agências fechadas e a perda de empregos, mas não tínhamos como medir o impacto dessas medidas na vida da população. Também acompanhamos o crescimento de fintechs e bigtechs (bancos digitais) e o surgimento de novas tecnologias, mas esquecemos de um país com brutais desigualdades regionais, que se refletem nos meios de pagamento usados pelas pessoas: dinheiro em espécie ou cartão de crédito — conta Capetti. — Por isso, decidimos visitar uma dessas cidades que perderam agências bancárias nos últimos anos.

Capetti e o repórter fotográfico Roberto Moreyra visitaram a pequena Belmiro Braga, a 40 quilômetros de Juiz de Fora, em Minas Gerais, onde os 3,5 mil moradores só podem contar com um posto correspondente de um grande banco, que fechou a última agência da cidade em 2016.

Quem procura a cidade na internet até vê a indicação de um banco no mapa, mas, ao chegar lá, a realidade é bem diferente. O posto está frequentemente desabastecido de cédulas, o que pode tornar um simples saque uma tarefa de dias. Muita gente vigia a chegada do carro forte, que passa uma vez por mês, para correr para o posto e ter a oportunidade de sacar o salário ou a aposentadoria.

— É chocante perceber que a facilidade que temos de fazer saques numa cidade grande não é a mesma nessas cidades pequenas. É claro que a digitalização crescente das operações bancárias ocupa esse espaço, mas esquecemos que em muitas dessas cidades não há internet de qualidade. É algo que impacta a economia local porque limita o consumo e o crédito dessas pessoas — diz Capetti.

A realidade retratada na reportagem mostra o tamanho do desafio das fintechs, como são chamadas as start-ups financeiras, de ocupar esse espaço abandonado pelos bancos tradicionais e permitir o aumento da bancarização dos brasileiros. No Brasil, 60% dos pagamentos ainda são feitos em espécie e cerca de 45 milhões de brasileiros não têm conta bancária, a grande maioria deles nas pequenas cidades.

Com base nos dados disponíveis pelo Banco Central, a reportagem conseguiu mapear o número de agências em todas as cidades brasileiras. O levantamento resulotu num mapa interativo que pode ser consultado pelo leitor no site do GLOBO.