Muhammad Ali vs. Dick Cavett, o único combate no qual ambos ganharam

José Miguel Pascual.

Austin (EUA), 18 mar (EFE).- O boxeador Muhammad Ali foi uma das personalidades mais conhecidas do mundo na segunda metade do século 20, e o jornalista Dick Cavett, uma das pessoas que melhor lhe conheceu, segundo retrata um filme apresentado no festival South by Southwest (SXSW) de Austin, no Texas.

O documentário "The decepe of tapes", do diretor Robert S. Bader, narra a história de uma amizade forjada através das 14 entrevistas que Ali deu a Cavett ao longo da vida do campeão dos pesos pesados.

Tal era a conexão entre os dois que em muitas ocasiões as pessoas se perguntavam se ensaiavam as entrevistas previamente, já que parecia uma cena de uma dupla de comediantes, segundo disse à Agência Efe o próprio Cavett.

"Ele tinha um instinto especial para saber o que fazer (na televisão), o que não fazer, quando estava agradando o público ou não, ou, por exemplo, que temas podiam ser divertidos ou quando falar seriamente; e fazia tudo isto de forma maravilhosa", acrescentou.

O veterano apresentador explicou que Ali era uma "força magnética" que cativava o espectador rapidamente e que, na parte pessoal, sua relação de amizade se forjou "de forma instantânea", graças a uma conexão que, ainda hoje, não saberia definir como aconteceu com tanta solidez.

Ao longo do filme, a audiência pode observar a diferença entre as entrevistas do pugilista no programa de Cavett e sua atitude frente a outros jornalistas: era no show do amigo onde sentia-se "mais cômodo".

"É o único que me convida à sua casa agora que já não sou um vencedor sobre o ringue", foram as palavras de Ali a Cavett após uma das suas derrotas, em 1973 contra Ken Norton, na parte principal da sua carreira.

No entanto, o diretor do documentário, Robert S. Bader, não acredita que Cavett fosse o único a convidar-lhe para seu programa, mas sim que era "o único show ao qual Ali queria comparecer".

Bader comentou em entrevista à Efe que o maior desafio para elaborar este projeto foi o corte final do filme, já que encontrou "uma quantidade enorme de conteúdo maravilhoso".

"Inclusive, quando fiz a edição final, algumas peças incríveis ficaram fora e optei por inclui-las nos créditos finais; portanto peço às pessoas que não saiam quando começarem os créditos porque há alguns pontos divertidos que não podem perder", avisou, sorridente, o cineasta.

"Ali & Cavett " oferece um ângulo inovado sobre a vida do campeão mundial, com perspectivas poucas conhecidas sobre sua personalidade e a repercussão que o ajudava a aparecer em um programa tão popular como era o de Cavett.

Assim ocorreu em 1971, quando a Suprema Corte decidiu suspender a sanção contra Ali para que voltasse a lutar e o pugilista apareceu no programa de Cavett, algo que foi criticado por Elijah Muhammad, líder da Nação do Islã, pela sua decisão de "estar com o homem branco".

Nesse sentido, Bader comentou que Ali tinha "uma grande inteligência" para usar o espaço transmitido pela televisão para atrair a atenção para temas que ele considerava importantes, como a questão racial, e para isso o programa de Dick foi "um grande fórum".

Por sua parte, Cavett elogia que este documentário reflete perfeitamente como o atleta "não era igual a outros dos seus companheiros daquela geração", para quem era difícil expressar-se em público.

"Simplesmente, a relação entre estas duas pessoas era algo que o público tinha que conhecer porque é parte da história dali; mas, concretamente, esta parte sobre o programa de Dick era desconhecida... até agora", concluiu o diretor do filme. EFE