Equipe de vigilância da Univaja foi criada por conta do aumento das invasões em terra indígena

Cansados de verem toneladas de carne de peixes e animais de caça saqueadas de suas terras, os indígenas do Vale do Javari tiveram a ideia de criar a sua própria equipe de vigilância para tentar mapear as invasões. Com isso, abastecem as autoridades com informações para que sejam tomadas as providências para a retirada de pescadores ilegais e garimpeiros da região, que concentra a maior quantidade de povos isolados do mundo.

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Criada em meados do ano passado, em razão da inação dos órgãos de proteção ambiental, a equipe de vigilância da Univaja (EVU) nasceu com o objetivo de formar e orientar as cinco etnias já contatadas, que vivem ao longo de uma área de mais de 8 mil km2, para que os índios façam a fiscalização e o monitoramento territorial junto ao mapeamento das invasões.

Um de seus idealizadores era Bruno Pereira, indigenista que foi coordenador regional em Atalaia do Norte e coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Fundação Nacional do Índio. Bruno desapareceu no último domingo juntamente com o jornalista Dom Phillips.

Exonerado do cargo de coordenador-geral em 2019, Bruno decidiu se licenciar para se dedicar à formação de indígenas para ajudá-los no monitoramento da área.

— A EVU passou a operacionalizar de fato no início deste ano e foi criada em um contexto onde aumentaram consideravelmente as invasões em nosso território. São retiradas, mensalmente, toneladas de carne de caça e pesca da nossa terra indígena, além da atuação do garimpo na região Leste da terra indígena, onde ficam localizados os indígenas isolados — diz o coordenador da Unijava, Beto Marubo.

Junto ao coordenador da Univaja , Beto Marubo, Bruno ministrou cursos e, com a ajuda de recursos doados pela WWF e Greenpeace, comprou drones, celulares e GPS para instruir uma equipe de cerca de 50 indígenas, que se revezam no monitoramento da área.

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A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) conta com três drones Mavic Air 2 Enterprise, cinco aparelhos de GPS e oito celulares com aplicativos que registram as coordenadas dos pontos de invasão tão logo uma fotografia é feita.

— Surgiu a ideia de a gente capacitar os próprios indígenas, não para atuar num contexto de fiscalização, mas nas ações de qualificar essas informações, com o objetivo de apresentar para as autoridades. Então, a EVU foi muito mais uma forma de a gente somar os esforços para proteger a nossa terra. É uma atuação mesmo de quase desespero, porque a gente vê toneladas de carnes de caça, de pescados e garimpeiros na região leste do Javari, área muito sensível com a maior quantidade de isolados e sem uma atuação do Estado, isso prejudica a nossa vida no interior do Vale do Javari.

Bruno, que é compadre de Marubo no batizado de seus respectivos filhos, foi convidado para instruir os indígenas nesse trabalho de monitoramento.

— Como o Bruno já tinha a expertise de atuar, por ser do quadro da Funai, na questão da proteção ambiental, isso foi facilitado. O foco dele na Funai era feito em duas frentes: uma na proteção aos índios isolados, e outra na proteção territorial. E como ele estava de licença na Funai, a gente trouxe ele para capacitar os indígenas no que nós não tínhamos o domínio: como manejar um drone para fazer imagens de vigilância setorial, como manejar informações cartográficas, como utilizar um GPS, como utilizar as imagens, como utilizar informações de software para elaboração de mapas. Então o Bruno tinha essa função de capacitação dos indígenas. Só que numa metodologia simples e didática, com que os indígenas pudessem entender de forma clara. E ele conseguiu. — conta Beto Marubo.

Um dos primeiros alunos de Bruno foi Valdir Marubo, que hoje é secretário da Univaja. Ele conta como foram as primeiras incursões na terra indígena:

— Eu participei das primeiras entradas em terra indígena juntamente com o Bruno. No início foram disponibilizados primeiramente os três drones que temos e depois foram comprados GPS para justamente capacitar os indígenas para mapear os pontos de invasão. Já os celulares funcionam da seguinte forma, a partir do momento que você tira uma foto, ele já marca automaticamente as coordenadas da área invadida.

A EVU fez até hoje nove expedições desde agosto de 2021, e abasteceu, conforme revelou O GLOBO, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF) com registros das invasões de criminosos e embarcações de grande e médio porte que estavam retirando milhares de tracajás, espécie de tartaruga em extinção e toneladas de carne de Pirarucu, peixe amazônico com alto valor comercial que eram vendidos no centro de Atalaia do Norte e exportados para fora do país.

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