'Era para ele ser só o meu herói', diz viúva de homem que tentava salvar vidas no temporal em SP

Gustavo Schmitt

"Eu sei que você foi querer ser um herói, mas era para ser só meu herói", conta, entre soluços, a dona de casa Gisele Silva, de 27 anos, ao beijar a foto do marido Rafael Passos, de 29, morto soterrado na madrugada de terça-feira no Morro do Macaco Molhado, no Guarujá, um dos mais atingidos pelas chuvas na Baixada Santista. Passos, desempregado e que deixou sete filhos, tentava ajudar os bombeiros a salvarem uma mulher e um bebê, que também não resistiram aos ferimentos.

O corpo de Passos ainda está sob os escombros e a lama no morro.

- Tenho que ter muita força para conversar com meu filho mais velho, porque, das crianças, ele é quem mais entende a situação. Já o de dois anos fica pedindo pelo pai - diz Gisele, que aguarda ansiosa e a base de remédios pelas buscas do corpo do marido.

Volta e meia um vizinho aparece para lhe dar um abraço e desejar força. A maior parte deles trabalha como voluntário na ajuda aos bombeiros. A dona de casa diz que sua esperança de futuro é a ajuda dessas pessoas.

A casa de Gisele e do marido foi engolida pela lama na madrugada de terça feira. Após um estrondo na barreira do alto do morro, Passos decidiu tirar a família e buscar um abrigo seguro. Os filhos dormiam em cima da mesa de jantar e da cama do casal - a casa já estava alagada, e a água chegava na altura da canela.

Já na casa de um vizinho na parte mais baixa da comunidade, o desempregado cedeu aos gritos de ajuda e voltou ao alto do morro. Em vão. A barreira desabou assim que ele chegou.

Ele e Gisele se conheceram ainda adolescentes há cerca de 15 anos, quando ela trabalhava numa barraca de pastel de sua tia na comunidade da Enseada, também no Guarujá. Logo tiveram o primeiro filho e casaram. Passos fazia bicos de eletricista. Seu sonho era fazer um curso profissionalizante na área.

Segundo esposa, recentemente estava animado pois começaria a trabalhar nas obras do Minha Casa, Minha Vida na comunidade.

- Ele era um paizão. Gostava de ficar em casa com os filhos, de jogar bola. Era fanático pelo Palmeiras- afirma a mulher.