Erasmo Carlos: Artistas destacam a generosidade do Tremendão com talentos de todas as gerações

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RIO - Faz todo o sentido que uma definição precisa do “amigo de fé, irmão camarada” Erasmo Carlos tenha vindo do principal parceiro musical dele.

— Aquele que está ao meu lado em qualquer caminhada — diz o Rei Roberto Carlos, citando sua clássica canção “Amigo”, de 1977, em declaração enviada ao GLOBO acompanhando os parabéns pelos 80 anos de Erasmo (idade que Roberto completou há 46 dias, aliás; até nisso os dois são próximos). — Você realmente é um cara fantástico, incrível, que todo mundo adora.

Ah, mas os caras são da velha Turma da Tijuca (“Eu era aluno do Instituto Lafayette/ Naquele tempo eu já pintava o sete”, diz a canção da dupla, lançada em 1984 por Erasmo no disco “Buraco negro”), cresceram musicalmente juntos, é claro que seriam amigos.

— Se eu tivesse nascido no Rio e em outra geração, gostaria de ter pertencido à Turma da Tijuca — diz o mineiro Samuel Rosa, do Skank, parceiro de Erasmo em “Novo sentido”, gravada pelo Tremendão em “... Amor é isso” (2018) e intérprete de clássicos como “É proibido fumar” e “Banda dos contentes”. — Erasmo e Ben Jor sempre foram muito legais com a gente. O Erasmão já disse até que se ele fosse uma banda, gostaria de ser o Skank. Não sei se ele ainda pensa assim...

A honra que invade Samuel é comparável ao susto que Pedro Dias levou quando recebeu um telefonema do produtor e baixista Liminha. “Vocês (Pedro tocava na banda Filhos da Judith) querem vir gravar uns vocais no disco do Erasmo?” Pedro e o irmão Luiz Lopez integram a banda do Gigante Gentil há 12 anos.

— Quando fomos gravar os lalalás e tchururus no disco, Erasmo não estava no estúdio — lembra Pedro. —Aí o Liminha ligou para ele para mostrar o que tínhamos feito, e eu ouvi, pelo telefone, a voz dele pela primeira vez em um ambiente fora do rádio ou da televisão. Ele escutou o som e disse: “Bicho, o que esses caras tomaram?”

O baixista é mais um a entrar no coro (metafórico, além do literal) puxado por Roberto, o de que Erasmo é “o cara que todo mundo adora”.

— Ele nos chamou para ser sua banda de apoio quando lançou o disco “Rock’n’roll” (2009) — conta Pedro. — Isso já seria suficiente para a gente adorá-lo para sempre, mas não é só. Ele é muito amoroso, trata a gente como colegas, todos no mesmo barco.

Tudo em família

Nesses 12 anos, Erasmo e os filhos de Dona Judith passaram por tudo — a banda não existe mais, mas Pedro e Luiz seguem sendo da família.

— Estávamos juntos quando o filho dele morreu (o cantor Alexandre Pessoal não resistiu a um acidente de moto, em 2014) — conta o baixista. — Ele seguiu firme e forte. Compreende a vida e devolve com arte.

Outro baixista, Dadi, também esteve envolvido nas gravações de “Rock’n’roll”.

— Eu o via na televisão quando era criança, Erasmo e seu Rolls-Royce — lembra o fundador da Cor do Som. — Além de todo o prazer de tocar e conviver com ele, ganhei a chance de gravar várias guitarras. Eu sempre tive o sonho de ser guitarrista!

Entre a Cor do Som, o Skank e os Filhos da Judith, Erasmo também bateu seu tambor com os Tribalistas.

— Tenho a sorte de ser amiga e parceira e adoro o clima cinematográfico de suas canções —afirma Marisa Monte.

A cantora dividiu o microfone com ele “Mais um na multidão”, além de regravar clássicos como “De noite, na cama”.

Outro Tribalista (e também um Titã), Arnaldo Antunes gosta de lembrar a sincronia dos lançamentos de seu disco “Iê iê iê” e de “Rock’n’roll”, de Erasmo, ambos de 2009.

— Só queria mesmo era dar o abraço que ainda não podemos dar nesse período — lamenta o compositor. — Então vai aqui o meu salve, o meu viva, o meu parabéns, Erasmo Carlos!

A cantora Érika Martins integrou uma banda dedicada ao repertório sessentista de Roberto & Erasmo com um nome sugestivo: Lafayette e os Tremendões. O grupo contava com a ilustre presença de um velho companheiro de palco e estúdio de Erasmo, o tecladista Lafayette Coelho, morto há dois meses devido a problemas renais. Quando a situação médica e financeira de Lafayette se complicou, em 2017, um show para arrecadar fundos foi organizado, no Teatro Rival.

— Erasmo aceitou o convite na mesma hora, nem pestanejou — lembra Érika. — No dia ele chegou cedo, participou de tudo e contou a história de como o Lafa mudou a música brasileira ao gravar pela primeira vez um órgão no pop e no rock. Aquilo definiu o som da jovem guarda.

O grupo Lafayette e os Tremendões rendeu uma bela amizade entre os jovens roqueiros e o homenageado, além de uma relação profissional.

— Meu último disco, “Modinhas” (2013), foi lançado pelo selo dele, o Coqueiro Verde — lembra Érika. — Ele participou de todo o processo, conhecia bem cada uma das músicas, debatia comigo. Tem muito artista grande que, em casos assim, só assina e não aparece, mas não é o caso dele.

É tanta camaradagem que dá até para desconfiar, mas Samuel Rosa acaba com qualquer suspeita.

— Erasmo Carlos é a prova de que gente legal também faz música boa.

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