Erasmo Carlos evitava falar de doenças e enfrentou câncer com discrição: 'Não gosto de tristeza', disse em 2021 ao EXTRA

Sempre discreto, Erasmo Carlos, que morreu nesta quarta-feira, dia 22, aos 81 anos, evitava deixar fãs e amigos preocupados com o seu estado de saúde. Nos últimos quatro anos, o Tremendão enfrentou todo o processo para se recuperar de um câncer no fígado. Somente quando a doença entrou em estado de remissão é que o artista falou sobre o assunto, numa entrevista exclusiva ao EXTRA, em que tocou no assunto publicamente pela primeira vez.

— Este câncer foi descoberto por acaso. Fui fazer um exame de pedra no rim e apareceu este tumor no fígado. Aí já fomos tratando. Fiz um procedimento chamado ablação, mas o câncer voltou depois. Então repetimos este tratamento e esta segunda vez foi arrasadora — disse o artista ao EXTRA, logo após a recuperação.

Este não foi o primeiro câncer do cantor da Jovem Guarda. Há 20 anos, ele enfrentou um câncer na garganta. Ao EXTRA, ele explicou por que preferiu não tornar a doença pública.

— Minha vida é muito discreta. Já fui deslumbrado, não sou mais. Experiência e sabedoria vão vindo com a idade. Anuncio agora, porque estou bom. É hora de falar com alegria. Não gosto de tristeza na minha vida, não — completou Erasmo.

A entrevista ao EXTRA se deu perto do aniversário de 80 anos do artista, em maio de 2021. Nela, falou tambem sobre a composição ser o ofício principal de sua carreira.

— Não me considero um cantor, me considero um intérprete. Principalmente das minhas músicas. Amo fazer letra e música. Quando tenho parceiros, aprendo com eles, com novas linguagens musicais e levadas. O novo me fascina muito. Estou por aí sempre antenado com as coisas boas. Mas não posso parar de compor, porque é minha vida. Acho que posso até parar de cantar. Mas não de compor — falou o ícone da Jovem Guarda, dizendo que se sentia feliz e realizado quando jovens artistas cantavam suas músicas: — É uma injeção de otimismo. Não tenho pretensão de fazer nada revolucionário, quem faz isso são os jovens. As novas gerações surgem com novas propostas e vontades, cheias de reclamações sobre as cagadas que as gerações antigas fizeram. Estou satisfeito com o que eu fiz e com o que eu ensinei. Hoje em dia eu só quero aprender.

Sobre os próprios erros, ele analisou:

— Eu prefiro assumir tudo que eu fiz. “Minha fama de mau”, por exemplo, é uma música machista. O cara não deixa a menina ir ao cinema. É inocente, mas é um machismo. Não vou dizer que hoje eu não a escreveria. Se fosse jovem, hoje em dia, não sei como seria a minha cabeça.

Ainda sobre as “famas” que angariou ao longo da carreira, Erasmo continuou fazendo jus à de terrível! Principalmente quando lidava com preconceito e intolerância. Como na letra da sua música “Sou uma criança, não entendo nada”, ele acreditava estar cada vez mais difícil compreender o mundo.

— Não era este mundo que eu imaginei lá em 1970. Quanto mais cultura, mais experiência e mais exemplos a humanidade tem, menos aprende. Parece que estamos sofrendo uma involução. Isso me dá uma tristeza grande. De nada adianta os poetas, os compositores e os profetas falarem. Ninguém segue, ninguém quer saber. As pessoas nascem boas. O mundo era para ser outro. Há preconceitos gritantes e intolerância — falou Erasmo em 2021, ao EXTRA, mostrando que também tentava se manter esperançoso: — Mas continuo acreditando, tenho fé, amor, solidariedade. Minha religião é essa. Essa será minha bandeira sempre.