Erdogan tenta se aproximar da Europa, antecipando tensões com Biden

Raziye AKKOC
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O presidente da Turquia, Recep Erdogan

Com a chegada de um líder americano potencialmente hostil, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, parece determinado em consertar suas relações com a União Europia após anos de tensões.

Em um sinal de sua rejeição à agressiva diplomacia turca, os países europeus decidiram no mês passado sancionar Ancara por suas perfurações de gás unilaterais no Mediterrâneo oriental.

A Turquia também irritou seus sócios ocidentais com sua intervenção na Líbia para apoiar o governo de Tripoli e com seu apoio ao Azerbaijão em seu conflito com a Armênia na região de Nagorno Karabakh.

Mas após meses de atrito, marcados especialmente por trocas ofensivas entre Erdogan e o presidente francês Emmanuel Macron, o chefe do Estado turco reiterou que deseja "escrever uma nova página" nas relações entre Ancara e a União Europeia.

Erdogan e Macron inclusive trocaram cartas nos últimos dias.

Ancara também estendeu as mãos para Atenas, convidando-a a negociar, no final de janeiro, sobre a exploração de hidrocarbonetos no Mediterrâneo.

Se a Turquia suavizou seu tom, é porque "não pode se permitir uma escalada das tensões com Estados Unidos e Europa, principalmente com uma economia tão frágil", disse um diplomata europeu.

A dependência econômica de Ancara com a Europa é grande: entre 2002 e 2018, dois terços dos investimentos diretos estrangeiros na Turquia vinham dos países da UE, segundo dados oficiais.

Mas as tensões contribuíram para criar um clima de instabilidade e a preocupação dos investidores se reflete na queda da lira turca, que perdeu um quinto de seu valor em relação ao dólar em 2020.

Depois de retirar seu genro da cadeira das Finanças em novembro, Erdogan multiplicou os apelos para a Europa, prometendo especialmente reforçar o Estado de direito.

Isolado, "Erdogan procura amigos em todos os lados", destaca Ilke Toygur, analista do Instituto alemão das Relações Exteriores e Segurança SWP.

Com este objetivo, Erdogan e seu ministro das Relações Exteriores se reuniram na terça-feira com embaixadores dos países europeus.

Embora as dificuldades econômicas tenham guiado a nova abordagem turca, a vitória de Joe Biden parece ter sido um fator determinante.

Erdogan teve com Donald Trump uma relação pessoal que permitiu a Ancara evitar fortes sanções por suas operações militares na Síria ou pela compra de mísseis russos, mas a Turquia espera mais frieza do próximo governo americano.

"A vitória de Biden mudou as cartas. A Turquia espera que o próximo governo americano seja menos flexível", disse o diplomata europeu.

A tentativa de uma aproximação com a UE "pode ser interpretada como uma forma de se preparar" para a posse de Biden, disse por sua vez Sinem Adar, do Centro de Estudos Aplicados sobre a Turquia em Berlim.

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