Pária? O que explica a pressão pela demissão de Ernesto Araújo?

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Brazil's Foreign Minister Ernesto Araujo  attends an International Seminar of Brazilian Foreign Policy in Brasilia, Brazil November 21, 2019.REUTERS/Adriano Machado
O ministro das Relações Exteriores Ernesto Araujo. Foto: Adriano Machado/Reuters

Uma das primeiras noções de diplomacia que aprendemos na infância é que não devemos cuspir para cima sob o risco de sermos alvejados na testa pela própria secreção salivar. Em outras palavras: cuidado com as palavras. Nunca sabemos quando vamos precisar nos retratar e oferecer bandeira branca a quem desprezamos.

Não é preciso procurar no YouTube as dez regras da boa conduta global para perceber o quanto a metralhadora escatológica de Ernesto Araújo e companhia disparou sem levar em conta a força da gravidade diplomática. Como Copérnico, Galileu Galilei, o pai da experimentação gravitacional, jamais integrou a cartilha bolsonarista.

Sob o governo do capitão, e sem as noções de física e boa vizinhança checadas, a cúpula do Itamaraty se converteu num rinoceronte pesado e sem pantufas numa sala de cristais chamada Chancelaria. Nessa sala de pé direito avantajado falta inteligência e sobram cusparadas.

O ministro das Relações Exteriores é a encarnação da luta contra o chamado climatismo, o globalismo e a ideologia de gênero —fantasmas da contemporaneidade para convencer o interlocutor a voltar a tempos pré-iluministas, quando a razão suplantou a fé na tomada de decisões.

Araújo, o nacionalista, não estava sozinho na cruzada. Fazia o que mandava o então líder da turma, Donald Trump, o fortão do fundo da sala que passou quatro anos distribuindo patadas em organismos multilaterais sob a égide do America First. O Brasil de Araujo quis brincar de cosplay sem ter a mesma musculatura. Hoje está de joelhos.

Da prova de Trump o governo brasileiro copiou a hostilidade contra a China, maior parceiro comercial dos produtores brasileiros e atacado em plena luz do dia pelo então ministro da Educação, Abraham Weintraub, e o filho 03 do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), a quem foi prometida a embaixada Washington.

Na briga, Araújo sempre ficou ao lado (ou abaixo) do cuspe.

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Os ataques, com acusações de espionagem envolvendo tecnologia 5G, culpa pela pandemia e expressões xenófobas, estremeceram as relações com um dos países-chave para a produção e distribuição de insumos para todo tipo de produto da cadeia industrial. Inclusive a vacina, que só às portas dos 300 mil mortos na pandemia do coronavírus parece mobilizar os esforços do governo que, até outro dia, não sinalizava censuras aos seus integrantes e aliados estratégicos quando se referiam ao patógeno como “vírus chinês” — e ao imunizante produzido pelo Instituto Butantan em parceria com uma fabricante chinesa como “vachina”.

O próprio Jair Bolsonaro parecia confiante de que jamais precisaria tanto, para sobreviver politicamente, da vacina que tanto desprezou em lives, discursos e encontro com apoiadores, a quem mandava buscar imunizantes na casa da progenitora sempre que perguntado.

O isolamento diplomático do Brasil hoje é resultado da arrogância, e a arrogância é sempre resultado da autoestima descalibrada de quem se acredita superior ou da insegurança produzida pela própria ignorância. É implícito, ao ser humano, reagir com desprezo a tudo o que não entende. E, no imbróglio das vacinas e da construção de pontes com possíveis aliados, o governo Bolsonaro deu mais de uma prova de que tem a sabedoria e a habilidade de uma criança em fase oral e com a testa escarrada.

Araújo teve a cabeça pedida por senadores na mesma sessão em que um assessor presidencial juntou os dedos e fez um gesto, para as câmeras, com cara, cheiro e cor de uma insígnia supremacista —o que ele nega.

Pressionados pelos representantes do PIB, os parlamentares já identificam no chefe das Relações Exteriores um empecilho para destravar a boa vontade da comunidade internacional da qual nos isolamos. Um dos que hoje torcem o nariz para o país é a Índia, contrariada pelo Brasil nas discussões sobre a queda das patentes das vacinas, como defendia Nova Déli. Brasília preferiu ficar ao lado de Trump, contrário à proposta, mesmo sabendo que isso seria prejudicial aos próprios interesses. Hoje não há vacina para todos nem aliado prioritário na Casa Branca a quem socorrer.

Como pela força da gravidade, caiu em pouco tempo o discurso feito por Ernesto Araújo no fim de outubro de 2020, quando parecia nadar em autoestima e altivez ao negar alianças com “o cinismo interesseiro dos globalistas, dos corruptos e semicorruptos” de outros países. Era um petardo cheio de saliva em direção a organismos multilaterais, como a Organização Mundial da Saúde, prestes a cair, cinco meses depois, na testa de todos os brasileiros.

Araújo dizia na ocasião, uma formatura de novos diplomatas, que o Brasil falava de liberdades através do mundo e que, “se isso faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária”.

Ele se gabava dos resultados de quem deixou de ser conviva dos banquetes de outras nações e chamava de “covidismo” o “aparato prescritivo, destinado a reformatar e controlar todas as relações sociais e econômicas do planeta”.

Como na música de Bob Dylan, Araújo e os lunáticos que o cercam já não falam tão alto nem parecem tão orgulhosos.

Nunca o país precisou de tantas pontes para atravessar uma crise. E nunca teve tanta bomba instalada em sua estrutura contaminada pela ideologia mais rasteira.

Por isso a presença de Araújo se tornou incômoda, um elemento tóxico que pode implodir o já sensível fio que mantém o apoio de Bolsonaro em pé no Congresso e no grosso do empresariado já aflito com a incapacidade de debelar a crise que esfaleça corpos e CNPJs.

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