Ernesto e principal diplomata de Biden conversam em novo esforço de aproximação

RICARDO DELLA COLETTA
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - No primeiro contato de alto nível entre os governos de Jair Bolsonaro e Joe Biden, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, conversou no final da manhã desta quinta-feira (11) com o Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken. A chamada telefônica vinha sendo solicitada pelo Itamaraty, que busca abrir interlocução com as novas autoridades americanas -muitas delas críticas a Bolsonaro. Segundo interlocutores, os temas abordados pelas duas autoridades foram cooperação regional, ações de combate à pandemia de Covid-19 e conservação ambiental, entre outros itens da agenda bilateral. A vitória de Biden foi um revés para Bolsonaro, que apoiou abertamente a reeleição de Donald Trump na corrida pela Casa Branca. O líder brasileiro foi um dos últimos a cumprimentar Biden pela vitória e, poucos dias antes da posse, deu declarações mal vistas por aliados do americano. Bolsonaro repetiu acusações de Trump -sem provas- de que houve fraude no pleito dos EUA. Em outra frente, Ernesto se referiu aos manifestantes pró-Trump que invadiram o Congresso americano como "cidadãos de bem". Após a posse de Biden, no entanto, o tom do governo brasileiro mudou e Bolsonaro passou a enviar sinais de conciliação e moderação. No dia da posse nos EUA, o presidente do Brasil enviou uma carta a Biden na qual defendeu parcerias entre os dois países "em prol do desenvolvimento sustentável e da proteção do meio ambiente". "Estamos prontos, ademais, a continuar nossa parceria em prol do desenvolvimento sustentável e da proteção do meio ambiente, em especial a Amazônia, com base em nosso Diálogo Ambiental, recém-inaugurado. Noto, a propósito, que o Brasil demonstrou seu compromisso com o Acordo de Paris com a apresentação de suas novas metas nacionais", escreveu Bolsonaro. A ênfase dada ao tema não foi ao acaso, uma vez que diplomatas preveem que Biden deve colocar forte pressão sobre o Brasil em assuntos ligados à sustentabilidade. O americano colocou o tema como prioridade e indicou John Kerry, ex-candidato a presidente e ex-secretário de Estado, como seu enviado especial para o clima. Entre políticos do Partido Democrata, Bolsonaro é visto como um líder de tendências autoritárias que não tem compromisso com a preservação da Amazônia. No final de janeiro, Ernesto também enviou uma mensagem a Blinken. Na correspondência, o chanceler destacou a agenda e os interesses em comum entre os dois países em áreas como as econômica, comercial e ambiental. O secretário de Estado é o chefe da diplomacia americana e o cargo tem funções semelhantes ao de ministro de Relações Exteriores no Brasil. A preocupação no Itamaraty é impedir que as diferenças de opinião entre as administrações Bolsonaro e Biden levem o governo brasileiro a perder interlocução com Washington. Auxiliares do presidente sabem que setores da sociedade civil críticos a Bolsonaro estão tentando estabelecer diálogo com a administração Biden. No início de fevereiro, um documento elaborado por professores de universidades e diretores de ONGs internacionais foi entregue a membros da administração americana. O informe defende o congelamento de acordos, negociações e alianças políticas com o Brasil enquanto Bolsonaro estiver na Presidência. No Itamaraty, o dossiê tem sido tratado como uma proposta elaborada fora do governo americano, mas ele reforçou a necessidade de fazer chegar a Washington os argumentos do governo Bolsonaro. Assessor próximo a Biden, Blinken foi confirmado no cargo pelo Senado em 26 de janeiro. Especialistas destacam que a agenda da diplomacia americana deve estar centrada nas relações com China e Rússia, além da reaproximação com aliados tradicionais na Europa. Mas o Brasil foi tema recentemente de uma fala da secretária de Imprensa da Casa Branca, Jen Psaki. Ela foi perguntada sobre o relatório produzido pelas ONGs, mas deu ênfase à parceria comercial entre Estados Unidos e Brasil. "Nós permanecemos fortemente empenhados numa relação econômica significativa. Somos [os EUA] de longe o maior investidor no Brasil, inclusive em muitas das empresas brasileiras que são mais inovadoras e focadas em crescimento. E nós vamos continuar, nos próximos meses, a fortalecer nossos laços econômicos e a aumentar nossa grande relação comercial, que segue em expansão", disse.