Escândalo das vacinas na Argentina: presidente pede renúncia do ministro da Saúde

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O ministro da Saúde da Argentina, Gines Gonzalez Garcia, no Congresso em Buenos Aires, em 10 de dezembro de 2020

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, solicitou a renúncia de seu ministro da Saúde após a denúncia nesta sexta-feira (19) de que seus parentes haviam sido vacinados contra a covid-19 em seu gabinete, sem ter que esperar sua vez como os demais argentinos.

Fernández "deu a indicação ao chefe de gabinete (Santiago Cafiero) para pedir a renúncia do ministro da Saúde", Ginés González García, disse à AFP uma fonte do governo.

O ministro da Saúde, de 75 anos, que também comandou a pasta durante o governo Néstor Kirchner (2003-2007), não fez nenhuma declaração até o momento.

As vacinações "privilegiadas" na sede do Ministério da Saúde foram reveladas no mesmo dia em que a cidade de Buenos Aires disponibilizou a solicitação de agendamentos online para a imunização de pessoas com mais de 80 anos a partir da próxima segunda-feira, sistema que entrou em colapso quase de imediato devido à enorme demanda.

Até agora, na Argentina, apenas os profissionais de saúde foram vacinados. Só na quarta-feira começou a vacinação para maiores de 70 anos na província de Buenos Aires.

- "Imoralidade" -

O escândalo estourou depois que o jornalista Horacio Verbitsky disse nesta sexta na rádio que, graças a sua longa amizade com o ministro, conseguiu se vacinar em seu gabinete.

"Decidi me vacinar. Fui descobrir onde fazer isso. Liguei para meu velho amigo, Ginés González García, que conheci muito antes de ele ser ministro", contou Verbitsky.

Além da atuação como jornalista, Verbitsky, de 71 anos, também preside o Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), dedicado aos direitos humanos.

Roberto Navarro, dono da Destape Radio, estação em que Verbitsky fez a revelação, anunciou que cancelou suas colaborações. “É uma imoralidade que com 50 mil mortos hajam vacinados VIP. É imoral quem autorizou e quem foi vacinado”, disse Navarro no Twitter.

Os funcionários do CELS também condenaram o fato. “Recebemos a notícia de que o presidente da nossa organização foi vacinado fora do sistema estabelecido, através de uma cadeia de favores e a título pessoal (...) A equipe do CELS rejeita esta ou qualquer outra ação ou privilégio”, tuitaram.

O escândalo causou uma onda de reações nas redes sociais com a hashtag #vacunasvip (vacinas vip).

Segundo a imprensa local, outras pessoas próximas ao governo também foram vacinadas no Ministério da Saúde.

A Argentina, com 44 milhões de habitantes, acumula mais de dois milhões de infecções pela covid-19 e ultrapassa as 51 mil mortes.

A vacinação começou no país no final de dezembro com a Sputnik V, do laboratório russo Gamaleya. O presidente Fernández e a vice-presidente Cristina Kirchner, ambos na casa dos 60 anos, foram vacinados diante das câmeras para transmitir confiança na vacina.

Até o momento, a Argentina recebeu 1,22 milhões de doses da Sputnik V e 580 mil da Covishield, vacina do Serum Institute of India.

O plano de imunização argentino inclui, mais a frente, vacinas da aliança britânica Oxford/AstraZeneca e de outros contratos, inclusive por meio do mecanismo de cooperação internacional Covax, totalizando 62 milhões de doses.

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