Escândalos sexuais e mentiras: renúncia de Boris Johnson gera confusão e agrava situação do Brexit

REUTERS - HENRY NICHOLLS

A gota d’água para que muitos políticos do Partido Conservador britânico exigissem a renúncia de Boris Johnson, seu líder e primeiro-ministro do país, foi um escândalo de natureza sexual e seus desdobramentos. Johnson apontara Christopher Pincher como vice-líder do partido. Em junho deste ano, Pincher foi acusado de assediar sexualmente dois homens numa festa privada, coisa que o levou à renúncia de seu cargo. Sobre Pincher já pesavam acusações anteriores de assédio sexual.

Por Flávio Aguiar

Quando questionado a respeito, Johnson declarou desconhecer tais acusações. Depois reformulou a declaração, dizendo que ele “as esquecera”.

Ficou evidente que ele mentira na primeira declaração. Aliás, mais uma vez mentira, como no caso das investigações sobre festas irregulares e escandalosas, verdadeiras orgias alcoólicas, na residência oficial dos primeiros-ministros britânicos, Downing Street, n° 0, durante a pandemia.

A permanência deste comportamento exasperou seus correligionários. Vários ministros e dezenas de outros membros do governo se demitiram e Johnson se viu forçado a anunciar sua renúncia.

Escândalos sexuais ou conjugais são moeda corrente na política britânica. Lembremos alguns dos casos mais evidentes.

Nos anos 30 o rei Eduardo VIII foi forçado a abdicar devido a seu anúncio de casamento com Wallis Simpson, uma plebeia norte-americana, duas vezes divorciada, um gesto demasiado para os padrões do moralismo então dominante.

Na década de 60 explodiu o “caso Profumo”. John Profumo, então na casa dos 40 e Secretário de Estado da Defesa, casado, se envolveu com uma modelo de 19 anos, Christine Keeler. A história complicou-se porque ela se envolvera também com um adido naval da Embaixada Soviética, o capitão Yevgeny Ivanov, sugerindo um “affaire” de espionagem, nunca comprovado. Em consequência, na eleição seguinte o Partido Conservador perdeu para o Partido Trabalhista.

Triângulo amoroso do Príncipe Charles

Mais recentemente houve o caso do turbulento divórcio do atual herdeiro da Coroa, Príncipe Charles, de sua consorte Lady Diana, envolvendo variadas conjeturas e denúncias sobre traições conjugais mútuas. Tudo terminou numa tragédia, a morte de Lady Di, como ela era conhecida, num acidente de carro e num novo casamento do Príncipe com sua ex-amante, Camilla Parker Bowles.

Contudo, o presente escândalo, que envolveu indiretamente o primeiro-ministro Boris Johnson é a ponta de um iceberg muito mais complicado. Este iceberg chama-se “Brexit”, o conturbado processo de saída da União Europeia por parte do Reino Unido.

O processo começou em 2016, com um controverso plebiscito chamado pelo então primeiro-ministro conservador David Cameron. Este contava com a vitória da permanência, mas perdeu, e foi forçado a renunciar. Um dos políticos de seu partido que favoreceu a ruptura foi nada mais nada menos que… Boris Johnson.

Estilo agressivo e impulsivo

A sucessora de Cameron, Theresa May, tentou inutilmente conciliar as negociações com as autoridades da União Europeia frente às demandas do Parlamento Britânico. Apontado por ela como Secretário de Relações Exteriores, Johnson e seu estilo agressivo em nada a ajudaram.

Em 2019, May teve de renunciar, sendo substituída por… Boris Johnson. No governo, este continuou com seu estilo impulsivo. Manejando a ideia de favorecer o Brexit com defesa de empregos para os britânicos, conseguiu imediatamente uma vitória espectacular dos Conservadores nas eleições de dezembro daquele ano, mas foi se enredando na sua própria maneira de conduzir a política, num estilo semelhante ao de Donald Trump, desrespeitando convenções, e recorrendo, com frequência, a declarações que, como no caso Pincher e no das festinhas em sua residência, não correspondiam à verdade dos fatos. Levou uma moção de censura por desrespeitar as restrições impostas pela pandemia.

É verdade que conseguiu levar a cabo a ruptura com a União Europeia, concretizada legalmente às 23 horas de 31 de janeiro de 2020, e deu o caso por encerrado. Mas o feitiço virou-se contra o feiticeiro.

Acontece que, no fundo, este caso, o do Brexit, está longe de ser resolvido. No cenário recessivo e inflacionário que toda Europa vive, e o Reino Unido não é exceção, ele enfrenta uma série de problemas econômicos agravados pela ruptura.

Além disso, há pelo menos dois contenciosos internos a resolver. O Reino Unido é formado pela Grã-Bretanha (Inglaterra, Escócia, País de Gales) e Irlanda do Norte. A Irlanda do Norte preserva laços estáveis culturais, sociais e econômicos com a vizinha República da Irlanda, na mesma ilha, uma situação complicada pelo Brexit. Outro é o da Escócia, onde há um forte movimento pela permanência na União Europeia que pode leva-la à ruptura com Londres levantando a antiga bandeira da independência.

Agora seu país vive uma situação peculiar, em que ele, segundo comentário do jornal The Guardian, “saiu, mas não saiu”, pois anunciou que vai ficar no cargo até que seu partido escolha o novo líder, num processo que pode durar semanas, até meses, num momento em que nas intenções de voto o Partido Trabalhista apresenta uma leve vantagem sobre seu rival. Resistindo às pressões para que renuncie imediatamente, Boris Johnson pode estar colocando a pá-de-cal no reino e na confusão que ele mesmo ajudou a criar.

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